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Regresso a um passado tumultuoso
Cultura 3 min. 14.10.2015 Do nosso arquivo online
Eng Nei Zäit

Regresso a um passado tumultuoso

Naquele tempo, no Luxemburgo, não chovia tanto como agora e podia fazer-se uma festa no jardim
Eng Nei Zäit

Regresso a um passado tumultuoso

Naquele tempo, no Luxemburgo, não chovia tanto como agora e podia fazer-se uma festa no jardim
Cultura 3 min. 14.10.2015 Do nosso arquivo online
Eng Nei Zäit

Regresso a um passado tumultuoso

O Luxemburgo (co)produz mais filmes do que Portugal. Com o seu meio milhão de habitantes, o Grão-Ducado pesa mais no mercado cinematográfico europeu do que o país à beira-mar plantado.

O Luxemburgo (co)produz mais filmes do que Portugal. Com o seu meio milhão de habitantes, o Grão-Ducado pesa mais no mercado cinematográfico europeu do que o país à beira-mar plantado.

A maioria dos filmes feitos Luxemburgo é co-produzida, quase sempre com os países vizinhos, mas há cinema puramente nacional tão relevante que, de vez em quando, bate recordes de bilheteira.

Christophe Wagner é o realizador luxemburguês que detém o recorde de público – 22 mil espectadores em quatro semanas – com “Doudege Wénkel”, por isso a expectativa relativamente ao seu novo trabalho era muito maior.

Depois de um policial negro, qual seria a via alternativa para Wagner e para os seus produtores? Um filme sobre a guerra mundial não estava nos planos, até que surgiu um projecto de argumento, assinado por Viviane Thill, baseado em factos reais que ocorreram em 1946.

Foi o facto de a acção se desenrolar no pós-guerra que atraiu o realizador, que considera que este foi um “momento fundador para o Luxemburgo” de hoje. Surge assim a longa metragem “Eng nei Zäit”.

A história parte de um “fait divers”: cinco cadáveres são encontrados numa quinta de Ettelbrück. O protagonista do filme é um guarda, Jules Ternes (Luc Schiltz), que passou a guerra a tentar evitar ser mobilizado para combater ao lado dos alemães.

Jules vai trabalhar na investigação do crime de Ettelbruck e descobrir muitos dos mistérios que rodearam a ocupação alemã do Grão-Ducado. O país, várias vezes no coração da guerra, está destruído, e a vida que Jules conheceu antes do conflito não poderá voltar. Na sua própria família e no seu círculo de amigos tudo mudou.

O filme de Wagner permite-se algumas liberdades históricas e muitas interpretações sobre o que realmente aconteceu para poder revelar as tensões que dominavam a sociedade luxemburguesa da época. Se para a História ficou que o assassino de Ettelbruck foi um vagabundo, “Eng nei Zäit” levanta suspeitas constantes sobre todos. O pós-guerra é um período terrível em que ninguém confia em ninguém.

O filme questiona muitas das certezas que os luxemburgueses foram criando ao longo dos tempos. Histórias familiares, relatos que foram passando de boca em boca, dramas sociais, tudo pode ser questionado. Será que a versão que ficou para a História é verdadeira?

O filme de Christophe Wagner obriga a colocar muitas questões. E, segundo “Eng nei Zäit”, uma coisa é certa: os luxemburgueses não foram todos resistentes. Apesar de a imagem que se perpetuou ter sido a dos luxemburgueses opositores aos invasores alemães, esta obra deixa claro que essa ideia se propagou porque era politicamente correcta, mas que nem todos os luxemburgueses “estiveram do lado dos bons”.

A importância deste filme é grande para o repensar da identidade do país e, talvez por isso, o actual primeiro-ministro tenha decidido visitar as filmagens. No final de 2014, Xavier Bettel foi até au Fonds-de-Gras conversar com o realizador e apoiar o projecto que, além de interessante politica e socialmente, mobilizou centenas de figurantes numa das maiores produções luxemburguesas de sempre.

Obviamente, “Eng nei Zäit” conta com alguns dos melhores actores do país, que souberam integrar-se e comportar-se como na época em que o filme se desenrola. Os protagonistas demonstram prazer naquilo que estão a fazer e essa energia transmite-se ao público. Extremamente credível, Luc Schiltz é um homem inquieto, cheio de dúvidas, tal como os tempos que o Luxemburgo viveu em 1946 e que agora “Eng nei Zäit” nos faz reviver.

Raúl Reis

“Eng Nei Zäit”, de Christophe Wagner, com Luc Schiltz, Eugénie Anselin, Raoul Schlechter, Jules Werner, Jean-Paul Raths, Fabienne Hollwege, Christian Kmiotek, André Jung, Elsa Rauchs e Jean-Paul Maes.


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