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Stôra, como é que se diz 25 de Abril em luxemburguês?

Stôra, como é que se diz 25 de Abril em luxemburguês?

Foto: Manuel de Almeida / Lusa
Editorial Cultura 3 min. 26.04.2019

Stôra, como é que se diz 25 de Abril em luxemburguês?

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
O pastel de nata chegou aqui muito antes de se tornar internacional, mas continua a ser difícil encontrar cravos vermelhos no Grão-Ducado.

Entre as muitas estranhezas de viver fora de Portugal, avulta esta: no Luxemburgo, o 25 de Abril não é feriado. Mesmo ao fim de muitos anos, é estranho um dia único ser igual aos dias todos, com as mesmas rotinas dos outros dias, casa-trabalho-trabalho-casa. Meu reino por um cravo. O pastel de nata chegou aqui muito antes de se tornar internacional, como um dia profetizou "o Álvaro", mas continua a ser difícil encontrar cravos vermelhos nas floristas do Grão-Ducado.

É certo que houve e há quase sempre conferências ou homenagens à data, as mais das vezes organizadas por excelentes associações portuguesas, como Os Amigos do 25 de Abril, e festas multiculturais, como a promovida no ano passado pela Paca Rimbau Hernández, em Bettembourg. A revolução é alegre e generosa, e quer-se internacional. Neste dia, festejar apenas entre nós sabe sempre a pouco. 

Para compensar esta falha do calendário luxemburguês, este ano o 25 de Abril, mesmo sem feriado, voltou a acontecer no Luxemburgo. Foi a noite passada, na Philharmonie, com o grupo luso-luxemburguês Abri'Lux. O projeto é uma dessas improbabilidades em que o Grão-Ducado é pródigo: reúne um contrabaixista luxemburguês, Marc Demuth, que levou a paixão por Portugal tão longe que até casou com uma portuguesa do Porto; uma cantora e flautista, Luísa Vieira, portuguesa de Braga que estudou em Boston e já "fingiu viver em Paris"; e o pianista George Lettelier, americano de Boston que viveu quatro anos no Porto e passou ao lado de uma carreira com os Clã. Com o trio, formado em 2011, tocam uma mão cheia de músicos excelentes, a maioria luxemburgueses: Barbara Witzel (violinista da Orquestra Filarmónica do Luxemburgo), Jeff Herr (bateria), Annemie Osborne (violoncelo) e Paulo Simões (guitarra).


Abri'Lux. Uma homenagem luso-luxemburguesa à Revolução dos Cravos
Há músicos portugueses, luxemburgueses e um norte-americano, vindos da área do jazz e da clássica, no projeto Abri’Lux, que presta homenagem à Revolução portuguesa e aos seus cantautores. Sob a liderança de Marc Demuth, apresentam-se esta quinta-feira na Philharmonie e explicam como foi a experiência de descobrir o que consideram “autênticas joias” de música e palavras que vão de Zeca Afonso a Sérgio Godinho.

Em 2016, para celebrar o 25 de Abril, viajaram todos para Portugal, a convite do diretor artístico da Associação Cultural e Recreativa de Tondela, José Rui Martins, um português que já andou pelo mundo a espalhar o teatro, incluindo em Moçambique. Nessa altura, por impossibilidade do pianista americano, viajou com eles o pianista de jazz luxemburguês Michel Reis (pronuncia-se "Ráise"). Parêntesis para contar uma história que serve de aviso contra a mania jornalística de procurar descendentes de portugueses em todo o lado. Há uns anos, quando vi o apelido "Reis" num comunicado de imprensa, liguei para a agência de comunicação para saber se o músico era de origem portuguesa. Não sabiam, ficaram de lhe perguntar. A resposta, por escrito, não tardou: "O Michel Reis pede para dizer que não é português, com grande pena dele".

A noite passada, o passaporte não interessou nada. Aos primeiros acordes de Sérgio Godinho, havia gente comovida na sala, e na sala havia muitos amigos que não são portugueses, incluindo, mas não só, do país basco francês. Zeca Afonso, José Mário Branco, uma canção insidiosamente bela de Fausto, Amália Rodrigues e Mário Laginha, no dia em que ele fazia anos, tocados belíssima e generosamente por músicos de várias nacionalidades. Houve a poesia de Ary dos Santos, dita por José Rui Martins. E houve a Grândola, cantada de pé, como a Grândola deve ser cantada, um hino a unir os músicos e a plateia: "em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade". Maré alta!  

Ao fim de quase duas décadas no Luxemburgo, o meu luxemburguês continua anémico, mas ontem foi fácil. Em luxemburguês, 25 de Abril diz-se como nas outras línguas todas: a cantar a Grândola. 25. Abrëll ëmmer!*

* "25 de Abril sempre", em luxemburguês.


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