Rubrica de Cinema: Manoel de Oliveira para principiantes
POR RAÚL REIS - Gostar do cinema de Manoel de Oliveira não é obrigatório para poder reconhecer o valor artístico e a importância que o realizador teve para a projecção do cinema português no mundo.
Portugal é um pequeníssimo país em termos de produção e criação cinematográfica. Nos últimos anos foram rodados mais filmes no Luxemburgo do que no nosso país. Portugal tem obviamente mais criadores e mais grandes nomes do cinema que o Grão-Ducado mas, quando comparado com países europeus de dimensão equivalente, o cinema lusitano tem um ’ranking’ baixo e que foi conseguido apenas graças ao talento de um punhado de nomes.
Manoel de Oliveira é o mais brilhante desses realizadores e, infelizmente, talvez o único que um cinéfilo informado identifica com Portugal. Oliveira não tem igual na cena portuguesa e não tem um sucessor natural. No futebol, a desaparição de Oliveira seria o equivalente da reforma de Cristiano Ronaldo. Na música, a morte de Amália Rodrigues é comparável ao desaparecimento de Oliveira.
Artisticamente falando, a obra de Manoel de Oliveira é marcada por dois tipos de tendências: uma em que a teatralidade predomina e outra de pura cinematografia. Nos primeiros filmes que Oliveira realizou antes de 1964, curtas e longas-metragens, incluindo “Aniki-Bobó” (1942) e “A Caça” (1964), predomina um estilo cinematográfico puro, sem diálogos ou monólogos palavrosos.
“O Acto da Primavera” (1963) é o seu primeiro filme em que o teatro filmado se torna uma opção e um estilo. “O Passado e o Presente” (1972) será o segundo.
Durante anos, o teatro filmado, salvo raras excepções, será na obra de Manoel de Oliveira a opção dominante, que se extrema com “O Sapato de Cetim” (1985). Quando os seus filmes eram descritos como muito teatrais, com muitos diálogos, defendia-se: “Às vezes acusam-me de que os meus filmes são muito falados. Ora, falados são os filmes americanos, e falam sem dizer nada. Ao menos os meus filmes dizem alguma coisa, porque eu escolho textos ricos, bons, profundos, mais difíceis, naturalmente”.
O principal valor que Oliveira procura está no espaço, no movimento das personagens, na imagem e na teatralidade da cena, com muita insistência na palavra (são famosos alguns monólogos de dezenas de minutos).
O mestre português organiza o espaço das suas cenas como se de uma peça de teatro se tratasse; com muitos jogos de luz, criando diferentes espaços dentro do espaço a que o espectador tem acesso. Datam desta altura declarações do mestre que explicam claramente a qualquer leigo a sua abordagem: “A câmara não tem de se mover, quem se mexe são as personagens”.
Na passagem da década de oitenta para noventa, a tendência para a teatralidade atenua-se. O filme “Os Canibais” (1988) é marcado por monólogos e diálogos cantados como se estivéssemos na ópera. E pela porta da ópera, Oliveira vai saindo do teatro, que passa a surgir em doses equilibradas com o cinema, como é o caso de “A Divina Comédia” (1991).
Em 1982, Manoel de Oliveira fez um documentário autobiográfico de confissões e memórias. O cenário é a casa onde viveu desde 1940. Manoel de Oliveira exigiu que o filme só fosse exibido depois da sua morte. É este filme que todos os apaixonados pelo seu trabalho vão querer ver, apesar de, desde essa data, o mestre ter vivido mais quatro décadas.
O mestre Oliveira sempre disse que só fazia filmes pelo gozo de os fazer e foi-se mostrando indiferente às críticas mais negativas. Tanto em Portugal como no estrangeiro, as obras de Manoel de Oliveira sempre suscitaram reacções extremas.
Oliveira rodeou-se regularmente de um grupo limitado de actores preferidos, com quem manteve uma colaboração contínua. Os seus actores portugueses de eleição foram Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Isabel Ruth, Miguel Guilherme, Glória de Matos e, mais recentemente, o seu neto, Ricardo Trêpa.
Mas era também vasto o leque de actores estrangeiros que trabalhavam frequentemente com o cineasta português – prescindindo muitas vezes dos salários elevados que habitualmente auferem – para poderem estar nas produções de Manoel de Oliveira. Entre os nomes mais famosos estão John Malkovich, Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Irene Papas, Chiara Mastroianni, Lima Duarte ou Marisa Paredes.
Se quer deixar de ser um principiante no mundo de Oliveira e descobrir lentamente o trabalho deste mestre da Sétima Arte, experimente iniciar-se com alguns dos mais recentes trabalhos, tais como “Vou para Casa”, “ Viagem ao Princípio do Mundo”, “Singularidades de uma Rapariga Loura” ou “O Estranho Caso de Angélica”. Sente-se, abra bem os olhos, e aproveite para observar cada detalhe, porque Oliveira era um homem que apreciava pormenores, e prepare-se para belíssimas descobertas.
Longas metragens de Manoel de Oliveira
1942 - Aniki-Bobó
1963 - Acto da Primavera
1971 - O Passado e o Presente
1974 - Benilde ou a Virgem Mãe
1979 - Amor de Perdição
1981 - Francisca
1985 - Le Soulier de Satin
1986 - O Meu Caso
1988 - Os Canibais
1990 - Non, ou a Vã Glória de Mandar
1991 - A Divina Comédia
1992 - O Dia do Desespero
1993 - Vale Abraão
1994 - A Caixa
1995 - O Convento
1996 - Party
1997 - Viagem ao Princípio do Mundo
1998 - Inquietude
1999 - A Carta
2000 - Palavra e Utopia
2001 - Porto da Minha Infância
2001 - Vou para Casa
2002 - O Princípio da Incerteza
2003 - Um Filme Falado
2004 - O Quinto Império - Ontem Como Hoje
2005 - Espelho Mágico
2006 - Belle Toujours
2007 - Cristóvão Colombo – O Enigma
2009 - Singularidades de uma Rapariga Loura
2010 - O Estranho Caso de Angélica
2012 - A Igreja do Diabo
2012 - O Gebo e a Sombra
Curtas e médias metragens
1931 - Douro, Faina Fluvial
1932 - Estátuas de Lisboa
1938 - Já se Fabricam Automóveis em Portugal
1938 - Miramar, Praia das Rosas
1941 - Famalicão (filme)
1956 - O Pintor e a Cidade
1964 - A Caça
1965 - As Pinturas do meu irmão Júlio (documentário)
1966 - O Pão (documentário)
1982 - Visita ou Memórias e Confissões
1983 - Lisboa Cultural
1983 - Nice - À propos de Jean Vigo
1985 - Simpósio Internacional de Escultura em Pedra - Porto
2007- Manoel de Oliveira - Rencontre unique
2010 - Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética
2011 - "Do Visível ao Invisível" em Mundo Invisível
2014 - O Velho do Restelo
Outros filmes
1937 - Os Últimos Temporais: Cheias do Tejo (documentário)
1958 - O Coração (documentário, 1958)
1964 - Villa Verdinho: Uma Aldeia Transmontana (documentário)
1987 - Mon Cas (1987)
1987 - A Propósito da Bandeira Nacional (1987)
2002 - Momento (2002)
2005 - Do Visível ao Invisível (2005)
2006 - O Improvável não é Impossível (2006)
2011 - O Conquistador conquistado (2011)
Raúl Reis