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The Bling Ring: Duas chapadas bem dadas
Quando eu era pequenina nunca me deram duas bofetadas

The Bling Ring: Duas chapadas bem dadas

Quando eu era pequenina nunca me deram duas bofetadas
Cultura 3 min. 10.09.2013

The Bling Ring: Duas chapadas bem dadas

"The Bling Ring", de Sofia Coppola, com Emma Watson, Katie Chang, Israel Broussard, Claire Julien e Taissa Farmiga.

Talvez eu esteja a ficar velho e irritadiço. Talvez seja por não ter a paciência que a paternidade parece dar aos pais com filhos adolescentes. Ou talvez eu seja simplesmente pouco tolerante, mas quando li nos jornais a história real que deu origem ao filme de Sofia Coppola, "The Bling Ring", pensei que aqueles adolescentes ricos mereciam duas chapadas bem dadas. Melhor, fizeram o que fizeram porque nunca levaram duas chapadas.

Bling Ringo foi o nome dado pelos meios de comunicação norte-americanos a uma gangue de jovens (entre os 16 e os 17 anos) que invadia casas de famosos em Los Angeles para roubar produtos de marca.

A escolha das celebridades a assaltar não era aleatória: tratava-se de jovens estrelas nos quais o grupo se revia.

A história do filme de Sofia Coppola baseia-se em factos reais e chegou às mãos da realizadora através de uma reportagem de Nancy Jo Sales, publicada na revista Vanity Fair.

Coppola interessou-se imediatamente pelas personagens e sobretudo pelos seus originais delitos, revelou em conferência de imprensa no festival de Cannes.

A filha de Francis Ford começou a informar-se sobre o assunto e decidiu rapidamente avançar com um filme.

"The Bling Ring" foi um dos mais aguardados filmes no Festival de Cannes, tendo inaugurado a competição da secção paralela Un Certain Regard.

Coppola revelou uma dificuldade inicial: encontrar os actores para desempenhar os papéis principais. Para alguns dos escolhidos foi necessário um intenso trabalho em diversos domínios.

A britânica Emma Watson teve de descobrir o sotaque californiano. Israel Broussard foi obrigado a descobrir o mundo da moda sobre o qual pouco ou nada sabia.

A actriz Claire Julien, que mora em Los Angeles, serviu de referência para os seus colegas quanto ao estilo de vida dos jovens da região.

O filme tem vários méritos, além da história tão original. Sofia Coppola integra permanentemente uma contemporaneidade que torna desde logo "The Bling Ring" um filme interessante: Coppola foi inspirar-se na estética dos "reality shows", das redes sociais e da fotografia da era Facebook e Instagram.

A montagem é dinâmica e acelerada, reflectindo o tipo de comunicação que os jovens praticam virtualmente e que começa a desbotar para a vida de todos os dias. O espírito juvenil está patente no ecrã e na abordagem escolhida. A narrativa é leve e bem disposta, gozando um bocado com as personagens.

A realizadora não deixa espaço para o desenvolvimento da psicologia das personagens, mas esse não é o caminho escolhido por Sofia Coppola, talvez infelizmente.

Os nomes dos jovens do Bling Ring foram mudados para não lhes oferecer a projecção que eles tanto procuraram. Além de gostarem de roupas do último grito e de imitarem as suas estrelas preferidas, estes miúdos tinham vontade – antes de mais nada – de serem famosos.

Coppola mantém, no entanto, os nomes das estrelas, chegando ao ponto de filmar nas verdadeiras casas das vedetas. Paris Hilton foi uma das escolhidas e "The Bling Ring" torna-se assim num instrumento de "voyeurismo".

"The Bling Ring", de Sofia Coppola, com Emma Watson, Katie Chang, Israel Broussard, Claire Julien e Taissa Farmiga.

Raúl Reis

Publicado no CONTACTO em 19.06.2013