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Reinaldo Ferreira, Repórter X e Foujita, pintor búlgaro-nipónico-minhoto
Opinião Cultura 10 min. 01.07.2022
Literatura

Reinaldo Ferreira, Repórter X e Foujita, pintor búlgaro-nipónico-minhoto

Repórter X
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Reinaldo Ferreira, Repórter X e Foujita, pintor búlgaro-nipónico-minhoto

Repórter X
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Reinaldo Ferreira, Repórter X e Foujita, pintor búlgaro-nipónico-minhoto

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Na década de 1940, Reinaldo Ferreira apareceu colado ao novo regime de Salazar, tendo assinado duas peças de teatro, como Néor X, para dar vivas ao Senhor Professor e à Mocidade Portuguesa. Mas terá sido ele o autor de tais peças, pois morrera em 1935, ou o que estava em causa era, apenas, o aproveitamento do seu nome, já popularizado, para efeitos de propaganda do próprio regime?

Numa obra publicada há trinta anos, José-Augusto França traçou o quadro da cultura em Portugal na década de 1920 (Os Anos Vinte em Portugal. Estudo de factos sócio-culturais, Presença, 1992). Década de transição entre o fim da Primeira República e a Ditadura que abriu caminho ao Estado Novo. Anos de charneira entre as duas guerras mundiais, nos quais se assistiu à emergência dos fascismos.

Pelo menos, dois grandes instrumentos foram colocados a par, por aquele historiador da arte e da cultura. Por um lado, as revistas, que se multiplicaram ao longo dos anos Vinte: a Seara Nova (desde 1921), a Contemporânea (1922-1926) dirigida pelo arquitecto José Pacheco, a Athena (1924) de Fernando Pessoa, a Lusitânia (1924-1927) de D. Carolina Michaëlis, sem esquecer o suplemento literário de A Batalha (1923-1927), onde Ferreira de Castro pontificou.

Por outro lado, entre o leque das diferentes tendências literárias e de ideias (do regionalismo ruralista com que se reagia à vida urbana, à etnografia dos bairros populares lisboetas), estiveram várias colecções de novelas, que se multiplicaram ao longo da mesma década, seguindo uma moda espanhola. Papel activo, na organização de tais colecções, reveladoras de um esforço que tinha em vista a profissionalização dos escritores, deve ser atribuído a Reinaldo Ferreira, qualificado de “operoso Repórter X de histórias policiescas”, bem como a Mário Domingues, Assis Esperança e Ferreira de Castro. A lista de nomes apresentada por França é mais extensa, mas a selecção que aqui se apresenta tem propósitos de focagem num pequeno grupo que, sem ser exclusivo, manteve estreitas relações internas.

Uma descrição diferente, porventura menos optimista, do movimento editorial fora traçada, em 1929, por Reinaldo Ferreira. Para ele, durante os onze anos que se seguiram ao fim da Grande Guerra, escritores, editores e livreiros experimentaram um autêntico pânico. Parecia que “a humanidade perdera o gosto pela leitura, que a leitura passara à arqueologia como transporte a cavalo ou como iluminação a petróleo”. E o resultado era mais do que visível: grassava o desemprego dos intelectuais; a avaria da civilização cuja evolução era marcada pelo motor do pensamento e o seu combustível, o livro; registava-se, ainda, uma “crise de imaginação”, que a fadiga causara aos escritores; por último, havia que considerar o atraso técnico em que se encontravam os editores em relação a outros ramos do comércio “e da vida moderna em geral”.

O recurso a reclames luminosos, a artistas decoradores e a lançamentos de livros espalhafatosos, alguns deles com recurso a carros alegóricos, em Berlim, Paris, Londres e Moscovo introduziram novas técnicas de propaganda. Os resultados falavam por si: as tiragens que, na Alemanha de antes da Guerra, eram de cinquenta mil exemplares triplicaram, chegando mesmo a decuplicar. Em França, alguns escritores medíocres passaram a ter tiragens de cem mil exemplares. Quanto ao Portugal de antes da Guerra, se se chegava aos mil livros vendidos, com apenas Camilo, Albino Forjaz de Sampaio e Júlio Dantas a conseguirem viver da escrita, nos dois últimos anos, o interesse pela leitura aumentara exponencialmente, “sendo vulgar as tiragens de quatro mil exemplares”.

