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João Loureiro. Vive-se duas vezes
Cultura 5 min. 07.07.2021
Rockabilly português no Luxemburgo

João Loureiro. Vive-se duas vezes

Rockabilly português no Luxemburgo

João Loureiro. Vive-se duas vezes

Cultura 5 min. 07.07.2021
Rockabilly português no Luxemburgo

João Loureiro. Vive-se duas vezes

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Vivem-se tempos de revivalismo. Buscam-se tempos e estilos que fizeram e podem voltar a fazer e ter história. Há hoje toda uma tribo fiel ao rock’n roll, bikers americanos e countrymen e que pode ser encontrada numa garagem, no bairro de Gasperich, a "Old is Good", um espaço idealizado por João Loureiro, um rockabilly português no Luxemburgo.

“O penteado não está bem, está demasiado curto e não dá para pentear”, atira João Loureiro enquanto leva as mãos ao cabelo numa tentativa de pentear-se como o estilo exige: laca, cera e o cabelo puxado para traz com ligeira popa tipo à Elvis. Um estilo retro dos primórdios do rock’n roll. No resto é um verdadeiro rockabilly vestido com calças de ganga de corte direito com presilhas para suspensórios, sapatilhas a condizer e t-shirt da Rumble 59. Faltou o casaco de cabedal, mas os 22 graus não permitiam o outfit completo. Fosse mulher e apresentar-se-ia de calças ou calções de cintura subida, saia rodada ou vestido que marcasse a cintura a lembrar as pin-ups, como as peças que estão expostas no fundo da garagem que hoje se chama Old is Good e onde se pode encontrar vestuário, acessórios, artigos de decoração e utilitários e móveis com anos de história.

Há objetos espalhados e expostos sem grande regra. São artigos deitados fora e que já não servem aos antigos proprietários, como os bancos de madeira que acumulam anos e que precisam de um tratamento para ter nova vida. Ou o candeeiro de pé alto que deixou de estar na moda quando veio a revolução do mobiliário sueco. Ou dos serviços de louça e copos às cores, floridos e trabalhados até à exaustão e que deram lugar a peças de linhas modernas e simples. Há um aglomerado, ou emaranhado, de objetos expostos que captam a atenção. Discos e cassetes são às centenas. Todos têm espaço próprio. O chão está coberto por carpetes floridas verdes e vermelhas iguais às que pautam as memórias de infância. 

Há rádios que não se encontram hoje e que muitos de nós nunca chegou a conhecer sem ser por fotografia ou por estarem guardados e inutilizados num canto do sotão ou a servir de adereço decorativo por cima de um armário. Há isqueiros e mais isqueiros que tiveram anos de utilização e que já viajaram por muitas mãos. Terão acendidos muito cigarros também. E há uma moto à entrada. A mota é atual mas modificada. É a mota que lembra a América dos anos 50 e 70. Será substituída por uma Harley Davidson, a icónica mota dos amantes do retro e do rock. Pelo espaço sobrecarregado de objetos há algo que se passeia pelo vazio: blues. Podia-se ouvir rock’n roll, mas João Loureiro também gosta de blues.

Old is Good não é apenas ou mais uma loja vintage ou garage sale. É o estilo e imagem do próprio mentor. É um espaço para conviver e não apenas de compra e venda. Funciona mais como um ponto de encontro do que como loja. Funciona como um espaço revivalista e um espaço de lazer. São momentos nostálgicos vividos da forma crua, dura e verdadeira que 70 anos de diferença podem oferecer. Não é uma simples ida a uma feira ao estilo brocante, até porque cada objeto presente não chegou ali com interesse meramente comercial de João Loureiro. Chegou pelo interesse e trabalho do “aprendiz de empreendedor”, como se auto-denomina. Prova disso é que entre os visitantes tem vários antiquários profissionais que o procuram em busca das “novidades” antigas e que acabam por avaliar os artigos ali expostos muito acima dos praticados.

Para amantes do estilo e para meros curiosos e interessados, a garagem defende um conceito de reutilização, de diminuição de consumo, de reaproveitamento e de consciencialização das escolhas. Cada objeto pode voltar a ser usado, pode voltar a ter momentos de glória. Pode inclusive dar novas alegrias ao novo proprietário. Esse artigo iria ser desperdiçado e iria parar ao lixo. Ali tem nova oportunidade a um preço justo.

Da ideia ao projeto

Se não é apenas uma loja, o que é a Gold is Good? É uma Vintage Lovers Meetings com concertos e festas mas com outro propósito. Um propósito maior e nobre. João Loureiro é pai de Vítor, um jovem de 17 anos e autista. A luta é constante não só para a inserção do jovem como até da própria consciencialização da sociedade do que é o espectro do autismo. Quer transformar a Old is Good numa a.s.b.l, a Smart Choice. Mais que dar segundas oportunidades a artigos e objetos decorativos, João Loureiro sonha em dar oportunidades – possivelmente a primeira -, a pessoas que por vários motivos são excluídas da sociedade ou não são tão incluídas como deveriam. A ideia final é criar um mercado social diferente em que as pessoas se sintam inseridas, que se promova o reaproveitamento e que vá de encontro ao estilo do criador, o retro e vintage.

O rockabilly atrás da Vintage Store

Nasceu e cresceu no Aldoar, junto à Foz do Porto. A avó era uma colecionadora e recuperadora de tudo o que encontrava. João contou que quando queria alguma coisa, ia a casa da avó e encontrava tudo o que precisava. Aos 13 ou 14 anos e influenciado pelos movimentos dos bikers londrinos tinha já um cubículo onde passava o tempo a ouvir música com os amigos. Garantiu que “era uma barraco com muito estilo”. Os anos de adolescência e de juventude foram passados a ouvir Xutos e Pontapés, Pixies e Sex Pistols. Jerry Lee Lewis ou Glenn Miller chegariam mais tarde, com a idade e com o interesse pelos blues, jazz e countrymen. Frequentava discotecas como a Lá Lá Lá e a Nabuco no centro comercial Dallas e, não raras vezes, metia-se em confrontos com os outros grupos da cidade. Afinal cada um tinha o próprio estilo e copiavam os americanos e londrinos até nas desavenças. Viveu a cultura e hierarquia das casas de fado e da cabidela. Depois cresceu e foi pai.

Quis a vida que chegasse ao Luxemburgo onde trabalhou na construção civil. Diz que se sentia “como um peixe fora da água” e tinha de mudar. Começou a conhecer o movimento rockabilly, de pin-ups, de vintage e de blues e voltou a fascinar-se. Na sua cabeça sonhou e desenvolveu um projeto que juntasse a sua essência, eu e convicções. E aqui está ele, com um espaço seu, à sua medida, ao seu estilo, com a sua música, com um objetivo social e com um escritório onde uma parede tem flyers e bilhetes de noites de rythm and blues no Bflat, BB King, Buddhy Guy Blues Band, Clash ou Mão Morta na década de 90 em Portugal e Steve Val, Joe Satriani, ZZ Top ou os nossos Dead Combo e Vítor Bacalhau no Luxemburgo.

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