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Red Bridge Project. A obra de William Kentridge chega no final do ano e promete deixar a marca na capital
Cultura 7 min. 26.06.2020

Red Bridge Project. A obra de William Kentridge chega no final do ano e promete deixar a marca na capital

William Kentridge

Red Bridge Project. A obra de William Kentridge chega no final do ano e promete deixar a marca na capital

William Kentridge
Foto: Paula Court
Cultura 7 min. 26.06.2020

Red Bridge Project. A obra de William Kentridge chega no final do ano e promete deixar a marca na capital

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O evento multidisciplinar e que envolve as três principais instituições culturais da cidade, é um dos pontos altos da segunda temporada da Philharmonie, que celebra esta sexta-feira, 26 de junho, o seu 15º. aniversário.

Foi há 15 anos que a Philharmonie, sala de concertos de referência do Luxemburgo e não só, abriu pela primeira vez as suas portas. E nem a pandemia impediu que se assinalasse hoje, 26 de junho, essa data festiva.

Para celebrar o 15º. aniversário, a Orquestra Filarmónica do Luxemburgo (OFL), dirigida por Gustavo Gimeno, realizou, na quinta-feira à noite, um concerto ao qual assistiram algumas dezenas de pessoas, entre as quais a ministra da Cultura Sam Tanson e o director geral da Philharmonie, Stephan Gehmacher. 

A programação prossegue na próxima semana, antes da interrupção de verão, com a série "De Volta à Vida", que inclui o concerto, a 2 de Julho, da violinista Alena Baeva e do pianista Vadym Kholodenko, que irão apresentar peças de Schubert e Beethoven. No dia 9, a OFL e o maestro Gustavo Gimeno voltam a apresentar-se no salão principal e no dia 16 de Julho será a vez de Francesco Tristano subir ao palco para um concerto de piano e electrónica.

Concerto do 15º. aniversário da Philharmonie
Concerto do 15º. aniversário da Philharmonie
Alfonso Salgueiro


Depois do verão, a Philharmonie regressa com uma programação forte, onde se inclui o Festival Atlântico e a Red Bridge Project. O primeiro realiza-se em outubro e o segundo em novembro.


Festival Atlântico regressa em outubro com Camané, Dead Combo e Gilberto Gil no cartaz
De volta à atividade, depois da paragem forçada devido ao confinamento, a Philharmonie apresentou esta quinta-feira o programa da segunda temporada, que em 2021 traz o espetáculo de homenagem de Mariza a Amália.

O Red Bridge Project, que envolve a Philharmonie, Mudam e Grand Théâtre -, arranca com duas performances multimédia do artista sul-africano, no espaço, por tradição, dedicado a concertos.

A segunda edição do evento voltar a criar pontes entre as três instituições culturais luxemburguesas, através da abordagem das várias facetas de um único artista. 

Desta vez a escolha recaiu sobre William Kentridge, que sucede à coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker, convidada da edição anterior.

É na Philharmonie que está previsto arrancar a programação do Red Bridge Project 2020/21, com as primeiras performances, 'Telegrams from the Nose (2008)' e 'Ursonate' - ambas em novembro. Esta última é uma reinterpretação da poesia sonora de 1932, de Kurt Schwitters, que Kentridge transforma em performance multimédia e na qual o próprio recita o texto, sendo secundado por um vídeo com imagens animadas dos seus desenhos e acompanhado pelo bailarino Peter Kuit e pela música improvisada da soprano Ariadne Greif, do violinista Igor Semenoff e do guitarrista Tom Pauwels. 

'Ursonate' traz uma satisfação acrescida a Lydia Rilling, diretora da programação de música contemporânea da Philharmonie e do festival 'Rainy Days', que abarca também estas duas produções incluídas no RBP. "Não só pelo facto de ele mostrar as suas produções, mas de vir atuar como performer. As suas performances e presença em palco são muito impressionantes", antecipa, em declarações ao Contacto.

Tal como na primeira edição, o programa deste projeto foi criado em conjunto pelas três instituições, que escolheram um artista com uma obra relevante e multidisciplinar que permitisse a abordagem das suas diferentes facetas por cada uma delas. Uma personalidade cujo trabalho estivesse profundamente alicerçado nas vertentes de performance, teatro, dança, artes visuais e plásticas, filmografia e música. A partir daí, como explica Lydia Rilling, as instituições escolheram uma personalidade e lançaram-lhe o convite, que este ano foi dirigido ao reputado artista sul-africano. 

Desenhada por todas as partes envolvidas no processo, a programação que é inicialmente pensada para um determinado espaço pode acabar por se revelar mais adequada a outro, menos comum para o efeito, criando uma contaminação positiva entre as vocações artísticas de cada estrutura. "Quando William Kentridge esteve cá para a conferência de imprensa [de apresentação ao projecto, no início do ano] e viu os diferentes espaços que tínhamos, ele disse: 'Bom, nós tinhamos planeado esta performance aqui, mas na realidade ficaria melhor no outro'", recorda a programadora. 

