Escolha as suas informações

The Heat: Calor de Verão
Quem diria que estas duas são agentes do FBI?

The Heat: Calor de Verão

Quem diria que estas duas são agentes do FBI?
Cultura 3 min. 10.09.2013

The Heat: Calor de Verão

"The Heat", de Paul Feig, com Sandra Bullock, Melissa McCarthy, Demián Bichir, Marlon Wayans, Michael Rapaport e Jane Curtin.

O filme de Paul Feig é uma comédia com pernas para andar, sobretudo graças aos diálogos inteligentes e à química demonstrada pelas protagonistas.

Contudo, "The Heat" é um filme típico de "dupla de polícias", um género que já tem as solas rotas. Feig colocou-lhe meias soltas ao transformar os agentes em mulheres e fez os possíveis para criar situações inéditas.

Sandra Bullock interpreta a agente do FBI Sarah Ashburn, uma experiente polícia profissional que raras vezes perde a compostura, a não ser quando quer recordar aos seus pares que tem no currículo mais casos resolvidos do que qualquer outro.

A personagem de Melissa McCarthy – Shannon – é, como seria de esperar, o oposto de Sarah: pouco profissional, desleixada e apreciadora de palavrões.

E porque é que Shannon trabalha com Sarah? A resposta também é conhecida para quem esteja habituado a este género de películas: o chefe (Demián Bichir) acha que Sarah pode exercer uma boa influência sobre Shannon e põe-nas a trabalhar em equipa.

As duas novas colegas têm pela frente um desafio de primeira grandeza, pois são encarregadas de desmantelar uma rede de tráfico de droga que tem vindo a afligir a cidade de Boston.

Sarah tem todas as virtudes necessárias para tratar do caso, mas falta-lhe o conhecimento da cidade e dos seus meandros. É aí que Shannon se revela importante: nascida em Boston, a agente vai ter uma contribuição essencial.

Esta capacidade de se complementarem faz com que "The Heat" tenha verdadeiramente duas protagonistas. A interpretação de Bullock e McCarthy revela um entendimento excepcional. A personagem cabotina e exagerada que McCarthy encarna faz um excelente contraponto com a seriedade da sua colega.

Melissa McCarthy é uma especialista deste tipo de papéis ("Bridesmaids" e "Identity Thief"), mas o facto de em "The Heat" se tratar de uma agente do FBI dá-lhe valor acrescentado e torna as suas tiradas foleiras mais... aceitáveis e divertidas.

O realizador volta a demonstrar que acredita piamente que um filme com protagonistas femininas pode ser mais divertido do que se for rodado com homens, e é capaz de ter razão. Talvez ele seja o realizador mais capaz de pegar em argumentos básicos e agressivos e colocá-los na boca de mulheres sem nos fazer fugir a sete pés.

Feig toma duas boas decisões. Primeiro, não tenta integrar homens na acção para "ajudar" o sexo fraco. Segundo, não integrou nenhuma história romântica como pano de fundo, o que torna o filme muito mais digerível.

Por fim, as duas mulheres, tão diferentes, não tentam mudar-se e nem sequer mudam na sua essência. Frequentemente, neste tipo de "buddy movies", os dois protagonistas acabam por mudar, assimilando um bocadinho da personalidade do outro e tornando-se ambos mais "normais". Em "The Heat" nada disso acontece e, só por isso, o trabalho de Paul Feig já merece uma referência positiva.

E depois temos Bullock e McCarthy que mostram a muitos grandes actores que por aí andam que quando duas artistas assumem aquilo que estão a fazer de corpo e alma não é preciso um argumento de luxo para que um filme seja agradável de ver. 

"The Heat", de Paul Feig, com Sandra Bullock, Melissa McCarthy, Demián Bichir, Marlon Wayans, Michael Rapaport e Jane Curtin. 

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 17.07.2013