Escolha as suas informações

Ser e parecer
Opinião Cultura 5 min. 07.12.2020

Ser e parecer

Mclaren 720 S

Ser e parecer

Mclaren 720 S
Foto: DR
Opinião Cultura 5 min. 07.12.2020

Ser e parecer

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Uma série disponível na Netflix sobre gangsters em Amesterdão fez-me pensar sobre o ser e o parecer. Sobre o facto de parecemos uma coisa e muitas vezes sermos outra.

Em "Keizersvrowen" a esposa de um alto funcionário da câmara de Amesterdão dirige uma agência de escort girls que faz parte de um imenso grupo mafioso dirigido pela sua mãe, outra senhora muito assenhorada que nem pintada imaginaríamos como uma líder mafiosa, vivendo com fausto num belo casarão do século XIX em Antuérpia.

Não é que eu me preocupe com a vida alheia, mas pus-me a pensar o que fazem alguns dos meus amigos e conhecidos na vida para viverem tão bem... Como será que o John pagou o McLaren 720S, ele que diz sobreviver com a ajuda de uma tia, ou como explicar o train de vie da Marylène que tem sacos que valem tanto como o meu carro...

Importa salientar que isto não é inveja nem nada que se pareça. A inveja é algo que não me assiste. Nunca comparei a minha vida à de ninguém nem os meus haveres aos de outrem.

Talvez a exceção seja o McLaren do meu vizinho. Gosto muito. É cor-de-laranja e tem suspensão ativa que lhe permite entrar na garagem do prédio sem se colocar todo de lado, tal como eu sou obrigado a fazer com o meu carro para não esfregar o spoiler dianteiro no chão. Mas é só por isso que o invejo; se o meu carro tivesse a possibilidade de se levantar uns centímetros já nem lhe desejava o fabuloso McLaren.

Tão pouco invejo a Marylène que usa os tais sacos que custam vários milhares de euros (disseram-me, porque eu nem sequer sei avaliar um saco de senhora). Mas, como ela, gostava de poder dizer que este Natal vou para as Maldivas que lá não há covid, como quem diz que vai almoçar à pizaria no Limpertsberg.

Não estou aqui a questionar a origem dos fundos dos meus conhecidos, mas apenas a constatar que o Luxemburgo é terreno difícil para invejosos. Felizmente que eu não o sou, senão ia passar a vida deprimido a querer ter tanto ou mais que os outros.

Estas reflexões fizeram-me recordar algo que aconteceu com um amigo meu. Há quinze dias, o Patrício foi meter pneus de neve no seu velho BMW série 3 a gasóleo que trouxe de Portugal quando emigrou. Enquanto esperava ficou a conversar com os mecânicos.

Num espaço dedicado aos automóveis e cheio de homens só se fala de carros, de mulheres ou de futebol. E como o Patrício é bastante sociável começou a fazer conversa explicando que gostava muito do seu carro de 1998, que o BM gastava pouco, que andava bem e que tinha ido a Portugal com ele este verão fazendo uma média inferior a sete litros. E isto sempre a abrir, a 140 ou 150...

O miúdo que lhe estava a colocar os pneus ouviu pacientemente as aventuras do meu amigo quase sem comentar; até que mencionou que gostava de fazer drift aos fins de semana num sítio na Bélgica reservado a iniciados. Que giro, disse o Patrício e lá acabou por perguntar, e com que carro é que faz isso? O rapaz respondeu que era com um GT-R acabadinho de comprar e que, como dá para o melhorar, até estou a pôr-lhe mais 80 cavalos e uns apêndices aerodinâmicos.

O Patrício não percebe grande coisa de carros mas sabe que um Nissan GT-R custa mais de cem mil euros. Quase engasgou e não disse mais nada sobre o seu BM a gasóleo. Saído da garagem, o Patrício telefonou-me logo. Ó Raúl eu estive agora a trocar os pneus e o puto que lá trabalha tem um GT-R, que raio de país é este?

Esqueci-me de dizer que o Patrício chegou ao Luxemburgo há tão pouco tempo que esta é a primeira vez que mete pneus de inverno. Apesar de ser um tipo aberto e observador, o confinamento complicou a descoberta da realidade socioeconómica do país. Para quem chega fresquinho de Portugal, sem experiência de emigração, há muitas coisas surpreendentes.

Basta ver o estilo ou as vestes de cada condutor que sai de um Porsche no Luxemburgo, já para não falar em Ferraris. Se cruzasse algumas dessas pessoas na rua em Portugal, atravessava para o outro lado da rua. As prioridades de cada pessoa são distintas e devem ser respeitadas, assim como as distâncias porque nunca se sabe o que vai na cabeça de quem cruzamos.

Expliquei ao Patrício que o mecânico que lhe mudou os pneus deve ser um apaixonado por carros desportivos que meteu todos os seus meios financeiros no carro e no tuning que vai continuar a fazer nele. Não é que eu seja invejoso mas apliquei a velha lógica do português que critica os emigrantes: esse gajos passam fome todo o ano para ir de Mercedes no verão a Portugal!

Mas convive-me, até porque sou tudo menos invejoso. Expliquei ao Patrício que o facto de o seu rapaz dos pneus ter um carro de 100 mil dele é um bom sinal. Já viste que isso significa que a maioria das pessoas podem aceder a coisas boas, tais como um carrão caríssimo, mesmo tendo um trabalho pago com o salário mínimo ou pouco mais?

Estava mesmo pronto para defender o magnífico estado social luxemburguês com um exemplo sobre o mercado imobiliário, quando percebi que o mecânico que trocou os pneus do meu amigo não tem nenhuma hipótese de, por exemplo, comprar um apartamento novo na capital luxemburguesa onde já se negoceia o metro quadrado acima de dez mil euros. A não ser que tenha outras fontes de rendimento.

Como não sou invejoso, não fiquei a pensar no GT-R do mecânico, mas admito que gostava de ter um. Contudo, para isso teria de dedicar-me a atividades ilícitas ou ganhar o Euromilhões que teima em não me sair. E sabem onde é que eu jogo? Em Portugal. Devo ser parvo, porque se me sair vou ter de pagar 20% sobre os ganhos e depois nem sei se me chega para o McLaren cor de laranja...

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.