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The Crown: Os tempos estão a mudar. E rolaram cabeças.
Cultura 10 min. 16.11.2019

The Crown: Os tempos estão a mudar. E rolaram cabeças.

The Crown: Os tempos estão a mudar. E rolaram cabeças.

Sophie Mutevelian/Netflix/dpa
Cultura 10 min. 16.11.2019

The Crown: Os tempos estão a mudar. E rolaram cabeças.

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Peter Morgan, o criador da série da Netflix fez o impensável. Ao fim da segunda temporada mudou todo o elenco de uma das séries mais bem sucedidas e mais caras de sempre. The Crown terá mais quatro temporadas.

 Onde andam os reis depostos

No passado fim-de-semana (a 9 de novembro), Claire Foy e Matt Smith representaram pela última vez um casal em crise existencial. Não estão em Buckingham Palace, como nos habituámos a vê-los, mas no Ikea, quando começam a abordar a ideia de ter um filho “pelos motivos certos”. Não há ambientes grandiosos, nem guarda roupa requintado, nem os famosos ‘corgis’ que perseguem a Rainha a toda a hora.

Claire Foy e Matt Smith tornaram-se internacionalmente conhecidos como Rainha Isabel II e príncipe Filipe pelo seu desempenho na série da Netflix The Crown e o primeiro reencontro como casal deu-se na peça Lungs, de Duncan Macmillan. Num palco feito de painéis solares e montado a meio da sala do Old Vic, em Londres, os dois convenceram o público nos primeiros instantes de que o seu tempo de reinado passou. São atores suficientemente talentosos para se terem tornado aos olhos do público num casal vulgar, de calças de ganga e ténis, envolvido com a excruciante decisão de ter um filho num mundo em vésperas de catástrofe ambiental. Numa das cenas ela calcula que a pegada de carbono da criança será superior ao peso da Torre Eiffel.

A peça esteve em cena de 14 de Outubro a 9 de Novembro, sempre com casa esgotada e com críticas entusiasmadas ao casal e à química que demonstram mesmo para lá das personagens de Philip Mountbatten e Elizabeth of Windsor. O ator português Paulo Pires foi um dos espetadores. No final das gravações da telenovela da TVI A Prisioneira, o ator tirou um fim-de-semana com a mulher, a ex-modelo e agora psicóloga Astrid Werdnig, para ir a Londres ver teatro. Viu três peças (The Son, do dramaturgo francês Florian Zeller e Solaris). Lungs surpreendeu-o: “Não tinha um expetativa muito alta, mas foi dos espetáculos que vi aquele de que mais gostei. Mas só conseguimos ver a peça porque insistimos e fomos à bilheteria à tarde procurar uma desistência”. Lungs estava esgotado praticamente desde os primeiros dias em que foi posto à venda, no final de Junho. “É um espectáculo de atores, não há qualquer adereço e é preciso ser-se muito bom”. Paulo Pires, participou também numa série produzida para a Netflix pela Left Bank Pictures, a mesma produtora de The Crown. A série chama-se White Lines, é escrita pelo mesmo autor de A Casa de Papel (Álex Pina) e tem o ator Nuno Lopes como protagonista. E depois de ver a peça, decidiu voltar a ver The Crown de fio a pavio.

Quanto a Claire Foy, a atriz de 34 anos que protagonizou Isabel II enquanto jovem, ganhou reconhecimento internacional (recebeu um Globo de Ouro e um Emmy) e já se descolou da figura rainha, em papéis a milhas da contenção típica da Casa de Windsor e executados de forma igualmente brilhante. Foi Lisbeth Salander na saga policial Millenium, mulher do astronauta Neil Armstrong, em Primeiro Homem, e ganhou o estatuto de perfeita rosa inglesa, além de grande promessa entre as jovens atrizes da sua geração.

