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Separação e Divórcio. Páginas inéditas do diário de uma mulher.
Cultura 10 min. 07.01.2022
Livros

Separação e Divórcio. Páginas inéditas do diário de uma mulher.

Pintura de Paula Rego - The Interrogator’s Garden, 2000, Saatchi Gallery, Londres.
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Separação e Divórcio. Páginas inéditas do diário de uma mulher.

Pintura de Paula Rego - The Interrogator’s Garden, 2000, Saatchi Gallery, Londres.
Foto: https://awarewomenartists.com/en/artiste/paula-rego/
Cultura 10 min. 07.01.2022
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Separação e Divórcio. Páginas inéditas do diário de uma mulher.

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
São mais de quinhentas páginas, que começam com alguém a dizer que quase nada tem para contar devido à vida monótona e fechada que levou. Mas que acabam por se desdobrar num sem número de situações que envolvem o leitor mais distanciado.

Uma conhecida entregou-me um diário. Disse-me que fora escrito por uma amiga um tanto afastada. Levei-o a dois editores. Ambos mostraram interesse em publicá-lo. Fiquei contente e irei escolher a melhor das propostas. Estou consciente de que a edição de livros atravessa um mau momento, por isso considero gratificante o interesse suscitado pelo manuscrito. Algum trabalho de revisão tive de fazer para o transformar em livro. São mais de quinhentas páginas, que começam com alguém a dizer que quase nada tem para contar devido à vida monótona e fechada que levou. Mas que acabam por se desdobrar num sem número de situações que envolvem o leitor mais distanciado. Depois de o ler duas vezes, tenho dúvidas de que se trate mesmo de um diário. Sinceramente, não sei se foi escrito pela amiga da minha conhecida ou por esta. Também confesso que gostava de dizer ter sido eu o autor do diário ficcionado de uma mulher, mas o meu trabalho não foi além da revisão e uniformização do manuscrito.    

Numa linha de escrita feminina e no que aos diários e memórias diz respeito, a Marquesa de Rio Maior, Olga de Morais Sarmento e Maria da Graça de Ataíde surgem como representantes de uma genealogia que encontra neste diário o seu último estertor. Algumas das suas observações aproximam-se do que escreveu Maria da Graça Amado da Cunha na sua correspondência (que Mariana Maurício começou a publicar na última Colóquio/Letras). E, quanto ao estilo propriamente dito, mesmo sabendo que a bitola é alta, gostava de situar a sua autora entre o modo despojado de narrar de Teresa Veiga, a ironia de Yvette Centeno, em Bárbara Escrava, e o labor sobre a língua de Luísa Costa Gomes.    

Última nota introdutória: a autora subscreveria facilmente a ideia de Claire Clairmont quando se demarcou de Madame du Bois (Histoire de Madame Dubois, écrite par elle- même. Nouvelle anglaise, Amesterdão, 1769): “I cannot send you my whole being in a letter” [“Não posso dar-lhe conta de todo o meu ser numa carta”]. E continuou argumentando que tal era a quantidade de sensações e de sentimentos que tomavam conta dela, sempre que tinha uma pena nas suas mãos, que ficava sem saber quais deveria descrever (The Journals of Claire Clairmont 1814-1827, ed. Marion Kingston Stocking, Harvard University Press, 1968, p. 418).   

Transcrevo as primeiras páginas, num registo de pré-publicação: 

  “Acabei de me reformar. Ganhei a vida como bibliotecária de uma instituição única. As colecções de livros antigos à minha guarda acabaram por se constituir na barreira que se interpôs entre mim e o mundo. O meu quase autismo agravou-se quando os meus dois filhos saíram de casa e me fechei ao mundo.  

 A relação com aquele que foi o homem da minha vida durou pouco mais de vinte anos, mas já passaram outros tantos desde o seu fim. Graças à enorme distância cavada entre aquilo que sou e essa minha outra vida, consegui transformar a sua partida num episódio sobre o qual escrevo com serenidade.

