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Rubrica de Cinema: Manoel de Oliveira para principiantes

Rubrica de Cinema: Manoel de Oliveira para principiantes

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Cultura 5 min. 08.04.2015

Rubrica de Cinema: Manoel de Oliveira para principiantes

POR RAÚL REIS - Gostar do cinema de Manoel de Oliveira não é obrigatório para poder reconhecer o valor artístico e a importância que o realizador teve para a projecção do cinema português no mundo.

POR RAÚL REIS - Gostar do cinema de Manoel de Oliveira não é obrigatório para poder reconhecer o valor artístico e a importância que o realizador teve para a projecção do cinema português no mundo.

Portugal é um pequeníssimo país em termos de produção e criação cinematográfica. Nos últimos anos foram rodados mais filmes no Luxemburgo do que no nosso país. Portugal tem obviamente mais criadores e mais grandes nomes do cinema que o Grão-Ducado mas, quando comparado com países europeus de dimensão equivalente, o cinema lusitano tem um ’ranking’ baixo e que foi conseguido apenas graças ao talento de um punhado de nomes.

Manoel de Oliveira é o mais brilhante desses realizadores e, infelizmente, talvez o único que um cinéfilo informado identifica com Portugal. Oliveira não tem igual na cena portuguesa e não tem um sucessor natural. No futebol, a desaparição de Oliveira seria o equivalente da reforma de Cristiano Ronaldo. Na música, a morte de Amália Rodrigues é comparável ao desaparecimento de Oliveira.

Artisticamente falando, a obra de Manoel de Oliveira é marcada por dois tipos de tendências: uma em que a teatralidade predomina e outra de pura cinematografia. Nos primeiros filmes que Oliveira realizou antes de 1964, curtas e longas-metragens, incluindo “Aniki-Bobó” (1942) e “A Caça” (1964), predomina um estilo cinematográfico puro, sem diálogos ou monólogos palavrosos.

“O Acto da Primavera” (1963) é o seu primeiro filme em que o teatro filmado se torna uma opção e um estilo. “O Passado e o Presente” (1972) será o segundo.

Durante anos, o teatro filmado, salvo raras excepções, será na obra de Manoel de Oliveira a opção dominante, que se extrema com “O Sapato de Cetim” (1985). Quando os seus filmes eram descritos como muito teatrais, com muitos diálogos, defendia-se: “Às vezes acusam-me de que os meus filmes são muito falados. Ora, falados são os filmes americanos, e falam sem dizer nada. Ao menos os meus filmes dizem alguma coisa, porque eu escolho textos ricos, bons, profundos, mais difíceis, naturalmente”.

O principal valor que Oliveira procura está no espaço, no movimento das personagens, na imagem e na teatralidade da cena, com muita insistência na palavra (são famosos alguns monólogos de dezenas de minutos).

O mestre português organiza o espaço das suas cenas como se de uma peça de teatro se tratasse; com muitos jogos de luz, criando diferentes espaços dentro do espaço a que o espectador tem acesso. Datam desta altura declarações do mestre que explicam claramente a qualquer leigo a sua abordagem: “A câmara não tem de se mover, quem se mexe são as personagens”.

Na passagem da década de oitenta para noventa, a tendência para a teatralidade atenua-se. O filme “Os Canibais” (1988) é marcado por monólogos e diálogos cantados como se estivéssemos na ópera. E pela porta da ópera, Oliveira vai saindo do teatro, que passa a surgir em doses equilibradas com o cinema, como é o caso de “A Divina Comédia” (1991).

Em 1982, Manoel de Oliveira fez um documentário autobiográfico de confissões e memórias. O cenário é a casa onde viveu desde 1940. Manoel de Oliveira exigiu que o filme só fosse exibido depois da sua morte. É este filme que todos os apaixonados pelo seu trabalho vão querer ver, apesar de, desde essa data, o mestre ter vivido mais quatro décadas.

