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The Immigrant: Os tempos cinzentos de Nova Iorque
A menina é nova cá em Nova Iorque?

The Immigrant: Os tempos cinzentos de Nova Iorque

A menina é nova cá em Nova Iorque?
Cultura 3 min. 04.12.2013

The Immigrant: Os tempos cinzentos de Nova Iorque

O realizador americano James Gray parece ter decidido escrever a história dos Estados Unidos através do seu cinema. O multiculturalismo da América tem sido o centro das obras que assina desde muito jovem.

"The Immigrant", presente no festival de Cannes de 2013, é uma espécie de regresso a uma realidade que Gray já tinha abordado na sua primeira longa metragem, "Little Odessa", que dirigiu quando tinha apenas 25 anos.

A acção desenrola-se no início do século XX. Ewa (Marion Cotillard) chega aos Estados Unidos, directamente da sua Polónia natal. A entrada na terra prometida faz-se de forma complicada: Ewa quase que é expulsa, a sua irmã fica retida, mas a jovem acaba por ser ajudada por Bruno (Joaquin Phoenix).

Este agradável bom samaritano rapidamente revela o seu interesse verdadeiro em Ewa: torná-la prostituta para os mais abastados homens da cidade.

Gray pega nesta história simples – e de uma certa forma actual – e desenvolve os seus temas habituais.

Recorde-se que o realizador é, ele próprio, neto de judeus ucranianos emigrados para os Estados Unidos. Nascido em Nova Iorque, Gray assume a sua herança judaica e o seu primeiro filme tem muito de autobiográfico. "Little Odessa" passa-se em Brighton Beach, um bairro de Brooklyn, onde viviam sobretudo ucranianos e russos. Com este filme, Gray ganhou o Leão de Prata em Veneza.

"The Immigrant" vale muito pela reconstrução do Lower East Side nova-iorquino e pelo retrato da miséria que nessa época se vivia na metrópole americana.

A manipulação, a traição, a falsidade em geral, estão entre os temas centrais do filme e da cinematografia do realizador. Gray escolhe uma abordagem quase bíblica dos temas e formata o seu filme como se de uma ópera se tratasse.

A paixão de James Gray pelos actores franceses (e por Joaquin Phoenix) continua bem viva. Marion Cotillard é a protagonista e encarna Ewa com talento. O olhar é um dos seus trunfos, evitando muitas vezes as palavras como se estivéssemos num filme mudo, num filme daqueles tempos.

A actriz francesa transmite frieza mas também inspira confiança; contrariamente às outras personagens, que se mostram cobardes, violentas e falsas. Joaquin Phoenix e Jeremy Renner encarnam dois irmãos que se completam e opõem. Vê-se neles a América de contrastes, de mentiras mas também de ilusões e sonhos.

James Gray opta por uma realização clássica que infelizmente ajuda a adivinhar o que se vai passar. A beleza das imagens – quase sépia – cria uma atmosfera pesada e claustrofóbica. As personagens parecem fechadas naquele espaço limitado e nos quartinhos diminutos onde vivem.

As expectativas dos seguidores de Gray eram elevadas. "The Immigrant" é um filme que aposta na continuidade e que se aproxima mais de "Little Odessa" ou de "The Yards" que de trabalhos mais recentes.

Talvez falte energia, talvez falte romantismo, e certamente sente-se um défice de emoção que pode ser inexplicável quando o argumento está cheio de razões para engajar os espectadores. Ewa, forçada a prostituir-se, fazendo tudo para tentar tirar a sua irmã de Ellis Island.

Os irmãos Bruno e Emil em latente e permanente conflito. Emoções não faltam, mas o realizador e argumentista optou pela ambiguidade e criou um peso tão imenso que as emoções parecem abafadas.

"The Immigrant", de James Gray, com Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Angela Sarafyan, Dagmara Dominczyk, Elena Solovey, Ilia Volok, Jeremy Renner, Jicky Schnee e Maja Wampuszyc.

Raúl Reis