Afinal, o “operoso” Reinaldo Ferreira dobrou-se de historiador e sociólogo da leitura para traçar uma flutuação do mercado editorial que escapou a José-Augusto França. Claro que esta constatação, só por si, não o faz entrar no campo da grande literatura, saindo do subgénero depreciado do romance policial em que a sua obra tende a ser encerrada. É evidente que, a este respeito, se poderá sempre argumentar, recorrendo ao jogo de Fernando Pessoa, tão interessado nos romances policiários, que “um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais”.

Sem pôr em causa a importância do género policial praticado por Reinaldo Ferreira. Aliás, as suas histórias policiais não são só as do Repórter X, são também as do Repórter Z. Como sucedeu com O Crime da Pôça das Feiticeiras (1927), que termina no anúncio do Ilusionista Magazine de ilusionismo scientifico, escrita em francês e português.

Contudo, na obra de Reinaldo Ferreira existem muitas outras referências que sugerem a necessidade de rever apreciações anteriores acerca da sua obra e da sua personalidade. É que, em muitos aspectos, a sua criatividade parece estar mais próxima das vanguardas modernistas, mas numa versão que não se conformava com o elogio das ditaduras fascistas emergentes.

Antes de mais, a sua obra está pejada de referências à nova vida noturna, em curso de alteração em centros urbanos e de veraneio. No seu entender, tratava-se de um fenómeno transnacional, por ele apreciado em cidades como Barcelona e que teve as suas repercussões em Portugal, a começar por Lisboa. Cabarets, dancings, restaurants ou casinos apresentavam-se como novas instâncias de lazer, polos atractivos de novas práticas em moda, de estéticas de ruptura e de modelos comportamentais sem precedentes. O seu romance sobre A Virgem do Bristol Club (1930) ou o capítulo que dedica a uma madame que trouxe para Portugal o negócio da cocaína, nas Memórias de um ex-morfinómano (1933). Ao recensear A Cidade Maldita (1929) de Belo Redondo, Reinaldo Ferreira destacou também o seu modo de penetrar nos bas-fonds de Lisboa.

Mas foi numa notícia sobre o novo Casino de Espinho, à testa do qual se encontrava o grande empresário da noite Mário Ribeiro, que Reinaldo Ferreira fez o elogio do empreendedorismo moderno, virado para o futuro. Em ligação com o turismo, pois os turistas não suportavam o aborrecimento monótono, resultado da “falta de comodidades provincianas, por muitos encantos que tenha o país”. A que somava a experiência acumulada, no Bristol, que lhe permitira colocar Lisboa “ao nível de uma cidade do século XX”, tendo-se-lhe ficado a dever “a modernização dos costumes da vida lisboeta”. O Espinho-Praia, a par de outros projectos que se iriam tornar realidade, num futuro próximo, afigurava-se bem mais relevante e viável que a construção de uma fábrica de aeroplanos em que Mário Ribeiro chegara a pensar. Por todas estas razões, este último devia ser tido como um “homem moderno, organizador europeu”.  Ou, conforme escreveu, na dedicatória de A Virgem do Bristol Club: “o fumador do sonho da nova pombalização de uma Lisboa moderna e europeia”.

Frente a esse universo de referências do modernismo, em que Reinado Ferreira entrou, uma novela como Nome de Guerra (1938), que também decorre num clube como o Bristol, da autoria de Almada Negreiros, só pode ser considerada uma construção tardia. Provavelmente, determinada por um sentido moralizante por parte de um autor alinhado, de modo oportunista, com o Estado Novo. Também no que respeita à viagem pelas ditaduras fascistas, Reinaldo Ferreira escreveu páginas pioneiras, de explicação e denúncia, num livro miscelânico, intitulado Homens do dia e mulheres da noite: Lenine, Mussolini, Raquel Meller, Rasputine, Mata-Hari (1926).

Ou seja, um ano antes de a Viagem à volta das Ditaduras (1927), já Reinaldo Ferreira tinha procurado explicar o modo como operavam os regimes autoritários de Lenine a Mussolini ou Primo de Rivera, sem esquecer o que, pelos mesmos anos, sucedia na Alemanha, na Grécia ou na Guatemala. Assim se entendiam: o papel da imprensa clandestina na resistência (pp. 89-91); a acção necessária da polícia secreta (pp. 103-107); os modos de organização da repressão (pp. 108-109), a culminar com a existência de uma polícia da polícia (p. 110); a cultura difusa do medo colectivo (pp. 111-112); ou o facto de Lenine ter deixado morrer à fome um milhão de cidadãos (p. 205).

