Teatro Nacional do Luxemburgo

Sobrinha-bisneta de Pessoa apresenta peça que explora multilinguismo europeu

A encenadora Tatjana Pessoa, sobrinha-bisneta de Fernando Pessoa, apresenta esta terça-feira no Teatro Nacional do Luxemburgo uma peça sobre o multilinguismo na Europa, um projecto financiado por um programa europeu que apoia a criação teatral.

Tatjana Pessoa, sobrinha-bisneta do poeta português Fernando Pessoa, explora as questões de identidade ligadas ao multilinguismo
Tatjana Pessoa, sobrinha-bisneta do poeta português Fernando Pessoa, explora as questões de identidade ligadas ao multilinguismo
Foto: Ana Banha

Falada em dez línguas, incluindo português, a peça "Whatsafterbabel" explora várias vertentes da "Babel europeia e do multilinguismo europeu", como a questão da identidade, da comunicação e da "exclusão que nasce da incompreensão", disse ao CONTACTO a autora e encenadora, que tem nacionalidade belga e portuguesa.

No texto de apresentação da peça, a autora e fundadora da companhia de teatro belga "Collectif Novae" recorda a frase "a minha pátria é a língua portuguesa", da autoria de Fernando Pessoa, seu tio-bisavô, considerando-a um "testemunho de lealdade ao idioma e não ao país", uma ideia com que se identifica e que desenvolve na peça.

Nascida em Bruxelas em 1981, filha de mãe portuguesa e pai suíço, Tatjana Pessoa, que fala cinco idiomas e já viveu em países como a Alemanha, Burkina Faso e Costa do Marfim, admite que "a noção de pátria não tem significado" para si, considerando "naturais" o multilinguismo e a pertença a vários países.

"Eu não me defino por um país ou por uma pátria, e as perguntas 'de onde vens' ou 'qual é a tua nacionalidade' são questões que para alguns de nós, na Europa, deixaram de ter significado", defende a dramaturga portuguesa.

A peça "é uma reflexão sobre como conseguimos compreender-nos na União Europeia falando várias línguas e sobre as dificuldades de comunicação", pondo em destaque "mais os pontos de convergência do que as divisões que as línguas naturalmente também trazem", adiantou Tatjana Pessoa.

"Temos hoje uma realidade de movimento e de emigração na Europa, mas leva tempo até apagar as fronteiras, porque é uma realidade relativamente recente", diz a encenadora, para quem a União Europeia "tem de escolher entre ir na direcção da uniformização e fechar-se, ou abrir-se à multiplicidade".

A bisavó materna da encenadora era prima de Fernando Pessoa, e a dramaturga diz que as afinidades com o poeta português vão para além do parentesco.

"Quando eu era pequena ficava muito orgulhosa quando via as notas de 100 escudos com o Fernando Pessoa e me diziam que éramos da mesma família”, recorda Tatjana Pessoa, que mais tarde viria a descobrir a obra do tio-bisavô e a ideia de "identidade múltipla", com a qual se identifica.

Licenciada pelo Conservatório de Liège, na Bélgica, Tatjana Pessoa é também autora de "Lucien", uma peça sobre a emigração portuguesa encenada em Bruxelas em 2013, tendo além disso traduzido várias peças de teatro e sido assistente de encenação do dramaturgo alemão Falk Richter e da coreógrafa holandesa Anouk van Dijk.

Fábio Godinho apresenta peça sobre emigração e desenraizamento

Além de "Whatsafterbabel", o Teatro Nacional do Luxemburgo apresenta também esta terça-feira outra peça de um autor português, no âmbito do programa "Total Theatre", que reúne seis instituições teatrais das regiões fronteiriças da Bélgica, Alemanha, Holanda e Grão-Ducado.

A peça assinada pelo actor e encenador Fábio Godinho, filho de emigrantes portugueses no Luxemburgo, aborda o desenraizamento e as dificuldades da emigração para as novas gerações.

"A peça aborda os problemas de uma geração mais jovem que vive num país que não é o seu, fala várias línguas, e mesmo assim não se sente inteiramente parte desse país, que é também aquilo que eu sinto", disse ao CONTACTO Fábio Godinho, que também integra o elenco, composto por actores de várias nacionalidades, a maioria filhos de emigrantes.

Fábio Godinho estreia-se no teatro enquanto dramaturgo, numa peça que aborda a emigração
Fábio Godinho estreia-se no teatro enquanto dramaturgo, numa peça que aborda a emigração
Foto: Paulo Lobo

Fábio Godinho, que estudou arte dramática e dança contemporânea na escola de teatro Cours Florent e na Sorbonne, em Paris, apresentou em 2009 e 2010 uma encenação com textos de Fernando Pessoa no festival de Avignon e foi finalista em 2013 do prémio Théâtre 13, atribuído a jovens encenadores, com a peça "Hôtel Palestine", de Falk Richter.

"Que la terre m’étouffe si j’agis faussement" é a sua primeira incursão no teatro enquanto dramaturgo, assinando também a encenação e co-autoria da música da peça, que conta ainda com cenografia do artista plástico Marco Godinho, irmão do actor.

P.T.A.

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Teatro Nacional do Luxemburgo (194, route de Longwy, na cidade do Luxemburgo), dia 30 de Setembro, a partir das 19h.

Mais informações no portal do TNL.