Matt Smith participou em várias séries inglesas antes de ser escolhido para The Crown. Uma das suas maiores referências é a escolha como a 12ª encarnação do protagonista de Dr. Who, a série da BBC que está no ar ininterruptamente desde 1963. E foi por causa desse estatuto, dizem os produtores, que Matt Smith ganhou um cachet maior do que a protagonista principal, sua majestade, a detentora da coroa. Houve um pequeno escândalo e Claire Foy disse-se vexada por parecer que estava contra o amigo. Estima-se que Claire Foy tenha ganho 40 mil dólares por episódio. Nas próximas temporadas a questão não se porá, esclareceu a produção. Sua majestade terá sempre direito à maior fatia do bolo.

Os novos titulares

Olivia Colman será na terceira temporada a Rainha com mais de 38 anos, começando em 1963 e terminando 13 anos depois. Olivia Colman, de 45 anos, há muito tempo que não é uma desconhecida nem dos súbditos ingleses, nem dos subscritores da Netflix. Fez o papel da detetive em Broadchurch e ganhou um Globo de Ouro como atriz secundária na mini-série inspirada no romance de Le Carré, O Porteiro da Noite. Este ano recebeu o Oscar de melhor atriz pelo papel de Ana da Grã-Bretanha no filme A Favorita, a sua primeira personagem coroada. Diz ter ficado assustada com a ideia de substituir Claire Foy, mas que depois conseguiu encontrar a sua versão da monarca. A própria Claire Foy comentou sentir-se honrada por ser substituída por Olivia. Uma transição de ceptros suave.

Uma das coisas que foram consideradas na transformação de Olivia em Elizabeth foi a cor dos olhos. Olivia tem olhos castanhos, Elizabeth azuis. A primeira tentativa foi de pôr lentes de contacto coloridas, mas de acordo com o que Ben Caron, o realizador dos primeiros episódios, disse ao Guardian “era como se ela estivesse a representar através de uma máscara”. Depois houve a tentativa de manipular as imagens por CGI (Computer Generated Images) na pós-produção, mas o efeito era irrealista. Foi decidido que seria mais próximo da verdade deixar os olhos da monarca castanhos. O brilhantismo de Olivia fará o resto. E a equipa de guarda-roupa não poupou esforços, criando um visual para cada momento, e uma nova paleta de cores mais berrante, que ainda são a imagem de marca da soberana.

Tobias Menzies (que fazia um papel duplo de Frank e de Jonathan Randall na série Outlander, também produzida pela East Bank e também em streaming na Netflix) irá encarnar a figura complexa do duque de Edimburgo e diz-se que foram para ele escritas as melhores linhas. A semelhança entre Menzies e o retratado precisou apenas de uns retoques. Olivia Colman contou à Vogue que lhe raparam um pouco a linha do cabelo, para imitar a calvície do príncipe.

O resto do pessoal

A princesa Margaret - a irmã da Rainha que continuará a ser uma permanente antagonista, a tentar roubar palco e a tornar-se uma figura da boémia e do jet-set - é agora protagonizada por Helena Bonham Carter (Quarto Com Vista, Sweeney Todd). Fisicamente não são muito parecidas, mas partilham um traço de personalidade: a excentricidade.

Helena Bondam Carter disse num talk show que quando visitou uma amiga vidente esta a avisou que Margaret estava na sala. Helena ainda não tinha aceite o convite da Netflix. E pediu para perguntar ao espírito de Margaret o que acharia se ela a interpretasse. Na altura, o fantasma de Margaret deu-lhe a aprovação e uma dica muito útil”: “Disse-me que é importante a maneira como eu seguro nos cigarros. Como membro da realeza, Margaret não fala muito. Tudo ela é pose e silhueta”. Quanto às palavras que Margaret proferia em vida, mesmo que poucas, surtiam efeito. A actriz cruzou-se com a princesa algumas vezes antes de esta ter morrido, em 2002. “Tinha uma característica que era elogiar, ao mesmo tempo que mandava abaixo”.