 Depois dele, só conheci um outro homem, médico de profissão. Muito reconhecido, na sua especialidade, tal como o primeiro. Embora fosse mais atarracado e mais inseguro de si próprio, talvez por nunca ter feito qualquer tipo de desporto ou devido às suas origens sociais mais baixas. A sua insegurança levava-o a apresentar-me como uma espécie de troféu. Facto que nunca comentei, apesar de achar despropositado. Sempre soube que a nossa relação era muito desigual. Afinal, tinha sido eu a escolhê-lo,  pois era uma presa fácil. Mas aquele seu lado mais servil, espécie de imitação de um Dâmaso a querer fazer vista comigo, procurando a todo o custo agradar-me, acabou por se tornar insuportável. A nossa relação durou ano e meio. Fartei-me. Apaguei-o da minha memória, sem qualquer esforço. Agora, ao lembrar-me dele, quase sinto vergonha por alguma vez me ter sujeitado a tocar naquelas mãos sapudas e a contemplar o seu suor a escorrer pelo cachaço.  

 Desde então, preferi a solidão, entrecortada de relações frívolas e de encontros sociais. A minha entrega à leitura preenche-me totalmente. Pelo menos, procuro convencer-me de que assim é. Também trabalho, há décadas, como tradutora para português. Ao princípio, de várias línguas, mas fui reduzindo o espectro e abandonei o alemão, o francês e o italiano para me concentrar exclusivamente no inglês. Leio e traduzo, à procura de outras maneiras de escrever que nada tenham a ver com o que faço, bem como de mundos compostos por gente diferente, que me permitam melhorar o conhecimento dos comportamentos de tantas personagens. Impus a mim própria essa disciplina.  

 A capacidade de análise que desenvolvi, mais o controle que passei a ter sobre os meus sentimentos dependeram mais da literatura que de qualquer disciplina clínica. Parece-me que estas tendem a basear-se em ideias de patologia, de anormalidade ou na localização de acontecimentos traumáticos, obrigando a uma mediação por especialistas cuja fraca preparação dispenso. Foi assim que, aos poucos, alimentei a esperança de que tanto conhecimento pudesse despertar em mim o desejo de escrever. É que acredito que só através da escrita do que me vai cá dentro poderei encontrar uma nova serenidade, que me faça chegar ao fundo de mim própria.  

 A razão por que tenho tanta relutância em escrever resulta de um excesso de consciência. De uma espécie de auto-análise obsessiva, permanente, que me leva a pensar que escrever sobre mim própria – bibliotecária de profissão, apesar de tudo autónoma financeiramente, que manteve uma relação estável durante vinte anos, com o pai de dois filhos sobre os quais não posso escrever por respeitar a reserva da sua intimidade, mais uma actividade por vezes bem pesada de tradutora, nas horas livres e aos fins de semana – seria um acto sem qualquer tipo de interesse. Seria mesmo ridículo procurar que o foco da minha escrita incidisse sobre mim, sobre os pormenores e minudências da minha vida. Tudo para esconder a capacidade de me elevar a um drama ou a uma tragédia, envolvendo algo mais ou menos espectacular ou que evocasse uma espécie de neurose ou desequilíbrio. Mas como poderei continuar a escrever, se nada disso tenho para contar?  

 A única coisa que veio perturbar uma trajectória pessoal que parecia estar votada à monotonia foi a separação e o divórcio. Contudo, digo-o sem peneiras, em tempos de um puritanismo que condena qualquer tipo de veleidade egocêntrica: a minha figura, a começar pelo meu olhar, talvez até as minhas origens aristocráticas, sem esquecer o sorrisinho irónico, sempre me valeram os superlativos de bela e inteligente a quem tudo era permitido fazer. Mais: a contenção com que tenho vivido – a extrema regularidade ou, como sempre pensei para mim própria, a monotonia aborrecida, na contramão daqueles superlativos – trouxe-me uma áurea de quase santidade que me transformou num espelho de virtudes. E o resultado da imagem que projectei foi que assumi uma espécie de estatuto transcendente de intocável superioridade. Como se tivesse deixado de estar entre os vivos... Estou, hoje, convencida de que foi esta mesmo a razão da sua partida.  Lembro-me bem desse dia. As crianças eram adolescentes. O jantar, como sempre, era às nove, depois do telejornal das oito. Foi numa terça-feira, dia de cirurgia no hospital. Depois do jantar, com os miúdos nos quartos ou já na cama, ouvi-o simplesmente a dizer que a nossa relação tinha acabado, mas que ele continuaria a ser meu amigo e a apoiar-me em tudo. Sem mais, até subitamente sair porta fora. Nenhuma outra explicação recebi além dessa declaração de desamor. Talvez por cobardia, talvez por não valer a pena desenvolver uma justificação, não respondi. Nada disse, até hoje, a esse respeito.  

