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Sérgio Godinho. "Levei muitas vezes com gás lacrimogéneo na cara"
Cultura 14 min. 26.04.2019

Sérgio Godinho. "Levei muitas vezes com gás lacrimogéneo na cara"

Sérgio Godinho. "Levei muitas vezes com gás lacrimogéneo na cara"

Foto: Daniel Blaufuks
Cultura 14 min. 26.04.2019

Sérgio Godinho. "Levei muitas vezes com gás lacrimogéneo na cara"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Esteve nas barricadas em 68, cantou pelo país todo no 25 de Abril, foi preso no Brasil por uma acusação falsa e torturado com electrochoques na cabeça. São as aventuras menos conhecidas de um genial fazedor da banda sonora das nossas vidas. No dia em que se soube que o cantor vai regressar ao Luxemburgo, recorde a entrevista que deu há um ano ao Contacto.

Há um filme de Bertolucci, chamado “Os Sonhadores”, em que, durante o mês do Maio de 68, três jovens passam os dias num quarto, sem quase reparar no que acontecia nas ruas. Aconteceu-lhe o mesmo?

Eu parti de Portugal aos 20 anos. Estive um pouco a vadiar na Europa. Trabalhei num barco holandês, atravessei o Atlântico e fiz uma data de coisas até que, no final de 67, estava um bocado sem rumo, fui para Paris e fiquei lá. E conheci alguns portugueses, tinha o contacto do José Mário Branco, porque um grande amigo meu que estava em Genève, o Jorge Constante Pereira, era amigo dele. E conheci também o Luís Cília. Mas não andava só com portugueses e estava disponível. Vivia de pequenos trabalhos de sobrevivência, porteiro da noite em hotéis e coisas do género. E, por via desses trabalhos, em que era bastante mais pobretanas que agora, estava muito disponível. Estava atento e, quando a revolta se passou para as ruas e barricadas, participei ativamente nisso e, a partir daí, em todo o maio de 68. Ajudei a erguer barricadas, dormi várias noites na Sorbonne. Aquilo que aconteceu foi galopante e propagou-se como uma contestação juvenil ao regime gaullista. Participei na ocupação da Casa dos Estudantes Portugueses que, então, também era frequentada por filhos de gente do regime. Levei muitas vezes com gás lacrimogéneo na cara.

Era uma revolta existencial ou também era política?

Tudo misturado. Nas ruas flutuavam tantas bandeiras vermelhas quanto negras. Os anarquistas têm um bocadinho nos seus genes a autodestruição, a falta de uma direção central é muitas vezes fatal a esses movimentos. Hoje em dia fala-se pouco do anarquismo. Não posso dizer que foi uma revolução sexual porque não era esse o foco. Foi política, social e comportamental, mas essa pluralidade também não foi inventada pelo maio de 68, sempre esteve imerso nas grandes transformações. Movimentos como os feministas estavam a acontecer na Europa por todo o lado, o que aconteceu de especial em França foi que, durante algum tempo, houve um vazio de poder que foi sendo disputado nas ruas. Os operários e trabalhadores, além dos estudantes, começaram a reivindicar e, a certa altura, estava um país paralisado, com mais de dez milhões de trabalhadores em greve. Vários de nós, José Mário Branco, Luís Cília, a Sheila e uma cantora fantástica francesa, a Colette Magny, fizemos espectáculos em palcos improvisados junto aos locais de trabalho, cheguei a cantar na Renault ou na Citroën.

Foto: Arlindo Camacho

Em que momento compreendeu que o maio de 68 estava a terminar?

