Escolha as suas informações

Sérgio Godinho. Carpinteiro das palavras
Cultura 5 min. 10.10.2019

Sérgio Godinho. Carpinteiro das palavras

Sérgio Godinho. Carpinteiro das palavras

Cultura 5 min. 10.10.2019

Sérgio Godinho. Carpinteiro das palavras

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O cantor esteve recentemente no Luxemburgo no Festival Atlântico na Philharmonie e falou com o Contacto.

Na última conversa que tivemos há poucos anos, Sérgio Godinho confessou que era tempo de voltar ao Luxemburgo, finalmente cumpriu esse desejo no Festival Atlântico. “Quando faço um concerto dou o meu melhor. Não sei qual vai ser o público, mas não é isso que me assusta. Os meus públicos são muito misturados, muitas gerações”, nota. “Acontece que gente mais nova vá ter comigo e diga: ´é a primeira vez que o vi, não estava à espera desse tipo de concerto´”. Em vez da banda com que atuou a última vez no Luxemburgo, desta vez veio com uma espécie de arma secreta. “O Filipe Raposo é um pianista extraordinário, há três anos que fazemos essa experiência de voz e piano e tem sido sempre uma experiência plástica fortíssima”. “Os concertos que faço com o Filipe são como se estivesse com uma banda inteira, ele preenche as canções de uma forma muito rica”.

Desde o Sol da Caparica que Sérgio Godinho e Filipe Raposo estão envolvidos num projeto comum. “Foi uma ideia proposta pelo António Miguel Guimarães, para um disco chamado ‘Canções de Roda e Lenga-lengas’, uma espécie de revisitação das canções populares e infantis que estão na nossa memória, embora nem todas sejam infantis, como o ’Ai ai ai minha machadinha’, a ‘Tia Anica de Loulé’, em que o Filipe Raposo toca com mais três músicos – o Vitorino, a Ana Bacalhau, e o Jorge Benvinda, dos Virgem Suta. No ano passado resolvemos gravar. Este ano já fizemos cinco concertos. É uma mudança de ares que me agrada”, conta.

Sempre disse que primeiro cria a música e depois veste-a com as palavras. Para ele a palavra tem uma importância maior. O que se passa quando atua no estrangeiro para públicos que não falam o português? “Passo a força da música e o mistério das palavras”. A comunicação com o público é total nestes casos? “Quando atuo perante um público de uma língua que não me compreende tanto, tento fazer uma resenha do tema, mas algo se vai perder na tradução”, afirma.

A música canta o humano, o comum, muitas vezes está entre a morte e o amor. São sobretudo estes os temas? “A minha paleta é muito variável”. Mantem a capacidade de apreender novas histórias? “O meu ritmo de composição abrandou. Até porque tenho outros projectos que me consomem, como os livros. Mas ainda há pouco fiz, com os Clã, uma nova canção e sai-me muito bem. Gosto desse exercício de joelharia e carpintaria que me dá muito gozo, muito diferente do trabalho narrativo de um romance. Numa canção há a palavra, a música, a rima e a métrica que tornam o trabalho muito diferente”, enumera.

O cantor viveu profundamente as revoluções do Maio de 68 e do 25 de Abril de 1974, será que nessa altura acreditaria que o mundo ainda está como está? “Isto não tem resposta única, há coisas que mudaram para pior e outras para melhor. Em Portugal havia nessa altura uma guerra colonial que estava a sangrar um país e a juventude, vivia-se em ditadura, logo a resposta tem muitos vetores, mas é evidente que há coisas que são preocupantes. Como a emergência da crise climática e países das duas grandes Américas estarem a ser governados por tipos que são perigosos, como Trump e Bolsonaro”, de qualquer forma acha que a vida lhe deu algumas lições sobre isso, “aprendi qualquer coisa com o fim do Maio de 68, quando ele terminou com a vitória de Charles de Gaulle, aprendi que a história não se faz só de passos em frente. O que me deu a capacidade de perceber, no 25 de Abril, quando me falavam das ’conquistas irreversíveis’. Eu sabia que não era bem assim. Desde aí eu sempre fui um cético que no entanto acredita nas coisas.”

Harold Bloom defendia, no seu “Cânone Ocidental”, que os artistas e escritores aparecem em cachos e constelações, a emergência na música, em determinada época, de Sérgio Godinho, José Mário Branco, José Afonso, Cília, Adriano confirma essa ideia? Há hoje uma nova constelação a emergir em Portugal? “Não há uma só constelação. Acho que a música portuguesa, para o tamanho do país, é muito rica e sobretudo é fértil em vários géneros. Há uma grande renovação do fado; há uma geração de pop rock e há novos géneros misturados que são quase indefinidos. E há gente no jazz e na música popular”. Sobre o seu percurso, o cantor não concorda totalmente: “Acho que sou mais influenciado pelo pop e pelo rock, que por exemplo o Fausto ou o José Mário Branco, não creio que fossemos todos iguais. Para mim o palco sempre foi uma coisa muito importante, talvez por ter feito teatro”.

Há canções que morreram e o fartaram? “Há algumas que deixaram de fazer sentido. Não canto nem ‘Os pontos nos is’, nem o ‘Trator’, ambas falam da reforma agrária. Porque acho que são exercícios de nostalgia e eu não sou muito disso. Mas continuo a cantar o ‘Brilhozinho nos olhos’”.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

Abri'Lux. Uma homenagem luso-luxemburguesa à Revolução dos Cravos
Há músicos portugueses, luxemburgueses e um norte-americano, vindos da área do jazz e da clássica, no projeto Abri’Lux, que presta homenagem à Revolução portuguesa e aos seus cantautores. Sob a liderança de Marc Demuth, apresentam-se esta quinta-feira na Philharmonie e explicam como foi a experiência de descobrir o que consideram “autênticas joias” de música e palavras que vão de Zeca Afonso a Sérgio Godinho.
Rodrigo Leão traz novo projeto ao Luxemburgo
Rodrigo Leão, com uma carreira que ficará na história da música portuguesa, vem ao Luxemburgo com Scott Matthew para apresentar um disco a quatro mãos, “Life is Long”. O concerto é já no próximo domingo, dia 8 de outubro, e faz parte do Festival Atlântico, que arranca esta semana na Philharmonie.
Rodrigo Leão e Scott Matthew trazem ao Luxemburgo “Life is Long”, um disco com letras do australiano e músicas do português. Foto: Rita Carmo RodrigoLeão traz novo projeto ao Luxemburgo
Concerto no Luxemburgo : Miguel Araújo na Philharmonie
O nome de Miguel Araújo se calhar não lhe diz muito, mas se lhe dissermos que é ele que canta aquela música que diz que “os maridos das outras são...”, com certeza que até já está a trautear a música que chegou aos tops portugueses em 2012. Miguel Araújo é autor e compositor e vai actuar no próximo dia 1 de Outubro na Philharmonie, na cidade do Luxemburgo. Há quem diga que é dos melhores da actualidade.
É a primeira vez que Miguel Araújo vem ao Luxemburgo