Margaret, uma espécie de ovelha negra da família real, com uma carreira paralela de figura do jet set, seria uma estrela nos Estados Unidos (com banquetes organizados em sua homenagem recheados de convidados de Hollywood), e conhecida também por escândalos amorosos e um lado soturno. Vanessa Kirby, que a interpretou em jovem, prometeu que nunca esquecerá a sua participação na série e agradeceu possibilidade de interpretar uma figura carismática e atormentada. Margaret foi pela irmã proibida de casar (com Peter Townsend um militar divorciado) e acabaria por unir-se ao fotógrafo Antony Armstrong-Jones com o qual teve um casamento triste e escandaloso.

Na terceira temporada, Carlos, o herdeiro do trono, surge adulto no episódio seis. É interpretado por Josh O’Connor, um ator de orelhas grandes, que diz ter consciência que as semelhanças acabam aí. Mas é a intérprete da jovem Camilla Shand (no futuro Parker Bowles e atualmente duquesa da Cornualha, mulher de Carlos) quem tem a melhor definição do seu desafio. Emerald Fennel (Call the Midwife e Killing Eve) diz estar contente, por adorar a impulsiva Camilla sobre a qual quase não há nenhumas referências, e “grata por ter tido uma adolescência que a preparou para representar uma fumadora e beijoqueira compulsiva com um corte de cabelo à tigela”.

Na quarta temporada da série, o elenco manter-se-á, como já anunciou Peter Morgan, o criador da série, segundo o princípio de que é credível um ator fazer uma personagem dez anos mais velha ou mais nova. Mas haverá duas novas suculentas aquisições, que acompanham o evoluir dos tempos. Nos anos Thatcher, entra a dama de ferro, que terá as célebres audiências com a Rainha e Diana Spencer, a futura princesa do povo. Margaret Thatcher será interpretada por Gillian Anderson ( X Files) e usará peruca. Na sexta temporada, muito provavelmente, todas as cabeças vão rolar.

E os Windsor, o que acham disto tudo?

Muito se discutiu se Isabel II de Inglaterra vê a série. Segundo o jornal Express, o filho mais novo, Edward, e a nora, convenceram-na a ver toda a primeira temporada em sessões ao sábado à noite no castelo de Windsor e ela terá apreciado. É também conhecido que uma das netas, a princesa Eugenie (filha de Fergie e do duque de York) é é uma grande fã. E Peter Morgan, com muitos contatos em Buckingham Palace, disse à revista Variety que a família real “está muito a par da série”, e que “ficam muito nervosos por não terem o controlo, mas também entendem que haver alguém a tratar este assunto com respeito é uma coisa rara”. No entanto, numa cerimónia pública em que se cruzou com Olivia Colman, William (segundo herdeiro do trono) disse que não acompanhava a série. E o príncipe Filipe admitiu que a ideia de o fazer seria ridícula. Quanto aos duques de Sussex, é fácil imaginar Meghan e Harry - cada vez mais distantes de Buckingham - enroscados em frente à televisão na Frogmore House.

Quanto à veracidade da narrativa, numa entrevista recente, Peter Morgan explicou que quatro vezes por ano discute tópicos da série com pessoas muito bem posicionadas dentro do palácio de Buckingham e que eles “encolhem ligeiramente os ombros”, como forma de aquiescerem. Na sequência dessas afirmações e numa carta dirigida a vários jornais ingleses, o assessor de imprensa do Palácio de Buckingham explicou que The Crown não tem o aval da família real nem a confirmação de que os eventos retratados de facto ocorreram. “ A casa real nunca concordou em vetar ou aprovar o conteúdo, não pediu para saber que tópicos seriam incluídos e nunca expressaria sobre a precisão da série”, escreveu.

A estrutura da narrativa, de acordo com os responsáveis da série, é a de uma ficção histórica, em que a moldura são eventos, pesquisados obsessivamente com recurso a documentação e testemunhos, e depois preenchendo os vazios com mais ou menos liberdade criativa, dependendo dos casos e dos episódios. Factual ou não, em termos de custos, a recriação da Coroa inglesa tem sido quase tão cara como manter a monarquia propriamente dita. The Crown tem um orçamento de 56 milhões de euros por cada temporada, enquanto que Isabel II viu recentemente o seu orçamento (e por causa das obras em curso no palácio principal) subir para 93 milhões de euros anuais.