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Óscares 2019. O fim do cinema tal como o conhecemos?
Cultura 6 min. 25.02.2019

Óscares 2019. O fim do cinema tal como o conhecemos?

Óscares 2019. O fim do cinema tal como o conhecemos?

Foto: Carlos Somonte
Cultura 6 min. 25.02.2019

Óscares 2019. O fim do cinema tal como o conhecemos?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A Academia não quis que "Roma" fosse o grande vencedor da noite tendo repartido os prémios por uma série de candidatos, mais ou menos favoritos, mas o filme de Alfonso Cuarón, com três estatuetas, marcará indelevelmente a História dos prémios mais importantes da indústria cinematográfica.

A corrida aos Óscares 2019 começou com polémica: o filme que muitos críticos – e outros galardões – apontavam como favorito não passou pelas salas de cinema. “Roma” de Alfonso Cuarón é um brilhante filme que relata a história de uma família mexicana no qual o realizador acumula tarefas e poderia ter ganho cinco Óscares para si próprio…

A Academia não quis que o mexicano fosse o grande vencedor da noite tendo repartido os prémios por uma série de candidatos, mais ou menos favoritos, mas “Roma”, com três estatuetas, marcará indelevelmente a História dos prémios mais importantes da indústria cinematográfica. Um filme produzido pela Netflix e feito para ser visto em streaming apareceu entre os finalistas dos Óscares e mereceu os galardões que obteve.

“Roma” e “The Favourite” partiram com dez nomeações cada um e isto já foi uma vitória para dois filmes “anormais”: “Roma” é um “outsider” pelas razões já explicadas e o filme de Yorgos Lanthimos porque oferece uma visão diferente e quase perturbadora de um episódio histórico.

Apesar das dez nomeações, a Academia baralhou as contas dos apostadores e deu o prémio mais importante a “Green Book”. Esta obra assinada por um cineasta capaz de filmes muito maus inverte a fórmula de “Driving Miss Daisy”, e relata uma road trip que conta no elenco com Mahershala Ali (Óscar para o melhor ator secundário) como pianista clássico, e Viggo Mortensen como o seu motorista. Numa viagem pelo sul da América, o que começa como uma relação de conveniência torna-se numa amizade improvável. O sucesso de “Green Book” surgiu depois de conquistar o People's Choice Award no Festival Internacional de Cinema de Toronto e continuou nas bilheteiras de todo o mundo. Agora o filme de Peter Farrelly parte para uma nova vida.

Mas houve também Óscares para “Bohemian Rhapsody”, aquele que é atualmente o maior sucesso de bilheteira em todo o planeta. A história dos Queen, e sobretudo do seu líder Freddie Mercury, conquistou o grande público mas teve mais dificuldades para se impor. Contudo, o brilhante Rami Malek, no papel do vocalista da banda levou para casa o Óscar para o melhor ator.

Glenn Close, que esperava “sem pensar muito nisso”, como declarou na passadeira vermelha, levar o Óscar para a melhor interpretação feminina pelo excelente trabalho em “The Wife”, viu a britânica Olivia Colman arrebatar o prémio pelo papel de rainha Ana em “The Favourite”. Recorde-se que nesta categoria muitos apostavam em Lady Gaga, protagonista de “A Star is Born”.


“The Favourite” é claramente um OVNI, vindo da mente de Yorgos Lanthimos, realizador de “The Lobster” e “The Killing of a Sacred Deer”, filmes que já tinham surpreendido os mais atentos. Desta feita, o realizador grego decidiu fazer um filme de época do século XVIII, reinventando o reinado da rainha Ana. O resultado é uma comédia de humor negro, com Olivia Colman como a monarca, enquanto que Emma Stone e Rachel Weisz fazem o papel de cortesãs que disputam a sua atenção. O filme é brilhante e obsceno, mas afinal as lufadas de ar fresco fazem sempre bem…

A melhor atriz secundária é Regina King pelo seu desempenho em “If Beale Street Could Talk”. A atriz afro-americana tinha pela frente nomes como Amy Adams (“Vice”), Emma Stone e Rachel Weisz (“The Favourite”, além da “outsider” Marina de Tavira (“Roma”).

