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São José Correia traz Edgar Allan Poe ao Festival de Cinema Português

São José Correia traz Edgar Allan Poe ao Festival de Cinema Português

Cultura 5 min. 22.11.2018

São José Correia traz Edgar Allan Poe ao Festival de Cinema Português

Com um percurso como atriz que se estende do teatro ao cinema, passando pelo universo das telenovelas, São José Correia também tem alargou o seu trabalho à realização. Esta sexta-feira vai marcar presença com a curta-metragem “O Coração Revelador” no Festival de Cinema Português no Grão-Ducado e não hesita em classificar esta participação.

“É uma enorme alegria. As curtas-metragens têm o grau de dificuldade de só serem vistas em festivais. Poder estar com esta curta-metragem de que me orgulho tanto na Cinemateca do Luxemburgo, país com uma comunidade portuguesa tão grande, é um motivo de orgulho. Também já fui emigrante durante sete meses no Brasil, sei que é pouco tempo comparado com quem passa a vida toda fora, mas sei dar o valor a isso e posso dar algum conforto a quem for ver o espetáculo e conversar comigo e isso dá-me um prazer enorme. Quando me falaram na possibilidade de ir fiz todos os esforços e, estando a gravar, pedi autorização para me ausentar na sexta-feira, porque é muito importante estar aí. Espero que gostem e se sintam orgulhosos do que se faz cá em Portugal com tanta dificuldade”.

Sobre a curta-metragem que traz ao Luxemburgo, baseada num conto de Edgar Allan Poe e uma incursão da realizadora no mundo do terror e do mistério, explica: “Foi estreada este ano no MOTELX, mas já tinha começado a trabalhar nela há cerca de dois anos. Já conhecia Edgar Allan Poe na adolescência, porque o meu irmão tinha um pequeno livro de contos dele e, na altura, li alguns que me impressionaram muito como o do gato preto e o do escaravelho dourado. Foi sempre um autor que me levou pelo imaginário do fantástico”.

O fascínio nunca se desvaneceu. “Há três/quatro anos uma editora lançou uma grande compilação dos contos de Poe, comprei e, um dia, estou em casa a ler e passei por esse conto. Fiquei fascinada, não só pela beleza literária, mas, apesar de ser um texto para não ser representado, ainda assim é a história de alguém a contar o que fez. Se realmente fez o que conta, se é verdade ou imaginado, não interessa; o que interessa é ser uma personagem a contar uma história. Isso aproximou-me muito do conto, porque estava a ler e visualizei como faria se interpretasse esta personagem. Além disso, já tinha outros exemplos de realização: ’A Noite na Praia’ e um pequeno documento com o João Perry em que o filmei durante três semanas na preparação de um espetáculo”.

A rodagem durou “dois dias” e não teve complicações. “Foi tudo muito simples, porque o projeto começou na minha cabeça em 2016. Nessa altura, estive quase, quase a filmar, tinha tudo preparado, mas fiz muitas asneiras. Uma delas foi estar tão fascinada com o texto que, sempre que o lia, pensava que seriam 15 minutos (risos), mas se fizesse o texto todo era bem mais de 30 minutos. Foi um erro crasso e, quando percebi que tinha de emendar uma série de coisas, já estava muito em cima das filmagens. Depois, também dependia muito do empréstimo do material de imagem e é tudo muito caro. Uma semana e meia antes de filmar mandei o projeto abaixo depois de contactar a equipa. Prefiro não filmar do que filmar só porque está combinado e fazer uma treta qualquer. Este ano encontrei as pessoas certas e, como tudo estava já trabalhado na minha cabeça, preparei tudo num mês e meio. E posso dizer que saímos sempre à hora combinada! [risos]”.

A importância de contar histórias

Quanto a sentir-se mais atraída por um dos mundos (realização ou atuação), São José Correia indica: “Tem a ver com o novo, não quer dizer que esteja a deixar de representar para realizar, pelo menos isso não é claro na minha cabeça. É outra maneira de contar histórias, algo que é bem claro pela minha profissão de atriz, e sempre gostei de contar histórias, mas também gosto muito de as ouvir, por isso também sou fascinada por livros e por cinema. Esta incursão na realização tem a ver com o fascínio por esse outro lado de construir um universo material, físico. Enquanto atriz, construo um universo mas dentro da minha cabeça e as pessoas não têm acesso ao que penso; na condição de realizadora, é precisa uma opinião e uma imagem muito concreta sobre a interpretação, mas também o espaço, a luz, tudo isso é um universo físico”.

Pode o facto de ser atriz torná-la mais exigente com os atores? A resposta inclui elogios para quem surge na curta-metragem. “Tenho o mesmo grau de exigência que tenho para comigo, sim. Talvez até um bocadinho mais, porque do lado de cá a tendência é para ser um pouco mais exigente porque nos apercebemos melhor dos erros que cometemos como atores. Tive a sorte de trabalhar com o Rui Neto que é um ator extraordinário, meu amigo, tem uma dedicação ao trabalho como eu tenho. Trabalhei com ele em teatro e sei que tem o mesmo grau de exigência que eu tenho, além do talento natural e da experiência, foi um tiro certeiro. O seu trabalho na curta é muito complexo, de grande densidade e, sem parecer pretensiosa, em Portugal não me lembro de ver uma interpretação tão detalhada e tão densa”.

No que diz respeito às principais referências como realizadores, a escolha é multifacetada. “[Abbas] Kiarostami é dos meus preferidos porque sempre encaro o cinema como um exercício e não como uma coisa fechada. Os seus filmes são exercícios puros, o meu filme preferido de sempre é o seu ’Através das Oliveiras’. Outra pessoa completamente diferente que também me fascina é Orson Welles também pelo caráter do cinema como exercício e não como algo que só ele sabe. Outro grande realizador é o Béla Tarr que tem um dos filmes que mais me impressionaram na vida, ’O Cavalo de Turim’. Cassavetes também teve esse caráter de exercício, trabalhava com a sua companhia de atores. Todo este exercício assenta numa única coisa: o ator, esse sim um contador de histórias”.

Nos próximos projetos estão englobados diversos trabalhos. “Como atriz estou a gravar a nova novela da TVI, chamada ’A Teia’, com 160 episódios. Até dia 18 estive em cena no Teatro Nacional com uma peça chamada ’Worst Off’, uma visita pela fraca dramaturgia em Portugal ao longo dos anos, uma brincadeira sobre nós que fazemos teatro. Como realizadora, “é mais complicado”. Porquê? “Porque tenho mais coisas que quero fazer, mas aí ainda não tenho perspetivas. Mas quero uma curta-metragem para o ano, adaptando um texto do Miguel Torga, um conto extraordinário chamado ’Alma Grande’. Terei de concorrer ao ICA, porque não tenho dinheiro suficiente para fazer sozinha”.

Paulo Jorge Pereira


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