A cidade já estava paralisada, havia falta de gasolina e greves nos transportes, andávamos muito a pé. Felizmente a cidade é em grande parte plana. Vivia na Rive Droite, para lá da Étoile. Tinha havido o tal vazio de que falava, De Gaulle fora para a Alemanha, creio que para uma base militar. Testemunhei um episódio dentro desse grande acontecimento. O Daniel Cohn-Bendit era de uma família de refugiados judeus [ao contrário do irmão, embora vivesse em França, não tinha pedido nacionalidade francesa] e, tendo ido em viagem à Alemanha, as autoridades francesas não o queriam deixar entrar de volta. Eu estava na Sorbonne numa noite e começou a correr o boato de que o Daniel Cohn-Bendit tinha passado a fronteira clandestinamente e estava a chegar. Fomos todos para o maior anfiteatro porque ele ia aparecer. E aparece com o cabelo pintado de preto, ele que era cenoura, e com aquele sorriso. Foi um momento muito exaltante, fez um grande discurso, tinha muita capacidade de comunicação e era um líder que se impunha naturalmente. Depois disso, tive a perceção de que o maio de 68 estava a terminar. Quando estava a caminho de casa e a passar pelos Campos Elísios, deparei-me em sentido contrário com uma grande manifestação de bandeiras tricolores. De repente, percebi que havia uma outra França e que a chamada maioria silenciosa tinha acordado e estava na rua. Não é que eu tivesse perspetivado que pudesse ser diferente, mas naquele momento entendi que estava a acabar, e lembro-me de pensar que “a história é mais complicada do que pensávamos”. Isso foi-me muito útil quando voltei para viver o período depois do 25 de Abril e perceber que as coisas não são irreversíveis.

Já tinha algumas reticências ou achou, em algum momento, que em Portugal tudo era possível?

Não, porque sempre tive um lado com um pé na terra. E, apesar de estar embrenhado, nós cantávamos muito, e quando digo “nós”, quero dizer o Zeca e os outros, onde me incluía. Ele era uma figura tutelar. Estávamos em muitos espetáculos, mas sempre tive a noção de que ainda ia passar muita água sob as pontes. Não muito tempo depois começou um movimento contra-revolucionário e as sedes dos partidos de esquerda e, sobretudo, do PCP, começaram a ser atacadas, queimadas e saqueadas.

O 25 de Abril apanha-o na suposta comuna hippie, em Vancouver, que já desmentiu no jornal i e no Expresso [risos]?

É mesmo uma coisa da Wikipedia, não se pode sempre acreditar na Internet, lamento. Estava do outro lado do mundo, éramos uns tesos, tínhamos magros subsídios e estávamos a trabalhar numa peça. Mas tinha uma viagem oferecida à Europa em maio, porque o meu pai fazia 60 anos e sonhava reunir os três filhos. Como eu não podia ir a Portugal, porque era refratário, seria em França. Cheguei a Paris no dia primeiro de maio, mas ainda sem saber muito, nessa altura não havia facilidade de comunicação.

Mas sabia que tinha havido a revolução?

Claro, sabia. Tinha feito uma chamada para os meus pais, paga no destino, claro [risos]... Nessa altura não havia os skypes desta vida e a internet. Sabia pelas notícias dos jornais que eram poucas. Em Vancouver nem conhecia portugueses, estava bastante desligado. Mas soube do 16 de março [tentativa de golpe semanas antes do 25 de abril por militares spinolistas]. A primeira notícia que recebi do 25 de Abril foi que tanques tinham ocupado a praça central de Lisboa. Até pensei que estavam no Rossio, mas era o Terreiro do Paço. Pus a hipótese de ser um golpe de extrema-direita, também li que a chamada brigada do reumático tinha oferecido a lealdade ao Marcelo e ao Américo Tomás, por causa do 16 de março e da publicação [com apoio do Costa Gomes] do livro do Spínola, “Portugal e o Futuro”. O meu pai era contra o regime, vinha das tradições republicanas, o avô dele, o ator Miguel Verdial, tinha participado no golpe de 31 de janeiro, a primeira tentativa de implantação da República. Foi deportado e tudo. Tudo isto para dizer que o meu pai tinha ficado muito entusiasmado com o livro do Spínola e tinha-me feito saber isso.

A primeira notícia que recebi do 25 de abril foi que tanques tinham ocupado a praça central de Lisboa. Pus a hipótese de ser um golpe de extrema-direita.

Só veio em maio?

