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Sophia de Mello Breyner. Uma obra "com simplicidade, mas que não é fácil"
Cultura 5 min. 08.04.2019

Sophia de Mello Breyner. Uma obra "com simplicidade, mas que não é fácil"

Sophia de Mello Breyner. Uma obra "com simplicidade, mas que não é fácil"

Foto: Lex Kleren
Cultura 5 min. 08.04.2019

Sophia de Mello Breyner. Uma obra "com simplicidade, mas que não é fácil"

Paulo Pereira
Paulo Pereira
No ano do centenário do nascimento da mãe, Maria Andresen de Sousa Tavares veio ao Luxemburgo falar sobre a sua escrita e muito mais.

A maior força da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen é "a simplicidade e a nitidez. É dos poetas que dão mais a sensação de que encontraram a palavra própria, a palavra necessária para dizer aquilo que pretende, há uma espécie de relâmpago, uma luz. Quando está muito empenhada no que está a ver, a sentir e a olhar, tem necessidade de encontrar a palavra exata e isso sente-se em toda a sua poesia, não há ali nada de gratuito". É assim que Maria Andresen de Sousa Tavares, filha de Sophia e professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, se refere à escritora no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. A filha veio ao Grão-Ducado para palestras sobre "Espaços biográficos e poéticos na poesia de Sophia", hoje de manhã esteve na Universidade do Luxemburgo e, ao fim da tarde (19:00), estará no Centro Cultural Português - Camões (4, Boulevard Joseph II) .

Doutorada com o estudo comparatista Poesia e Pensamento, ensaísta, autora de livros de poesia, tradutora, coordenadora do site "Sophia de Mello Breyner Andresen", Maria Andresen de Sousa Tavares vem organizando e estudando o espólio da mãe, além de rever e editar as suas obras. Um exercício em que tem sido delicado separar as fronteiras entre filha, estudiosa, professora e ela própria escritora. "Às vezes sinto alguma dificuldade. Por exemplo, se estou muito mergulhada na poesia da minha mãe, é claro que em meu nome não consigo fazer nada, porque a poesia dela entranha-se como uma coisa própria porque cresci com ela, cresci a ouvi-la. É muito difícil suspender essa identificação e passar para mim sozinha. A sua poesia é extraordinária. Ela viveria bem sem a minha ajuda, mas tenho gostado de fazer as reedições, recuperar coisas, alguns inéditos, arrumar tudo e, ao fim de 50 edições, cuidar também das gralhas".

Questionada sobre o facto de a poesia de Sophia ser suficientemente conhecida dos portugueses, a filha admite que sim, embora aponte uma outra dúvida: "Pelo menos o nome é, tem essa singularidade. Agora os que ouvem ou leem na escola, reconhecem o nome e leram com atenção, não sei... Porque, ao contrário do que se pensa, e da simplicidade que referi, não é uma poesia fácil, tem muitas vezes uma grande densidade, até porque a simplicidade nunca é fácil".

Claro que ter sido opositora ao regime de Salazar levou a que mais gente se interessasse pela obra da mãe. "O poema dela sobre o 25 de abril tornou-se um símbolo do que todas as pessoas sentiram nesse dia. E isso foi extraordinário! Ela esperava, esperava, esperava uma Revolução e nesse dia teve necessidade de escrever aquilo: "Esta é a madrugada que eu esperava". E isto é extraordinário porque era o que toda a gente esperava e ninguém conseguia formular umas palavras tão simples. Além disso, a preocupação dela com a justiça também é importante. A minha mãe tem algo de muito engraçado: interessa-se pela política como forma de ajudar os outros e de melhorar a sociedade, mas era uma pessoa profundamente desinteressada pelo poder. Estar na Assembleia constituinte foi um martírio, um sacrifício, foi como estar em trabalhos forçados. O seu mundo era outro e isso é difícil de encontrar, porque hoje o que se vê mais são artistas ou não que correm para o poder ou rodeiam as pessoas do poder ou calcam outros, é moeda corrente".

Um programa multifacetado

Em relação ao vasto programa do centenário, começou a 12 de janeiro e vai culminar a 6 de novembro, data do nascimento de Sophia, com o concerto comemorativo da Orquestra Sinfónica Portuguesa, no Teatro Nacional de São Carlos, e cujo programa, englobando novos talentos do canto lírico nacional, se inspira na sua obra. Mas há muito mais, entre inúmeras manifestações em Portugal e no estrangeiro, incluindo teatro, música, bailado, exposições, colóquios, leituras - Roma e Rio de Janeiro, por exemplo, estão no roteiro -, ciclos de cinema e livros. Maria Andresen de Sousa Tavares explica como tudo começou: "No começo de 2017, pensei que vinha aí o centenário do seu nascimento e era preciso fazer alguma coisa. Dirigi-me ao Centro Nacional de Cultura (CNC), porque os meus pais foram fundadores e a ele estiveram ligados, levando não só católicos que se opuseram à ditadura, mas escritores e artistas de todas as sensibilidades políticas e estrangeiros, dando-lhe uma dimensão que permitiu que ainda hoje exista. Estive lá dois anos e meio a trabalhar no espólio, cederam-me uma sala e trabalhei com uma equipa sobre aquilo que foi doado à Biblioteca Nacional. Falei com Guilherme d'Oliveira Martins, disse-lhe que gostava que o CNC apoiasse, entreguei uma série de nomes para se associarem ao centenário e escolhemos um núcleo mais pequeno com alguns amigos. Entretanto, houve outras iniciativas paralelas e tem corrido muito bem".

Nascida a 6 de novembro no Porto em 1919, Sophia estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, publicando os primeiros versos na revista Cadernos de Poesia a partir de 1940. O seu primeiro livro data de 1944 e tem o nome de "Poesia". Importante voz de contestação à ditadura de Salazar, Sophia distinguiu-se através da poesia, mas também na ficção com teatro, ensaios, conto e conto infantil, além de ter sido ainda tradutora. Em 1946 casou-se com o jornalista, advogado e político Francisco Sousa Tavares, de quem teve cinco filhos. 

Traduzida em inúmeros idiomas, a obra de Sophia é multipremiada, nomeadamente com o Prémio Camões (1999), o Max Jacob (2001) ou o Rainha Sofia (2003). Sophia de Mello Breyner Andresen morreu a 2 de julho de 2004, tendo dez anos mais tarde os seus restos mortais sido transladados para o Panteão Nacional.

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