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Será a violência contra os negros uma realidade escondida que tem de ser mostrada?
Cultura 6 min. 05.11.2021
Documentário

Será a violência contra os negros uma realidade escondida que tem de ser mostrada?

Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda (BE) e candidata por aquele partido à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, coloca uma flor no memorial de homenagem a Alcindo Monteiro, no local em que foi assassinado há 26 anos, Lisboa, 10 de junho de 2021.   MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
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Será a violência contra os negros uma realidade escondida que tem de ser mostrada?

Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda (BE) e candidata por aquele partido à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, coloca uma flor no memorial de homenagem a Alcindo Monteiro, no local em que foi assassinado há 26 anos, Lisboa, 10 de junho de 2021. MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
LUSA
Cultura 6 min. 05.11.2021
Documentário

Será a violência contra os negros uma realidade escondida que tem de ser mostrada?

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Na noite de 10 de Junho de 1995, um grupo de nacionalistas neonazis organizou uma correria pelas ruas do Bairro Alto para caçar indivíduos negros e afirmar a sua presença. Alcindo Bernardo Fortes Monteiro – cabo-verdiano, mecânico de profissão, de 27 anos – foi a última das onze vítimas da violência perpetrada naquela longa noite. E foi o único a ser pontapeteado e sovado com um ferro até à morte, talvez por ter sido encontrado sozinho, frente ao bando organizado de skinheads, na Rua Garrett.

A brutalidade da violência racista no assassinato de um inocente, praticado simbolicamente no dia considerado da raça ou de Camões, merece o mais veemente repúdio. Nenhum tipo de racismo, nenhuma forma de discriminação nacionalista baseada na cor da pele e nenhum tipo de violência física se justificam no quadro de uma sociedade moderna. Talvez, por isso mesmo, valha a pena aceitar como critério a própria noção de processo de civilização, para fugir à barbárie e à violência descivilizadora. De qualquer modo, poucos ou nenhuns, a não ser os membros do próprio bando ou os seus devotos, quiseram ou quererão encontrar uma explicação que faça reconhecer como legítima tamanha barbaridade. A esses membros, dever-se-ão juntar uns poucos leitores de Carl Schmitt, sempre afoitos a valorizar, perversamente, a violência sacrificial como elo de formação dos grupos. 

O caso provocou uma onda de indignação. Alguns partidos de esquerda, como o PSR e o próprio PCP, reagiram, aparentemente, através das suas organizações ligadas à luta anti-racista (SOS Racismo e Frente Antirracista). Por sua vez, o sistema judicial português julgou todos os membros do bando de assassinos e impôs-lhes pesadas penas. Contudo, não se admitiu ter-se tratado de um caso de genocídio organizado, como constava da acusação, a cargo do advogado João Nabais, que trabalhou no processo ao lado de Francisco Teixeira da Mota.  

Vêm estas notas a propósito do filme realizado por Miguel Dores, produzido pelos Maus da Fita, intitulado “Alcindo” e anunciado como “a etnografia de uma noite longa – uma noite do tamanho de um país”. Com esta justificação, aquele que foi considerado o melhor documentário do Doclisboa 2021, segundo a escolha do público do festival, inclui, pelo menos, quatro diferentes planos. 

O primeiro desses planos centra-se na reconstituição da vida de Alcindo Monteiro. A sua família, estabelecida no Barreiro – com pai que fora emigrante na Alemanha, mãe e irmã representados em toda a sua dignidade – , chora a morte do filho e irmão, com quem todos querem continuar a falar. Além da casa, o dono da oficina e o colega de ofício, brancos, referem-se-lhe como cumpridor e bem-disposto. Assim, o retrato de Alcindo, que o documentário propõe, é o de um jovem adulto normalizado pelo trabalho e cumpridor na sua profissão, que gostava de cozinhar, dançar e de se divertir, ocupando um lugar no interior de uma família cabo-verdiana, cheia de afectos e estabelecida no Barreiro. Aliás, é nos depoimentos e diálogos em que participam os familiares de Alcindo, muito em especial na expressão tão inconsolável quanto resignada da irmã mais velha, tão bonita, que se encontra a maior riqueza etnográfica deste documentário.  