Rachel Weisz and Olivia Colman in the film THE FAVOURITE. Photo by Yorgos Lanthimos. 
Rachel Weisz and Olivia Colman in the film THE FAVOURITE. Photo by Yorgos Lanthimos. 
Foto: Yorgos Lanthimos

A estrela que não brilhou

Depois de uma reação arrebatadora no Festival de Veneza, “A Star is Born” - com Lady Gaga e Bradley Cooper - parecia destinado a dominar o certame. Com uma banda sonora carregada de emoções e uma história de amor intemporal, “A Star is Born” é um poderoso filme mas que teve de se consolar com o prémio de Melhor Canção Original pela balada “Shallow”. Lady Gaga não conseguiu assim dar a alegria aos seus fãs de conquistar o Óscar na categoria de melhor atriz, assim como Bradley Cooper não obteve nem o prémio para o ator principal nem para a realização, que Alfonso Cuarón levou consigo.

“BlacKkKlansman” de Spike Lee trazia excelentes críticas do festival de Cannes e uma história original sobre um polícia negro que se infiltra no Ku Klux Klan. Depois de obter o Grand Prix em Cannes o palmarés teve de se contentar com o prémio para o melhor argumento adaptado. “BlacKkKlansman” passa-se em 1970 aos gritos de “America First!” o que colocou o filme no top dos favoritos na categoria de “cinema de intervenção”. O trabalho de Spike Lee não foi reconhecido com um Óscar “nobre”, mas o realizador não foi para casa de mãos a abanar.

Uma das desilusões europeias foi o magnífico “Cold War” de Pawel Pawlikowski. O realizador polaco, extremamente feliz com “Ida” não conseguiu levar consigo nenhum galardão, nem sequer o de melhor filme de língua estrangeira que ficou nas mãos de Cuarón.


Passadeira vermelha dos Óscares. O que é que lhes passou pela cabeça?
A 91.ª cerimónia dos Óscares realizou-se ontem em Los Angeles, na Califórnia. Entre os grandes vencedores estão "Green Book - Um guia para a vida", "Roma" "Bohemian Rhapsody" e "A Favorita".

Mudança de paradigma?

O mexicano Alfonso Cuarón chegou aliás à cerimónia em Hollywood com vários prémios no bolso, entre os quais o Leão de Ouro de Veneza. O filme “Roma” é uma carta de amor para a Cidade do México da sua juventude, vista através dos olhos de uma jovem mulher e da família para a qual trabalha. O filme capta a turbulência política dos anos 70 a preto e branco, e reflete sobretudo o trabalho de Cuarón que realizou, escreveu, filmou e quase tudo fez neste belo projeto. No centro da história de “Roma” está Yalitza Aparicio, que se estreia no papel da empregada Cleo, cuja vida pessoal se está a desmantelar lentamente.

Esta obra é uma sequência de episódios que vão revelando como os acontecimentos afetam as personagens, com destaque para a empregada. O realizador aproveita para contar indiretamente a história do México, sendo a cena mais flagrante a reconstrução do massacre de 1971 na qual um grupo paramilitar e as autoridades abateram estudantes que se manifestavam contra o regime.

A caraterística mais polémica de “Roma” não é sequer o seu conteúdo marcadamente social e político mas o facto de ser uma produção Netflix. O festival de Cannes tem-se insurgido contra as obras que não passam nas salas de cinema, chegando a impedir a sua participação na competição. O Leão de Ouro em Veneza somado ao Óscares que “Roma” leva para casa marcam uma viragem clara na abordagem daquilo que é o cinema tradicional. Hoje já se consome mais cinema em linha do que nas salas. Se me perguntarem se é uma coisa boa eu acho simplesmente que “é pena”, mas os anos que se seguem vão certamente definir o que é cinema e onde o vamos ver.

Portugal nos Óscares

O filme norte-americano “Free Solo” que obteve o Óscar de Melhor Documentário conta na ficha técnica com dois nomes portugueses: Joana Niza Braga e Nuno Bento, da equipa de som. 

Joana Niza Braga e Nuno Bento, ambos de 27 anos, são, respetivamente, ‘foley mixer’ e ‘foley artist’ do documentário da National Geographic, no qual os realizadores Jimmy Chin e Elizabeth Chai Vasarhelyi acompanham o alpinista norte-americano Alex Honnold na escalada, sem cordas ou proteções, da parede de granito El Capitan, com 900 metros de altura, situada no Parque de Yosemite, nos Estados Unidos.

 O trabalho de Joana Niza Braga e de Nuno Bento foi “todo feito remotamente”, a partir de Lisboa, na pós-produtora de cinema Loudness Films.

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