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The Congress: Sem palavras
"The Congress" não é um filme da Disney

The Congress: Sem palavras

"The Congress" não é um filme da Disney
Cultura 3 min. 10.09.2013

The Congress: Sem palavras

"The Congress", de Ari Folman, com Robin Wright, Harvey Keitel, Paul Giamatti, Danny Huston.

O filme de Ari Folman, "The Congress", foi a presença mais ilustre da produção luxemburguesa em Cannes. A presença na Quinzena dos Realizadores, como filme de abertura, prova que as obras do realizador de "Waltz with Bashir" têm um lugar de eleição na Sétima Arte.

O israelita encantou os cinéfilos com o seu filme anterior e tinha deixado a barra muito alta com essa animação dramática, exclusivamente feita para adultos.

Em "The Congress", Folman vai mais longe porque mistura formatos e estilos, criando um mundo cujas regras vamos descobrindo à medida que a história avança (ou será que Folman também foi evoluindo durante a criação da obra?).

Os actores por vezes olham-se sem terem, aparentemente, nada para dizer, mas também não é preciso. O filme cresce connosco e em nós à medida que a acção se desenrola.

O realizador nunca desilude porque é ousado, corajoso e cria um ambiente estranho que intriga. Na parte do filme em que os actores são de carne e osso, o espectador já não consegue fugir a um ambiente pesado que faz transpirar.

Quando Robin Wright (que desempenha o seu próprio papel) é levada para o mundo da animação, o filme torna-se ainda mais fulgurante, mais surpreendente. A actriz representa todas as actrizes num mundo em que Hollywood e o cinema são transformados numa estranha corporação malvada.

As emoções acentuam-se na passagem à animação, enquanto que o duo com Harvey Keitel transforma "The Congress" numa experiência visual e sonora inesquecível.

A obra de Folman conta a história de uma actriz que descobre, aos 44 anos, que os produtores de cinema já não querem saber dela. O seu agente (Keitel) explica-lhe a situação: está velha demais e escolheu filmes de má qualidade durante muitos anos.

A ficção e a realidade completam-se se pensarmos que Robin Wright assinou prestações em filmes manifestamente de segunda linha desde que, em 1994, participou em "Forrest Gump".

As cenas entre Keitel e Wright são intensas, mas a transformação acontece quando descobrimos a vida pessoal da actriz, num armazém junto a um aeroporto, com os filhos doentes. O momento em que a actriz é "scanada" e vende definitivamente a sua imagem é crucial: Wright perdeu a alma.

"The Congress" não ataca apenas os estúdios de Hollywood ou o "star system"; todos levam pela medida grande, ou seja, a culpa, é mesmo da Humanidade. Contudo, o realizador optou por retratar os estúdios da Paramount, aos quais chamou "Miramount", e diverte-se a criar piadas de "insider", nomeadamente sobre Tom Cruise.

Folman não parece ter medo do lobo mau. Durante uma conferência de imprensa em que lhe perguntaram se os homens da Paramount ou da Miramax poderiam processá-lo, o realizador respondeu com um sorriso: "Conhece algum estúdio chamado Miramount? Eu inventei esta empresa. É minha!". E quanto à referência a Tom Cruise, também não parecia preocupado: "Viram Tom Cruise no filme? Eu não".

Para convencer o público mais generalista a ir ver esta pérola, aqui ficam algumas guloseimas: não há muitas hipóteses de ver um filme em que Michael Jackson contracene com Grace Jones, por exemplo. E, sobretudo, Ari Folman é um cineasta extraordinário que decidiu fazer filmes únicos e à sua maneira.

Pode haver quem não goste, mas mesmo para esses, a originalidade merece o tempo de uma projecção, sobretudo sabendo que este filme também tem dinheiro luxemburguês e que passou por uma das produtoras cá do burgo que, como todos sabemos, não são tão más como as de Hollywood.

"The Congress", de Ari Folman, com Robin Wright, Harvey Keitel, Paul Giamatti, Danny Huston. 

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 10.07.2013