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"Squid Game". Não façam isto em casa
Opinião Cultura 4 min. 16.10.2021
Crítica de cinema

"Squid Game". Não façam isto em casa

Crítica de cinema

"Squid Game". Não façam isto em casa

Opinião Cultura 4 min. 16.10.2021
Crítica de cinema

"Squid Game". Não façam isto em casa

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Ainda que pretenda claramente denunciar como o dinheiro pode levar as pessoas a cometerem atos inenarráveis, a mensagem anticapitalista que o criador da série diz estar implícita desaparece no meio de muita violência.

A nova coqueluche da Netflix é acusada de roubar inspiração aos filmes de sobrevivência tais como "Battle Royale" ou "The Hunger Game", mas o seu criador, o coreano Hwang Dong-Hyuk, de 50 anos, garante ter começado a escrever o argumento muito antes, em 2008, tendo em mente fazer um filme."Admito que me inspirei muito em mangas e animes japoneses", disse à revista americana Variety, confessando que quando começou a escrever a história "estava numa situação financeira péssima e passava muito tempo em cafés a ler as bandas desenhadas 'Battle Royale' e ‘Liar Game'".

Hwang Dong-Hyuk diz que sempre achou esses enredos demasiado complexos e, por isso, tentou inspirar-se em "jogos infantis". O criador de "Squid Game" afirma que o seu objetivo era escrever uma alegoria sobre a sociedade capitalista moderna, "algo que mostrasse a competição extrema que é a vida dos nossos dias".

O protagonista da série é um tipo que não pode viver sem jogar mas que é um azarado à moda antiga. Seong Gi-hun encontra-se profundamente endividado, divorciado, e luta para manter a relação com a sua filha menor. Seong tem uma dívida de jogo enorme. A esperança surge durante um encontro com alguém que o alista para participar num jogo muito especial. Seong Gi-hun acorda num local digno de filme de James Bond, isolado do resto do mundo, onde centenas de concorrentes se defrontam em jogos infantis com a promessa de uma enorme riqueza: o vencedor pode ganhar quase 40 milhões de euros, mas os derrotados morrem.

A Coreia do Sul surpreende-nos regularmente e não é só a fazer telemóveis ou carros. No domínio cultural global, os coreanos já influenciam o mundo com a K-pop, e um filme-fenómeno chamado "Parasite" foi Palma de Ouro em Cannes e conquistou um Óscar para o melhor filme, apesar de ser falado em coreano. Esta consagração veio apenas confirmar a crescente presença da Coreia do Sul no mundo do cinema. A Netflix percebeu bem a tendência e está a investir 500 milhões de dólares em conteúdo coreano apenas este ano.

Apesar de um ambiente e muitos detalhes puramente coreanos, os temas abordados encontram eco mundial e são a chave para o sucesso global de "Squid Game". 

Ainda que "Squid Game" pretenda claramente denunciar como o dinheiro pode levar as pessoas a cometerem atos inenarráveis, a mensagem anticapitalista que o criador da série diz estar implícita, desaparece no meio de muita violência.

A denúncia da brutalidade social é feita através de brutalidade desenfreada na ação; em "Squid Game" o sangue flui livremente, mas há elementos ainda piores e mais assustadores do que os excessos de hemoglobina. É por isso natural que o sucesso da série – enorme junto dos adolescentes de todo o mundo – esteja a preocupar pais e educadores. Em Paris, no fim de semana de 2 e 3 de outubro, a abertura de uma loja pop-up dedicada à série causou uma fila interminável à chuva e uma zaragata entre jovens fãs de "Squid Game".

Os trajes vermelhos dos guardas da série e os fatos de treino verdes dos participantes no jogo já se vendem com grande sucesso em várias plataformas e prometem ser um sucesso para as festas de Halloween. Já as vendas das sapatilhas brancas dos jogadores multiplicaram-se por 800 durante as três semanas que se seguiram ao lançamento da série na Netflix.

Mais problemático: o que até agora eram apenas brincadeiras inocentes de crianças, transformaram-se em jogos muito mais violentos inspirados na série. A Bélgica, onde a série não é recomendada, tal como em França, a menores de 16 anos, foi a primeira a soar o alarme. O jogo "1,2,3, Soleil" (que em Portugal se chama “1, 2, 3, macaquinho do chinês”) espalhou-se nas escolas belgas em versão violenta: os perdedores são espancados ou chicoteados na cara, o que já levou a medidas de alerta por parte das autoridades.

"Squid Game" é uma obra que leva a fazer reflexões pós-apocalípticas sobre como poderemos comportar-nos em condições extremas. Enquanto Gi-hun luta freneticamente para localizar alguma coisa boa no abismo da desumanidade em que se encontra, a série torna-se mais intensa e horripilante porque parece não haver fundo no abismo.

Não é fácil ver "Squid Game", a não ser que o leitor seja um fã de filmes de terror daqueles com muito sangue, mas as belas imagens cativam desde o início, embora funcionem melhor quando ainda não percebemos o que está para vir. Quando os olhos da boneca aterrorizante veem tudo e não há esperança de escapar...

À medida que a ação avança e "Squid Game" busca respostas, a série torna-se menos surpreendente e menos virtuosa visualmente. Não estamos perante o tipo de história de apocalipse que termina com uma hollywoodesca esperança na resiliência humana. "Squid Game" é uma desesperante fábula que confirma que o dinheiro deve certamente trazer a felicidade, senão não seríamos capazes de tais crueldades para o obter.


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