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"The Call of the Wild". Lembranças de aventuras de infância
Cultura 3 min. 20.02.2020

"The Call of the Wild". Lembranças de aventuras de infância

"The Call of the Wild". Lembranças de aventuras de infância

Foto: Divulgação
Cultura 3 min. 20.02.2020

"The Call of the Wild". Lembranças de aventuras de infância

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Jack London, em "The Call of the Wild" narra as aventuras de Buck, o privilegiado e generoso cão de uma família californiana.

Já não me recordo se os livros de Jack London andavam lá por casa ou se vinham da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Talvez fossem lá de casa, porque sempre houve muitos livros, espalhados por todo o sítio. Alguns, mais recentes, faziam parte de coleções que o meu pai comprava religiosamente ou vinham do Círculo dos Leitores. Os outros davam a impressão de sempre terem existido, de estarem por ali há séculos, de tão amarelados e empoeirados.

Mas os livros de Jack London, tenho quase a certeza, fui buscá-los à carrinha Citroën da Gulbenkian que parava no jardim, mesmo no centro de Felgueiras, às segundas-feiras à tarde. Os livros ali cheiravam a velho e a papel. Ou seja, cheiravam a livro, lido e relido, e quanto mais lidos, mais interessantes deveriam ser. Se hoje os miúdos clicam no vídeo do YouTube que tem mais visualizações, nessa altura convinha escolher os livros mais surrados, pois seriam certamente os melhores.

Jack London era um nome ilustre, garantia de aventuras e hipótese de eu chegar ao fim. Esse sempre foi o meu maior problema: acabar um livro. Mas com os de Jack London até que conseguia... Na altura eu não sabia que o escritor tinha sido garimpeiro no final do século XIX, e que essa experiência foi essencial para poder escrever os romances que tanto me encantaram.

Em 1896, pepitas de ouro foram encontradas, no Alasca, e a descoberta do metal precioso nesta região fez com que milhares de norte-americanos, e não só, juntassem as suas economias e rumassem ao norte, na tentativa de enriquecer. Para sobreviver naquele meio tão frio, era necessário levar provisões e cães fortes para puxar trenós, o único meio de transporte possível.

Jack London, em "The Call of the Wild" (que em português foi traduzido de várias formas, mas o meu livro chamava-se "Apelo da Selva") narra as aventuras de Buck, o privilegiado e generoso cão de uma família californiana. Durante a febre do ouro, Buck é levado para o Alasca, sofrendo uma série de maus-tratos pelo caminho, até que se encontra no Yukon e vê-se na necessidade de se adaptar à vida selvagem. Buck entra em contacto com sua natureza mais primitiva, redescobrindo os seus instintos básicos.

O livro, publicado pela primeira vez em 1903, deu fama mundial a Jack London e é talvez o romance mais difundido da literatura norte-americana. De aventura em aventura, numa das paisagens mais hostis do mundo, o leitor é levado a reavaliar os seus princípios e a descobrir a rude natureza, mas também a capacidade de adaptação e de sobrevivência tanto dos animais como dos homens.

Desta vez a estrela não é Harrison Ford, é o cão.
Desta vez a estrela não é Harrison Ford, é o cão.
Foto: DR

O romance de Jack London já tinha inspirado vários filmes e séries televisivas, mas não tinha sido ainda adaptado na íntegra ao grande ecrã. Além disso, as anteriores obras decidiram escolher para narrador os seres humanos, fugindo assim ao livro, que conta a história do ponto de vista do animal. No filme de Chris Sanders o cão Buck é claramente o protagonista. O argumentista, Michael Greene, admitiu o desafio em várias entrevistas: como contar a história do ponto de vista do animal e não dos humanos, sem optar por uma voz 'off'?

Os criadores da película pretendiam, sem artifícios, dar a entender o que procura Buck, aquilo que ele quer, em todos os momentos da ação. Apesar de contracenar com humanos, e nada mais nada menos do que com Harrison Ford, os criadores de "The Call of the Wild" deixam claro que o filme é, antes de mais nada, a história de Buck; além de ser também uma extraordinária homenagem a Jack London.

"The Call of the Wild" de Chris Sanders, com Harrison Ford, Omar Sy, Dan Stevens e Wes Brown.