Sim, vim para Portugal. Quando me deram a garantia de que poderia vir e sair, porque era refratário e tinha compromisso com o grupo de teatro. Chegámos para aí no dia 3 de maio e depois estive cerca de dez dias e quase o tempo todo a cantar. Quando cheguei fui logo conduzido para o hall da Faculdade de Letras, estava num canto livre e depois fui cantar para o São Luiz. Após esses dez dias voltei para Vancouver, a minha filha Joana nasceu em julho, e comecei a compor o meu terceiro disco, com coisas que até tinham a ver com o momento revolucionário. Cheguei a gravar, para mandar para cá, as bases feitas por músicos canadianos. Em agosto, comecei a ver que não fazia muito sentido continuar no Canadá, tinha estado cá e as pessoas cantavam comigo o “Que força é esta”, o “Aprende a nadar, companheiro” e o “Maré alta”. Fizemos a mala, embalámos as trouxas e viemos para Portugal. Isso foi apressado por um convite que recebi, via Zé Mário Branco, para substituir um dos três atores que faziam a peça “Liberdade, Liberdade”, que passava no Teatro Villaret, e era uma colagem de textos sobre a liberdade. Os outros dois atores no elenco eram o João Perry e a Maria do Céu Guerra. Eu iria substituir o Luís de Lima. Foi muito útil porque fui trabalhar numa peça com atores que tinham muita tarimba. A primeira coisa que fiz, embora estivesse a finalizar o terceiro disco, foi teatro. Quando a peça saiu de cartaz, comecei a gravar o “À Queima- Roupa” e fiquei cá, que era o meu lugar.

Como no maio de 68, quando percebeu que a revolução portuguesa acabara? Na passagem do Durão Clemente para o Danny Kaye?

Achava que havia movimentos em oposição à revolução, como o grupo dos nove, do Melo Antunes. Apesar de ele, quando aconteceu o 25 de novembro, ter a inteligência e o cuidado de impedir a ilegalização do PCP. O 25 de novembro foi um choque. Percebia-se que houvera tentativas de golpe da direita no 28 de setembro e no 11 de março, e assistia-se a um extremar de posições no país e até no MFA.

Mais tarde, tem a canção em que fala daquela frase do Churchill...

“A democracia é o pior dos sistemas com a exceção de todos os outros” – de facto, não é do Churchill, mas uma frase muito antiga que este foi resgatar e tornou-a sua. E muito bem. Era um grande tribuno e inventou muitas, como aquele célebre discurso em relação à guerra contra os nazis em que diz que só tem a oferecer “sangue, suor e lágrimas”. O meu pai, muito anglófono, tinha um LP com os discursos do Churchill.

Essa música não é um certo atirar da toalha, porque, no 25 de Abril, achou que a revolução era mais que a democracia parlamentar?

Não é bem isso. Nunca defendi formas de ditadura de esquerda. A democracia formal é um bem. E sempre tive um pé atrás em relação aos excessos e desvirtuamento dessa noção de base. Mais ao desvirtuamento, porque qualquer revolução, como o 25 de Abril, tem de ter excessos, mas a canção não renega nada, tem um tom jocoso. A democracia é sempre imperfeita, e nós somos um país desigual, mas não há lápis azul e censura, o que há é muita auto-censura e pessoas com receio de assumirem as suas posições.

Apesar de ser contra o regime ditatorial português, as duas únicas vezes que foi preso foi no Brasil...

Não fui preso em Portugal porque não estava cá. Não era muito ativo em adolescente. Na Universidade organizei um ciclo sobre o Cinema Novo. Tinha mais intervenção cultural. Mas era claro para mim que não ia para a guerra colonial. Isso nunca me passou pela cabeça. Parti não só para fugir à guerra colonial, mas também porque precisava de ter mundo, viver noutros países e ser autónomo.

Essas prisões no Brasil foram especialmente duras e irracionais?

Não vou estar aqui a detalhar até porque um dia vou escrever sobre isso, mas, na minha primeira prisão, tinha ido ter com o Living Theatre, que conheci em Paris. Quando fui convidado para lá ir, porque falava português, eles estavam em Ouro Preto, Belo Horizonte, porque nessa altura tinha começado a viver com a Sheila. Quando fomos presos por posse de maconha enterrada no jardim, havia já uma campanha contra nós da extrema-direita, de um movimento chamado Trabalho, Família e Propriedade que colava panfletos contra nós à porta das igrejas.

Ficaram muito tempo presos?