Lydia Rilling, programadora do festival 'Rainy Days', onde se inserem as performances do Red Bridge Project que a Philharmonie acolhe este ano.
Lydia Rilling, programadora do festival 'Rainy Days', onde se inserem as performances do Red Bridge Project que a Philharmonie acolhe este ano.
Foto: Chris Karaba


Essa acaba por ser, de resto, uma das essências do próprio projeto, a "colaboração entre a Philharmonie, o Mudam e o Grand Théâtre", salienta Lydia Rilling. "O que também é especial para nós é que o Red Bridge Project oferece-nos a oportunidade de realizar projetos que de outra forma não teríamos possibilidade de fazer." Isto, porque o projeto permite às estruturas acolherem iniciativas diferentes daquelas que costumam programar, já que, regra geral, as três instituições mantêm uma certa divisão do seu trabalho e da sua área de intervenção artística. 

"[Na Philharmonie], normalmente, não apresentamos, por exemplo, produções de dança, tal como o Grand Théâtre não produz concertos. E no Red Bridge tudo é possível, todas as fronteiras entre as instituições e entre as artes tornam-se completamente flexíveis". Além disso, acrescenta, "a ideia principal também é oferecer ao público a possibilidade de descobrir facetas muito diferentes de um artista e William Kentridge é um artista que tem tantas facetas, enquanto artista visual: pelos seus filmes, desenhos, esculturas, performances, teatro e produções de ópera... Isto revela um pouco do que é o processo, que é muito especial e que penso que acabará muito refletido no programa final", sublinha.

William Kentridge
William Kentridge
Foto: Paula Court


A outra performance acolhida pela Philharmonie, no âmbito do Red Bridge Project e em parceria com Les Théâtres de la Ville de Luxembourg, é 'Telegrams from the Nose'. Resultado do trabalho conjunto de William Kentridge com o compositor francês François Sarhan, esta criação apresenta uma desconstrução dos mitos soviéticos, retratando a Rússia no meio de uma grande revolução artística e social e, ao mesmo tempo, no início do regime de Estaline. 

Em 12 "telegramas", baseados em textos de poetas, incluindo do autor russo Daniil Kharms, perseguido pelo estalinismo, Kentridge e Sarhan, juntamente com o ensemble Ictus e Georges-Elie Octors, constroem uma performance multimédia de música, vídeo e instalação.

'Telegrams from The Nose' ilustra uma das áreas que Lydia Rilling aponta como mais representativas e transversais à obra do artista sul-africano. "A música representa um papel central na sua arte, independentemente da produção", refere, aludindo às várias vezes em que Kentridge trabalhou com compositores.

Planeada com a antecedência de mais de um ano, a segunda edição do Red Bridge Project está prevista prolongar-se até junho de 2021, se a evolução da pandemia assim o permitir. Com a gestão de todas as atividades a ser feita numa espécie de navegação à vista, também a próxima edição do projeto já começa a ser esboçada, enquanto as instituições ultimam os preparativos para apresentarem a atual, que deverá repetir o sucesso da anterior e consolidar esta iniciativa conjunta da Philharmonie, do Mudam e do Grand Théâthre. 

"Uma coisa que é bastante diferente com [o projecto com] William Kentridge é que haverá uma grande exposição individual no Mudam, que decorrerá de fevereiro a junho". Ou seja, "estará representado quase seis meses", através dessa mostra, e "isso dar-lhe-á uma presença diferente na cidade". "Não há muitos artistas cujo trabalho encaixe tão perfeitamente bem na ideia do Red Bridge", remata Lydia Rilling.

Uma exposição e uma ópera entre os outros destaques da programação

William Kentridge criou uma obra que abrange diferentes disciplinas artísticas, desde o desenho e a escultura até ao filme de animação, passando pela performance, teatro e ópera. 

É esta prática artística expansiva que inspira a nova exposição concebida para o Mudam Luxembourg - Musée d'Art Moderne Grand-Duc Jean. Patente de fevereiro a junho, 'William Kentridge. Image, Parole, Son' apresenta novos e recentes trabalhos do artista sul-africano, com destaque para a meditação contínua que Kentridge faz sobre a construção de sentido através da composição visual, da linguagem e do som.

A exposição é composta por uma sucessão de obras que estão física e conceptualmente ligadas às representações e à ópera que será encenada na Philharmonie e no Grand Théâtre, 'Waiting for the Sibyl' (2019), originalmente criado para o Teatro dell'Opera em Roma. 

A primeira galeria é dedicada a desenhos e esculturas relacionados com o trabalho de Kentridge para o palco. 

No grande hall do Mudam estará também patente a obra 'Almost Don’t Tremble' (2019), uma instalação sonora composta por quatro megafones gigantes que emitem, em sequência, composições musicais encomendadas a cinco compositores e músicos da África do Sul. Descrita como "uma escultura invisível" que enche o espaço de canções, a obra foi apresentada pela primeira vez na exposição retrospectiva de Kentridge, na Cidade do Cabo, em 2019. 

Serão ainda exibidas obras escultóricas que representam os temas recorrentes no trabalho do artista e estão previstos vários eventos especiais para acompanhar a exposição.

Multidisciplinar é também a ópera 'Waiting for the Sibyl', que fechará o programa, no Grand Théâtre, em junho de 2021. Com nove bailarinos e cantores, esta criação de Kentridge junta projeções em ecrãs gigantes com a actuação, música gravada e sombras lançadas por artistas ao vivo, num cenário pintado à mão.  

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