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Teatro. “O Livro do Desassossego” na ótica da imigrante
A atriz Hana Sofia Lopes interpreta o papel de uma imigrante portuguesa fascinada com o diário de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa.

Teatro. “O Livro do Desassossego” na ótica da imigrante

Foto: Vitorino Coragem
A atriz Hana Sofia Lopes interpreta o papel de uma imigrante portuguesa fascinada com o diário de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa.
Cultura 3 min. 20.07.2018

Teatro. “O Livro do Desassossego” na ótica da imigrante

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A atriz luso-luxemburguesa Hana Sofia Lopes, que os portugueses conhecem das telenovelas, dá vida a Lena, numa peça de teatro que revisita o “Livro do Desassossego” na perspetiva de uma imigrante no Luxemburgo.

Lena, 30 anos, filha de imigrantes portugueses no Grão-Ducado, é uma leitora compulsiva. Trabalha como secretária numa empresa de gestão financeira luxemburguesa e, tal como muitos imigrantes, questiona-se sobre a sua identidade, dividida entre o país que a acolhe desde criança e o Portugal dos pais. A um século de distância, descobre uma alma gémea nos livros: Bernardo Soares, o heterónimo de Fernando Pessoa que assina “O Livro do Desassossego”, e é, tal como ela, secretário numa empresa.

Este é o ponto de partida da peça “Intranquillités – Suite pour âmes perdues”, que está a ser escrita e produzida no Teatro de Esch pela encenadora Rita Bento dos Reis. O texto é inspirado no “Livro do Desassossego”, diário ficcional de um ajudante de guarda-livros lisboeta.

A leitura do diário do heterónimo de Pessoa vai dar resposta a muitas das questões existenciais de Lena. “Ela reencontra o português, mas também uma solidão e um questionamento existencial que lhe lembram o seu, e isso fá-la sentir-se menos só”, explica Rita Bento dos Reis.

A peça, que conta com a atriz Hana Sofia Lopes no papel principal e com o francês Denis Jousselin no de Bernardo Soares, tem estreia marcada para 14 de novembro deste ano. Para já, Rita Bento dos Reis, que habitualmente dá a cara como atriz, ainda está a escrever o texto e a fazer leituras do “Livro do Desassossego” com os atores. “As escolhas dos excertos do livro são feitas em colaboração com eles”, explica.

Os paralelismos entre Lena e Bernardo Soares não acabam na profissão de ambos. A imigrante portuguesa também tolera mal a monotonia do trabalho numa empresa financeira, e encontra um escape fazendo um diário íntimo. Mas enquanto Bernardo Soares escrevia as suas reflexões com papel e caneta, Lena “faz ’podcasts’, uma espécie de diário áudio em que fala dos livros que está a ler”, explica Rita Bento dos Reis.

A peça é a grande aposta do Teatro de Esch para a próxima temporada, numa altura em que se assinalam os 130 anos do nascimento de Fernando Pessoa, e Rita Bento dos Reis está entusiasmada com a oportunidade de revisitar o poeta português na perspetiva de uma imigrante no Luxemburgo. “É a primeira produção da nova diretora, Carole Lorang, e ela quer mesmo virar-se para a cidade e para as comunidades que ali vivem: italianos, portugueses e luxemburgueses também”.

Rita Bento dos Reis chegou ao Luxemburgo com nove anos. Estudou na Escola Europeia e formou-se em Arte Dramática no Conservatório Royal de Liège, tendo feito um mestrado em teatro na Universidade de Point Park, em Pittsburgh (EUA).

Desta vez, a atriz portuguesa Rita Bento dos Reis troca o palco pelos bastidores: assina o texto e a encenação da peça.
Desta vez, a atriz portuguesa Rita Bento dos Reis troca o palco pelos bastidores: assina o texto e a encenação da peça.
Foto: Pierre Matgé

Lena é inspirada em vários imigrantes portugueses a viver no Luxemburgo. “Interessava-me muito a identidade cultural, e acho que todos nos questionamos à volta disto”, explica a encenadora.

O multilinguismo é um dos temas em pano de fundo neste “Livro do Desassossego à luxemburguesa”, que vai buscar inspiração também a outros temas pessoanos. “A frase ’A minha pátria é a língua portuguesa’ evoca coisas diferentes para pessoas que são multilingues e vivem fora do seu país de origem”, aponta a encenadora. Lena fala as três línguas oficiais do Grão-Ducado e lê o “Livro do Desassossego” na tradução francesa. “No imaginário dela, o Bernardo Soares fala francês”, conta. A peça também é em francês, “para atingir um público mais alargado”, mas vai ter ainda “um monólogo em português".

Em cartaz vai estar uma das atrizes mais conhecidas no Grão-Ducado, a lusodescendente Hana Sofia Lopes, igualmente popular entre luxemburgueses e portugueses. A atriz estreou-se em 2011 na primeira ’sitcom’ luxemburguesa, “Weemseesdet” (“Olha Quem Fala”), e participou em várias séries e telenovelas em Portugal, incluindo “Filhos do Rock”, na RTP, e “Coração d’Ouro”, na SIC.

A cenografia é assinada por Peggy Wurth e a peça conta ainda com vídeos de Isabel Bento dos Reis, irmã de Rita, que faz montagem para cinema.

Para ver “Intranquillités”, é preciso esperar até novembro, mas os bilhetes já estão à venda no site do Teatro de Esch (www.theatre.esch.lu). Representações nos dias 14 e 17 de novembro, às 20h, e a 18 de novembro, às 17h.

Paula Telo Alves


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