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Sonham os androides com carneiros elétricos? Um texto a propósito da morte de Rutger Hauer e Turing
Editorial Cultura 4 min. 25.07.2019

Sonham os androides com carneiros elétricos? Um texto a propósito da morte de Rutger Hauer e Turing

Sonham os androides com carneiros elétricos? Um texto a propósito da morte de Rutger Hauer e Turing

Editorial Cultura 4 min. 25.07.2019

Sonham os androides com carneiros elétricos? Um texto a propósito da morte de Rutger Hauer e Turing

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
De como um papel de um ator e um teste num mítico filme nos pode fazer pensar em todos nós.

 “É uma experiência terrível viver no medo, não é verdade? É o que faz de nós escravos”. Um olhar azul frio espreitava numa cara manchada de Sangue, enquanto segurava um Harrison Ford derrotado e prestes a cair. O replicante (uma máquina genética feita humano) do filme “Blade Runner” era interpretado por o ator holandês Rutger Hauer, que faleceu ontem, no dia 24 de julho, com 75 anos. Vítima de “uma curta doença”, segundo o seu boletim médico.

Muitos de nós conhecemos apenas dele o seu papel de vilão, que afinal não é, no clássico da ficção científica realizado por Ridley Scott, e o seu diálogo final antes de morrer, em que fala de “lágrimas na chuva”, que foi rescrito e criado pelo ator antes da cena.

Mas a sua carreira e vida abafadas por um desempenho magnífico em "Blade Runner" começou muito mais cedo que o mítico ano de 1982, e acabou apenas ontem.

Foi em 1969 que Ruger Hauer começou a sua carreira no telefilme “Floris”, realizado por Paul Verheven. O mesmo realizador que lhe dá o seu primeiro grande papel no filme “As Delícias Turcas”, em 1973. Apenas começa a dar nas vistas nos EUA, com um thriller em que atua com Sylvester Stallone, “Nighthawks”. Um ano antes da saída para os cinemas de Blade Runner. Ganha um Globo de Ouro com a sua interpretação no telefilme britânico “Escape from Sobibor”, 1987, em que se relata a maior fuga de prisioneiros de um campo de concentração nazi. Os seus últimos papeis são no “Valérian a Cidade dos Mil Planetas” de Luc Besson e no filme de Jacques Audiar “Les Frères Sister”.

Mas voltemos ao papel que fez brilhar Rutger Hauer nas nossas vidas e às razões porque este filme continua a estar entranhado em nós .

Numa cidade abafada pelo brilho poluente dos neons, um homem testa uma mulher. São 30 perguntas. As respostas são escrutinadas eletronicamente, através da dilatação da íris da interrogada. O teste Voight-Kampff é usado para perceber a humanidade das pessoas e entender a diferença que separa um ser humano de uma criatura com inteligência artificial. Voight-Kampff nunca existiu: é uma criação do escritor Philip K. Dick, no seu livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?, que foi adaptado ao cinema por Ridley Scott com o nome de “Blade Runner”.

Mas se o autor com nome germânico é do simples domínio da ficção, o teste baseia-se no teste de Turing, criado por Alan Turing e divulgado em 1950 num artigo com o título “Computing Machinery and Intelligence”. O famoso texto começa com esta frase: “Proponho a seguinte questão: podem as máquinas pensar?”

Se as máquinas pensassem, poderiam ser humanas, como afirma Descartes no seu “penso, logo existo”. E o que define esta humanidade? Sobre as máquinas, não há certezas, mas sobre certos humanos, a vida de Turing mostra que eles não pensam e menos ainda são humanos.

Alan Turing matou-se com uma maçã envenenada. Injetou-lhe cianeto e deu-lhe uma dentada. Parece que gostava da história da “Branca de Neve”. Mas morreu como a humanidade começou na Bíblia, quando Adão e Eva comeram a maçã proibida da árvore do conhecimento e descobriram o sexo, a morte, a diferença entre o bem e o mal, o livre arbítrio e o conhecimento. O que levou um génio que não tinha feito 42 anos a matar-se, no dia 7 de Junho de 1954?

O ser humano genial que tinha lançado as bases da inteligência artificial, que tinha ajudado os aliados a derrotar a Alemanha nazi, ao descobrir a chaves do sistema de encriptação das comunicações alemãs, o Enigma, e que lançou as bases do Colossus, o primeiro computador digital, não queria viver mais.

Em 1952, Turing tinha sido condenado pelo crime de “prática de comportamento de grande indecência entre homens”. Era homossexual. No princípio dos anos 50, o governo britânico concluiu que a homossexualidade ajudava à infiltração comunista no Reino Unido, devido à deserção para Moscovo de vários agentes secretos britânicos que trabalhavam para os soviéticos, membros do famoso “círculo de Cambridge”, alguns deles homossexuais. Iniciou-se uma caça às bruxas: cada ano, mais de 5 mil pessoas foram condenadas por “indecência”.

Alan Turing foi demitido do seu emprego e, para escapar a uma pena de prisão longa, teve de aceitar ser castrado quimicamente. Durante um ano sofreu um tratamento que o transformou fisicamente e o destruiu lentamente. Preferiu pôr fim a si mesmo.

O jovem que chegou a professor do King’s College com 22 anos teve muitos problemas de aprendizagem e ultrapassou-os com a ajuda de uma pessoa de quem gostava, tragicamente morta quando ele tinha 16 anos.

Turing sabia, por experiência de vida, aquilo que nos faz humanos e aquilo que nos faz transcender as nossas próprias limitações. Não é por acaso, que no final de “Blade Runner”, a replicante Raquel descobre que é muito mais humana que muitos: conseguia amar.

 Como diria o replicante protagonizado por Rutger Hauer: "Eu vi coisas em que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas no ombro de Orion. Vi raios C brilharem no escuro perto do Portão de Tannhauser. Todos esses momentos serão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer".

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