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"Russian Affairs". Quem tem dinheiro tem tudo?
Cultura 3 min. 28.04.2020 Do nosso arquivo online

"Russian Affairs". Quem tem dinheiro tem tudo?

Marina e Dasha preparam-se para mais um jantar que o amante vai pagar

"Russian Affairs". Quem tem dinheiro tem tudo?

Marina e Dasha preparam-se para mais um jantar que o amante vai pagar
Foto: DR
Cultura 3 min. 28.04.2020 Do nosso arquivo online

"Russian Affairs". Quem tem dinheiro tem tudo?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
O dinheiro é idolatrado, mais do que na maioria dos países que conheço, e quem tem muito considera-se todo-poderoso. Poderia dar aqui exemplos ou procurar razões para isto mas o meu objetivo é apenas introduzir uma série televisiva russa que neste momento está disponível no canal de streaming da Amazon, o Prime Video.

A Rússia de hoje é provavelmente um dos países mais capitalistas do mundo. É quase irónico que a pátria dos sovietes seja, em 2020, um dos países onde quase tudo se pode fazer e comprar por dinheiro. Não me refiro apenas a negócios ou à corrupção que oleia o sistema, mas também à atitude mental de muitos russos relativamente ao dinheiro.

O dinheiro é idolatrado, mais do que na maioria dos países que conheço, e quem tem muito considera-se todo-poderoso. Poderia dar aqui exemplos ou procurar razões para isto mas o meu objetivo é apenas introduzir uma série televisiva russa que neste momento está disponível no canal de streaming da Amazon, o Prime Video.

A série “Russian Affairs”, no seu título inglês, chama-se no original russo “Содержанки” o que quer dizer, numa tradução livre para português, “tidas e mantidas”. Apesar de ser português, esta velha expressão não é talvez muito clara. Em português arcaico era “teúda e manteúda”, e servia para definir pessoas que são sustentadas financeiramente por outra, na forma de "amantes". O título da série refere-se assim às mulheres, mas também aos homens, que vivem à custa dos seus amantes ricos.

A ação desenrola-se em Moscovo, sobretudo em belas mansões, ricos escritórios, faustosos hotéis e restaurantes chiques. O enredo segue várias mulheres, entre as quais se destacam Dasha, acabada de chegar a Moscovo e decidida a conquistar o seu lugar na capital russa. Amiga de Marina, vai começar por usar os contactos da sua conterrânea, já experiente na capital russa, para conhecer homens. Ambas são amigas de um jovem prostituto que quer ser ator, mas cuja amante parece não estar convencida em ajudá-lo.

Depois temos uma detetive casada com um professor de liceu. Ambos têm os seus problemas: ela tem uma relação com um colega de trabalho enquanto que ele é assediado na escola por uma jovem aluna.

E por fim há os ricos, mas mesmo muito ricos. A série acompanha sobretudo dois homens poderosos e multimilionários. Igor é alto funcionário do Estado, o que não o impede de deter várias empresas. Gleb é promotor imobiliário, vive numa casa de arquiteto que mais parece retirada de um filme de Hollywood e compra tudo, incluindo proteção policial.

A personagem central desta série é Dasha, interpretada por Sofya Ernst, uma atriz fraquinha que coloca em perigo a qualidade da série. Contudo, o argumento bem construído – apesar de alguns buracos – mantém o espetador agarrado até ao final de cada episódio. Os atores são muito desiguais, até porque muitos deles não o são. O elenco é um pot pourri de artistas, modelos e gente do jet-set russo e isso nota-se na prestação de cada um.

A realização de Konstantin Bogomolov é inconstante do ponto de vista qualitativo, optando também por diferentes abordagens que não dão à série um “look” específico. Se há algo que se destaca e fica na retina são as imagens frias, azuis, verdes ou cinzentos, das casas dos ricos e dos quartos de hotel.

A série é abertamente sexy. Na Rússia foi apresentada no canal privado Start e foi objeto de bastante polémica. Apesar disso, a série – que já vai na segunda temporada – tornou-se objeto de culto e pode dizer-se que haverá um antes e um depois de “Russian Affairs” na televisão russa.

Apesar das muitas falhas, a série vale sobretudo pelo excelente retrato que faz de uma certa Rússia dos nossos dias, sem contemplações e sem rodeios. A série não tem piedade das meninas tidas e mantidas dispostas a tudo, mas também não poupa os seus amantes arrogantes, as autoridades corruptas, os empresários vigaristas e até os adolescentes perdidos por falta de bons exemplos.

“Russian Affairs” de Konstantin Bogomolov, com Sergey Burunov, Dariya Moroz, Mariya Fomina, Sofya Ernst, Sabina Akhmedova e Vladimir Mishukov.

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