Sobre o primeiro plano como que se ergue um outro, que vive de imagens, divisões e contrastes. Nele, longe de se poder encontrar uma visão integrada, predominam os conflitos. Refiro-me à ideia de bando ou, melhor de gang. Pertenceria Alcindo a um qualquer desses gangs, com os quais os branquelas tendem a confundir a vida dos negros? E a resposta a esta simples questão, dada pelo documentário, é não. Alcindo, nunca será demais recordá-lo, foi atacado covardemente, quando se encontrava sozinho, num combate que estava ganho à partida por um bando, esse sim, organizado. A mesma preocupação em desligar o comportamento dos negros da sua ligação a presumidos gangs repete-se em pelo menos duas ocasiões do documentário: por um lado, quando um rapper,  entrevistado por uma jornalista, num programa de entretimento, que toma como adquirida a sua ligação a um gang, obriga-a a corrigir um tal ponto de vista; por outro lado, quando um jovem negro, entrevistado na rua, reitera a afirmação de que não estava ligado a nenhum grupo organizado e violento.  

Há um terceiro plano do documentário, que tem expressão tanto ao nível dos discursos, como das instituições. Refiro-me à denúncia de um discurso político oficial que, em tempos pós-coloniais, continuou a repetir os estereótipos de uma identidade portuguesa humanista e universalista, orientada para a integração e a miscigenação, incapaz de aceitar a existência de um racismo sistémico ou estrutural. A reprodução de um discurso de Ramalho Eanes, tal como um depoimento de Dias Loureiro, enquanto ministro da Administração Interna, são dois dos melhores exemplos de um país ou, melhor, de membros de uma elite política que se recusam a encarar as questões da presença do racismo na sociedade portuguesa. À luz desta cultura política, sempre que existe um episódio racista, ele é encarado como uma exceção, sendo-lhe negada a sua muito maior espessura na mesma sociedade. 

Frente a essa ideologia – que é mais uma mascarada ou uma leitura distorcida do que se passa, tendo em vista manter situações de dominação – , o documentário procura impor o ponto de vista dos que sofrem na pele situações de racismo. É este o contraste entre as más práticas das elites políticas, que continuam a alinhar com a chuchadeira do luso-tropicalismo, e as boas práticas das organizações políticas que denunciam o racismo estrutural. Por exemplo, no filme, trabalhadores cabo-verdianos dão o seu testemunho acerca do medo que já sentiram por andar nas ruas e poderem ser objecto de maus-tratos, sobretudo de noite. Mas são as organizações políticas tais como a Frente Antirracista e, sobretudo, o mais mediático SOS Racismo de José Falcão e Mamadou Ba (com as suas quezílias e lutas pelo protagonismo) que acabam por assumir o papel da única visão correta, que não admite o contraditório.  

Esta análise dos diferentes planos que se sobrepõem no documentário de Miguel Dores não ficaria completa sem uma referência aos aparelhos securitários e policiais. Estes estão presentes na representação de outros casos de violência de que existem registos em vídeo: Cláudia Simões agredida por um polícia fora de um autocarro, na Amadora; ou uma outra cena de violência filmada com polícias a bater em mulheres num bairro social. Quanto ao Alcindo, poder-se-ia diferenciar a atuação da Polícia Judiciária, pela sua eficácia na prisão dos assassinos, daquela que foi a da PSP, na noite do crime, pois esta última primou pela sua ausência. 

A reconstituição deste conjunto de planos, que o documentário vai sobrepondo, conduz à formulação de uma questão crucial: será este um filme etnográfico, como reclamam os seus autores, ou estar-se-á em presença de um manifesto, de uma produção fílmica com traços de maniqueísmo e propósitos de propagandear uma visão dos que se encontram por baixo e que, por isso mesmo, se consideram vítimas de uma visão distorcida da realidade? 

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A história de Alcindo Monteiro, em lugar de se constituir em ponto de partida para um trabalho de etnografia visual, acaba por servir, no filme, apenas, de pretexto para uma denúncia do racismo estrutural em Portugal.