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The Butler: No princípio foi o mordomo
Na minha cozinha os meus empregados não param de conversar

The Butler: No princípio foi o mordomo

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Cultura 4 min. 12.09.2013

The Butler: No princípio foi o mordomo

O filme "The Butler” chega aos ecrãs com uma atracção suplementar para o público de origem portuguesa: Rodrigo Leão é o responsável pela banda sonora original do filme realizado por Lee Daniels, o mesmo de "Precious".

Rodrigo Leão, cujo repertório a solo já foi muitas vezes descrito como "cinematográfico" pela crítica musical, recentemente compôs para as longas-metragens "O frágil som do meu motor", de Leonardo António, e para "La cage dorée", de Ruben Alves.

Rodrigo Leão, que lançou um álbum intitulado "Cinema", em 2004, participou, enquanto músico dos Madredeus, na composição da banda sonora e na interpretação no filme "Lisbon Story" (1994), de Wim Wenders.

Segundo a produtora do músico português, a honra de Leão assinar a banda sonora de "The Butler" é ainda maior, porque estaria em competição com Quincy Jones e Alexandre Desplat, acabando por ser finalmente o português o escolhido.

"The Butler" é uma longa-metragem protagonizada por Forest Whitaker no papel de Cecil Gaines, um mordomo da Casa Branca que serviu oito presidentes norte-americanos, de Harry Truman a Ronald Reagan, ou seja, durante 34 anos.

A história inspira-se em factos reais. Os produtores acharam a ideia obviamente boa quando descobriram a história de Eugene Allen numa série de artigos publicados pelo Washington Post. O jornal americano tinha "descoberto" a história do mordomo da Casa Branca e fez um paralelo com a eleição de Barack Obama.

Antes de Obama ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a Casa Branca já tinha conhecido um ilustre ocupante de raça negra. O afro-americano Eugene Allen entrou na Casa Branca pouco antes da eleição de Dwight Eisenhower, em 1952, acompanhando episódios que marcaram a história dos Estados Unidos e do mundo, até 1986.

Os assassinatos de John e Edward Kennedy, assim como de Martin Luther King, a luta pelos direitos civis e a guerra do Vietname, o caso Watergate e as questões que marcaram a administração de Ronald Reagan, como as relações com a África do Sul, no período do "apartheid", são assuntos abordados ao longo do filme.

Além de Forest Whitaker, "The Butler" conta com uma galáxia inteirinha de vedetas: Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz, James Marsden, David Oyelowo, Vanessa Redgrave, Alan Rickman, Liev Schreiber, Robin Williams e Mariah Carey.

A escolha dos actores para os presidentes deixa a desejar em termos de parecenças. Por vezes, descobre-se mais facilmente quem são através das suas esposas.Uma boa parte destes actores decidiram participar no projecto simplesmente para homenagear "o mordomo" mas também para marcar uma posição política.

Apesar deste imenso cartaz, os grandes estúdios não quiseram investir, o que levou os actores a mexerem cordelinhos para obterem os 25 milhões necessários junto de produtoras independentes. Note-se que a maioria dos actores trabalharam por cachês simbólicos.

Finalmente, o filme obteve um inesperado sucesso, e só no mercado americano já permitiu aos investidores recuperarem largamente o seu dinheiro e muito mais. Apesar da base histórica e documental, o argumentista permitiu-se algumas liberdades, mas tanto ele como o realizador acabaram por cair em estereótipos.

A longa metragem de Daniels tem como defeito – desde o princípio – insistir no romantismo e na emoção. Cecil Gaines perde o pai, assassinado, nos anos 20, e tem uma existência instável até entrar para a Casa Branca como mordomo em 1957.

O mordomo Gaines conta com o apoio moral da sua esposa (Oprah Winfrey) e enfrenta muitas dificuldades ao longo da vida por causa dos seus filhos: Louis é activista nos movimentos de direitos do negros, enquanto Charlie vai tornar-se vítima da guerra no Vietname.

Lee Daniels – ele também negro – opta por uma realização emotiva que não dá o mesmo resultado que o excelente "Precious". Apesar dos valores morais em causa, e do óbvio interesse da história, "The Butler" não consegue ser genuíno nem satisfazer o público.

Oprah Winfrey e David Oyelowo não são suficientemente convincentes, contrastando com a simplicidade e veracidade de Forest Whitaker.

Este é um daqueles filmes que deixa os espectadores com um sentimento de insatisfação: "Não achas que podia ter sido um filme muito bom?", lamentava um espectador. Outra pessoa perto de mim na sala de cinema dizia: "O realizador esforçou-se demais". Tem razão. Lee Daniels queria claramente fazer o filme da sua vida, pretendia fazer uma obra-prima, e esse é sempre um péssimo ponto de partida.

"The Butler", de Lee Daniels, com Forest Whitaker, Oprah Winfrey, John Cusack, Jane Fonda, Cuba Gooding Jr., Terrence Howard, Lenny Kravitz, James Marsden, David Oyelowo, Vanessa Redgrave, Alan Rickman, Liev Schreiber, Robin Williams e Mariah Carey.

Raúl Reis    


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