Quando, em 1927, morreu Enrique Gomez Carrillo, Reinaldo Ferreira traçou-lhe o retrato. Fora “o mais moderno cronista do idioma castelhano”. Nas suas idas a Paris, visitara amiúde (pelo menos em termos imaginários!), o autor de El Japon heroico y galante (1912).

Gomez Carrillo era um crioulo guatemalteco que se apaixonara aos quinze anos por uma dinamarquesa, cujo filho o passou a odiar. Mas esse amor durou pouco. Não mais que uma crónica de jornal. Depois, passou ao Chile, subiu à Venezuela percorreu o México e acabou por desembarcar em terceira classe em Barcelona, donde abalou para Paris, onde começou por rever provas duma enciclopédia em espanhol editada pelo Garnier. Foi amigo de Ruben Dario dos irmãos Goncourt e de Oscar Wilde. Nunca parou, graças a contratos principescos, viajou por todo o mundo. Casou em Buenos-Aires com uma princesa russa, divorciada de um diplomata. Raptou, em Nice, a filha de um milionário norte-americano, seguiu caminho com uma artista célebre, depois com uma geisha e, por último, com uma Cleópatra dos “boulevards”. No declínio da sua vida, deixou-se destruir por Raquel Meller, “catalã com rosto de andaluza”, e por Mata-Hari, que não passou de um joguete entre espias. Tudo isto, para concluir em face de uyma vida tão movimentada: “que bela crónica faria Gomez Carrillo com a sua própria morte!”.

As histórias sobre personagens que viajam, nervosamente e que constituem tipos híbridos ou crioulos vão-se multiplicando. Por um lado, pondo em causa as certezas das representações hierárquicas e fortemente discriminatórias do racismo. É que Reinaldo Ferreira, antigo condiscípulo de Mário Domingues no Colégio Francês, em Preto e Branco (1923, republicado em Amor sem amor, 1929), contou “a inverosímil história do negro Jolué”, que viajou pelas cidades cosmopolitas europeias. Uma novela publicada numa colecção, onde o mesmo Reinaldo Ferreira desempenhou papel de coordenador. Trata-se de uma colecção de “Novelas & Contos”, que foi inaugurada pela tradução com um prefácio de Fernando Pessoa, do conto de Edgar Poe, Baile das Chamas. A mesma colecção teve como principal ilustrador Martins Barata.  E não se esqueça que o mesmo Reinaldo Ferreira voltou, por diversas vezes, ao tema da crítica do racismo.

Por outro lado, a sua própria autobiografia, tantas vezes rescrita, está pejada de viagens imaginárias a países próximos e longínquos. O Japão surgia, então, como uma referência constante. Súbito, em 1929, na história sobre o pintor Foujita vê-se como um japonês se desnacionalizou. Longe de recordar os samurais com um arnês em escamas, rodeado das suaves geishas, acabou por se afirmar mais como um parisiense. Nesse processo de desnacionalização, a comparação surgiu como inevitável com esse filho de Tóquio que, em Santarém, cantava o fado, enquanto se embebedava com o vinho do Cartaxo. Também Foujita, que se tinha casado primeiro com uma polaca, e depois com uma búlgara, com quem se instalou no Minho, tivera um filho. Assim sendo, Foujita ou, pelo menos, o seu filho só podia ser um búlgaro-nipónico-minhoto...

Nesse jogo de identidades múltiplas e de grande instabilidade desnacionalizadora, que acompanha um movimento de profissionalização da escrita, será possível apreciar como é que o autor viajou pelo mundo e se deu em espectáculo, real ou imaginário. Na década de 1940, Reinaldo Ferreira apareceu colado ao novo regime de Salazar, tendo assinado duas peças de teatro, como Néor X, para dar vivas ao Senhor Professor e à Mocidade Portuguesa. Mas terá sido ele o autor de tais peças, pois morrera em 1935, ou o que estava em causa era, apenas, o aproveitamento do seu nome, já popularizado, para efeitos de propaganda do próprio regime?

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