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Quem sabe sabe
Cultura 3 min. 05.12.2019

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Cultura 3 min. 05.12.2019

Quem sabe sabe

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Conheça o novo filme de Martin Scorsese “The Irishman” já disponivel na Plataforma NETFLIX.

 Não há muitos cineastas que convençam um espetador a sentar-se durante três horas e meia para ver um filme. Pelos vistos, Martin Scorsese é um desses realizadores capaz de levar cinéfilos de todo o mundo a fazerem fila para irem ao cinema ver uma das projeções extremamente exclusivas de “The Irishman”, filme produzido para ser visto através da plataforma Netflix.

Muitas vezes estas montanhas dão origem a um rato, mas no caso de “The Irishman”, a antecipação, o “buzz” e a curiosidade tinham razão de existir: a nova obra de Scorsese é um dos seus melhores filmes e a súmula de muitas das suas incursões no mundo da máfia.

Mas antes de vendermos a pele do urso, comecemos por dizer uma coisa muito importante: três horas e meias não é nada. Quantas vezes já viu episódio atrás de episódio da sua série preferida? “The Irishman” é um filme que dura menos do que uma temporada de qualquer série e até há na internet conselhos sobre onde deve parar o filme para ir jantar ou continuar no dia seguinte. Mas fica desde já um aviso: é extremamente viciante e será difícil interrompê-lo.

O realizador optou por colocar a personagem de Robert De Niro como narrador e protagonista. Frank Sheeran é um camionista que vai subir na vida muito rapidamente porque encontra “as pessoas certas”, como alguém diz em certo ponto. Da vida de soldado ao trabalho de guarda-costas do líder sindical Jimmy Hoffa, Sheeran atravessa momentos conturbados da História dos Estados Unidos. “The Irishman” é sobretudo a oportunidade de redescobrir a história de Hoffa e de explicar o mistério da morte do mítico sindicalista norte-americano.

O argumento de Steven Zaillan, que se inspira do livro “I Heard You Paint Houses” de Charles Brandt, assegura um brilhante desenvolvimento de personagens, sobretudo do protagonista. Mas o filme de Scorsese é muito mais do que isso: as histórias sucedem-se, umas dentro das outras, como uma matriosca.

A narração torna-se muito complexa mas, apesar da extensão do filme, nunca nos perdemos porque a construção é feita com inteligência e, quando é necessário, o narrador recorda quem é quem, com momentos de imagens paradas para podermos observar bem a personagem.

Se há violência? Sim, e muita. “The Irishman” é um filme sobre gangsters e a violência é mostrada com a mesma naturalidade como estes homens a vêem.

Pode considerar-se que esta obra tem três protagonistas: Frank Sheeran (Robert De Niro), Russell Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino). De Niro passa por todos os registos (e idades) e resiste à maquilhagem, às próteses e às intervenções informáticas tanto para o rejuvenescer como para o envelhecer. Joe Pesci é um extraordinário chefe mafioso com todas as nuances e clichés que se exigem. Por fim, mas não por último, Al Pacino interpreta um Hoffa calmo, simpático, furioso, desesperado, e muitas vezes faz isto tudo na mesma cena.

Há quem diga que esta obra excelente de Martin Scorsese faz lembrar “The Sopranos”. Talvez. Estes mafiosos têm uma vida quase normal, com famílias e problemas do dia-a-dia, como era o caso do bando de Tony Soprano. Tal como na série as personagens andam sempre com dinheiro a rodos nos bolsos, mas além deste e outros elementos “anormais”, o que conta e se destaca em “The Irishman” são os momentos mais correntes e banais tais como as festas em família, os piqueniques ou as viagens de automóvel. Scorsese quer deixar bem claro quem são estes homens no quotidiano, um quotidiano igual ao nosso que, por acaso, ameaçam e matam gente. Mas só se for mesmo inevitável…

“The Irishman” de Martin Scorsese, com Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Harvey Keitel, Anna Paquin, Ray Romano e Jesse Plemons.