Dois dias depois, ele veio para indicar a um homem das mudanças a roupa e alguns objectos que pretendia levar para uma nova casa. Não assisti a tal espectáculo. Mesmo que não consiga dizer porquê, não aguentaria acompanhar a retirada e fazer de conta que não me importava. No dia da mudança, por um simples atraso, ainda vi os últimos caixotes junto ao elevador. Só mais tarde, pormenor irrelevante, vim a saber que a mudança era para um apartamento, alugado já há alguns meses, num dos prédios da Avenida Infante Santo. Talvez o mesmo em que Sttau Monteiro, em Angústia para o Jantar, colocou a amante...  

Sobre tudo o que se passou, nunca disse o que me ia na alma. Acho mesmo que consegui dissimular e dar a entender que, para mim, era um alívio ver-me livre dele. Que bom seria poder embarcar noutras aventuras, sem ter de prestar contas a ninguém. Numa palavra, reinventar-me, experimentar novos prazeres e emancipar-me. Mas o certo é que nas páginas deste diário, onde escrevo como se não tivesse destinatário, mostrarei como sofri e chorei quando ele partiu. Se deixei de controlar o mundo à minha volta, foi só através da escrita e da análise dos meus sentimentos que readquiri o comando da situação. 

O que ele fez foi arranjar uma mulher mais nova. Admito até que, pelo menos nos primeiros tempos, se tivesse encantado com a sua vitalidade. Tudo isto revestindo contornos que considero de uma banalidade tão previsível, quanto atroz. Hoje, sei que essa outra relação se transformou na mesma rotina de encontros aos jantares e fins de semana, nas margens bem periféricas do que esteve sempre no centro da sua vida: o hospital, as consultas dos doentes e as operações. Se, quando estava comigo, o trabalho era uma forma de se fazer valer face aos meus atributos superiores e à minha dominação, com a outra, o trabalho passou a ser um modo de se refugiar, mantendo as aparências de uma vida regular, a dois.  

Na impossibilidade de demonstrar a minha vitalidade corporal, como fora dado à outra, cujo nome é para mim inefável, passei a escrever de forma contemplativa. Do lado dele, acredito que a verdade é só uma: incapaz de voltar para trás, numa vida que só aparentemente é a dois, sem ter tido filhos dessa outra relação que lhe permitissem sedimentar o que quer que fosse, como aconteceu connosco, as suas rotinas acabaram por funcionar como uma espécie de alienação. Por pedantismo da minha parte, mas, do alto da minha profunda intuição, sei que ainda vive apaixonado por mim. Uma paixão tão grande quanto é a consciência que tem da impossibilidade de voltar para mim e da humilhação a que ficaria sujeito se ousasse uma qualquer reaproximação. Além disso, tenho a certeza de que ele o sabe bem: qualquer gesto nesse mesmo sentido seria inútil.  

 Tal como Antígona, sei que errei, por me ter deixado sucumbir nas rotinas de uma vida monótona e ter perdido a vitalidade a que nos obriga uma sociedade tão centrada no corpo, quanto cheia de tabus a seu respeito. Mas também aprendi a dominar uma situação que parecia ser incontrolável. Depois da nossa separação, ao ver condenado à morte o mundo que tinha e que mal ou bem era o meu, soube readquirir o controlo da situação. Não precisei sequer de me suicidar, como fez Antígona, para arrastar comigo aquele que se afastara de mim, por não aguentar a paixão surda que vivia de forma subjugada. Também não o levei à morte. Só que, ao dotar-me de uma frieza quase gélida, consegui voltar a ser dona e senhora da situação, quando transformei a sua vida num peso onde só o trabalho o faz feliz. Enquanto para mim, a escrita que todos os dias tento, o meu trabalho, me liberta e dá um novo alento, neste Inverno da vida em que me sinto a entrar”.

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