Ficámos dois meses. E só não ficámos mais porque fomos expulsos depois do julgamento começar. Houve dois membros brasileiros que foram torturados e levaram choques elétricos. Eu levei só dois ou três safanões. E fomos expulsos para não sermos condenados e ficarmos presos no Brasil. Mas o julgamento continuou e fomos absolvidos. Quando voltei, estavam listas antigas nos aeroportos e constava o meu nome por ter sido expulso do Brasil. Pedi o meu saco que ficara na sala, com a agenda e o passaporte...

Puseram lá droga?

Tinham posto maconha. Nessa noite levei choques elétricos com um capuz enfiado na cabeça. Como rotina. Mas não interessa. Estive 33 dias preso. E a única maneira foi ter ’habeas corpus’ e ser expulso outra vez. Só depois é que fui absolvido no Supremo Tribunal de Justiça por unanimidade de seis juízes, não foi como o Lula.

Nessa noite levei choques elétricos com um capuz enfiado na cabeça. Como rotina. Estive 33 dias preso. E a única maneira foi ter 'habeas corpus' e ser expulso outra vez.

Nessa segunda prisão estava a preparar o “Coincidências”...

Fui convidar músicos brasileiros para o “Coincidências” e gravar com o Caetano Veloso a “Lisboa que amanhece” e também com o Milton Nascimento.

Por muito que disfarce ou muitas colaborações que tenha, um disco seu soa sempre a um disco seu...

É verdade, há uma marca. Neste último disco, “Nação Valente”, não só as críticas foram muito positivas, como foi dito que era um disco muito meu. É um trabalho em que a grande maioria das músicas são colaborações com outros músicos. As letras são todas minhas e as músicas são a de abertura, que é do David Fonseca, há um regresso ao José Mário Branco, há uma música do Pedro Martins, dos Deolinda, e outras com mais músicos, mas todos me disseram que soavam muito a mim. E o João Luís Lisboa, do Expresso, disse que a única canção em que nem a letra , nem a música, é minha, que é o “Delicado”, parecia muito uma canção minha. Não foi por acaso que eu a fui buscar. Achei que havia qualquer coisa que podia ser uma linguagem comum com o trabalho da Márcia.

Quando começa uma música não tem ideia da letra que vai lá casar?

Nem sempre. Há casos em que tinha um propósito, como numa canção chamada “As Fotos do Fogo”. Queria falar daqueles soldados que não sabem muito da vida mas são incumbidos de matar. Há uma frase nas “Fotos do Fogo” que diz: “ Atrás da cor do sangue vou seguindo em fila, e atrás da cor do sangue soldado não vacila”. Mas há, por outro lado, músicas que me surgem em que eu, durante muito tempo, não sei o que lá vai estar. Como a canção que inicia o meu último trabalho, “Grão da Mesma Voz”.

Que é uma espécie de início de cerimónia...

É, vai balizar. Eu próprio digo: “E do nada uma luz que se acende, não se sabe se vem de fora ou vem de dentro, apareceu”. É mais filosófica. “As linhas de águas que cruzas sem notar” ou, como diz no refrão, “Vê lá o que fazes, há tanto a fazer/ Fazes que fazes/ Ou pões sementes a crescer?”. Esta canção demorou muito tempo a fazer. Ia trabalhando nela e encontrando mais uma parte. Até porque tem três tempos e não tem um tema. Mas isso sucede-me algumas vezes – no disco “Domingo no Mundo” há uma canção com o mesmo nome. Tive muito tempo aquela música e não sabia o que fazer com ela. Depois comecei a pensar que um dia tinha de falar do trabalho infantil, em Portugal menos visível. Então, naquela música começou a surgir-me uma história, bastante simbólica, de um rapaz que trabalha numa fábrica de fogos de artifício, uma coisa festiva por essência, e que sofre com isso, a ponto de, no fim, deitar fogo à fábrica para ela explodir.

Qual foi a última vez que esteve no Luxemburgo?

Em 2011, no Centro Cultural de Mamer. Foi um espetáculo muito bom e fiquei a conhecer melhor a cidade do Luxemburgo. Penso que tinha saído o meu disco “Mútuo Consentimento”. Está na hora de voltar ao Luxemburgo [risos].

Entrevista publicada originalmente na edição impressa do Contacto, há um ano, em 25 de abril de 2018.

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