O mestre Oliveira sempre disse que só fazia filmes pelo gozo de os fazer e foi-se mostrando indiferente às críticas mais negativas. Tanto em Portugal como no estrangeiro, as obras de Manoel de Oliveira sempre suscitaram reacções extremas.

Oliveira rodeou-se regularmente de um grupo limitado de actores preferidos, com quem manteve uma colaboração contínua. Os seus actores portugueses de eleição foram Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Isabel Ruth, Miguel Guilherme, Glória de Matos e, mais recentemente, o seu neto, Ricardo Trêpa.

Mas era também vasto o leque de actores estrangeiros que trabalhavam frequentemente com o cineasta português – prescindindo muitas vezes dos salários elevados que habitualmente auferem – para poderem estar nas produções de Manoel de Oliveira. Entre os nomes mais famosos estão John Malkovich, Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Irene Papas, Chiara Mastroianni, Lima Duarte ou Marisa Paredes.

Se quer deixar de ser um principiante no mundo de Oliveira e descobrir lentamente o trabalho deste mestre da Sétima Arte, experimente iniciar-se com alguns dos mais recentes trabalhos, tais como “Vou para Casa”, “ Viagem ao Princípio do Mundo”, “Singularidades de uma Rapariga Loura” ou “O Estranho Caso de Angélica”. Sente-se, abra bem os olhos, e aproveite para observar cada detalhe, porque Oliveira era um homem que apreciava pormenores, e prepare-se para belíssimas descobertas. 

Longas metragens de Manoel de Oliveira

1942 - Aniki-Bobó

1963 - Acto da Primavera

1971 - O Passado e o Presente

1974 - Benilde ou a Virgem Mãe

1979 - Amor de Perdição

1981 - Francisca

1985 - Le Soulier de Satin

1986 - O Meu Caso

1988 - Os Canibais

1990 - Non, ou a Vã Glória de Mandar

1991 - A Divina Comédia

1992 - O Dia do Desespero

1993 - Vale Abraão

1994 - A Caixa

1995 - O Convento

1996 - Party

1997 - Viagem ao Princípio do Mundo

1998 - Inquietude

1999 - A Carta

2000 - Palavra e Utopia

2001 - Porto da Minha Infância

2001 - Vou para Casa

2002 - O Princípio da Incerteza

2003 - Um Filme Falado

2004 - O Quinto Império - Ontem Como Hoje

2005 - Espelho Mágico

2006 - Belle Toujours

2007 - Cristóvão Colombo – O Enigma

2009 - Singularidades de uma Rapariga Loura

2010 - O Estranho Caso de Angélica

2012 - A Igreja do Diabo

2012 - O Gebo e a Sombra

Curtas e médias metragens

1931 - Douro, Faina Fluvial

1932 - Estátuas de Lisboa

1938 - Já se Fabricam Automóveis em Portugal

1938 - Miramar, Praia das Rosas

1941 - Famalicão (filme)

1956 - O Pintor e a Cidade

1964 - A Caça

1965 - As Pinturas do meu irmão Júlio (documentário)

1966 - O Pão (documentário)

1982 - Visita ou Memórias e Confissões

1983 - Lisboa Cultural

1983 - Nice - À propos de Jean Vigo

1985 - Simpósio Internacional de Escultura em Pedra - Porto

2007- Manoel de Oliveira - Rencontre unique

2010 - Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética

2011 - "Do Visível ao Invisível" em Mundo Invisível

2014 - O Velho do Restelo

Outros filmes

1937 - Os Últimos Temporais: Cheias do Tejo (documentário)

1958 - O Coração (documentário, 1958)

1964 - Villa Verdinho: Uma Aldeia Transmontana (documentário)

1987 - Mon Cas (1987)

1987 - A Propósito da Bandeira Nacional (1987)

2002 - Momento (2002)

2005 - Do Visível ao Invisível (2005)

2006 - O Improvável não é Impossível (2006)

2011 - O Conquistador conquistado (2011)

Raúl Reis


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