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Quando o tango é coração, vertigem e acrobacia

Quando o tango é coração, vertigem e acrobacia

Foto: Sibila Lind
Cultura 12 4 min. 25.01.2019

Quando o tango é coração, vertigem e acrobacia

Paulo Pereira
Paulo Pereira
German Cornejo e Gisela Galeassi, acompanhados por outros cinco pares e por quatro músicos notáveis, deslumbraram o Grand Théâtre esta quinta e sexta-feiras em quase duas horas de cortar a respiração. O Contacto foi aos ensaios conversar com Cornejo, bailarino e coreógrafo que sente o tango como deve ser: com o coração.

Que o tango seja sensualidade, paixão, elegância e graciosidade não é surpresa. Mas, com Tango Fire, o show em que German Cornejo e Gisela Galeassi estão acompanhados em palco por cinco pares excecionais e quatro músicos notáveis, quase não há tempo para respirar. Há momentos alucinantes em que a dúvida se instala: são bailarinos que fazem acrobacias ou acrobatas que dançam? "Somos um pouco das duas coisas", admite Cornejo ao Contacto pouco antes do ensaio. E também de atletas de alta competição, porque o nível de preparação física é muito elevado. "Treinamos muito, seis horas por dia, com uma importante componente física e, claro, também de dança. Mas todos dançamos desde muito pequenos, temos formação clássica, contemporânea e até de danças tradicionais gaúchas da Argentina e isso é muito importante, tal como as exigências da disciplina e da memória e do trabalho em equipa", explica.

A dança decorre com os ritmos sempre certos, nenhum passo está a mais ou a menos, os corpos parecem não ter limites para constantes desafios a si próprios, o perfecionismo dos multipremiados Cornejo (que dança e é também responsável pela maioria das coreografias) e Galeassi é um deslumbramento para quem assiste. Tradição e modernidade desfilam de mãos dadas ao longo de quase duas horas com uma pequena pausa pelo meio. A companhia pode estar toda a atuar, serem só os homens ou apenas as mulheres que dançam ou haver casos em que apenas um par incendeia a noite com a cumplicidade de Cornejo, uma vez que este liberta cada dupla para coreografias próprias nos respetivos números.

"A improvisação está na base do tango e o trabalho dos pares é fundamental", diz German Cornejo que tem estudado tudo esta dança desde os 10 anos, aprendeu os segredos com algumas lendas (Osvaldo Berlingieri e Nélida Rodríguez, por exemplo) e percorre o mundo há 14 anos com mais ou menos a mesma estrutura de show, salas esgotadas e aplausos estrondosos. "Tive pares de grande qualidade ao longo dos anos, mas a Gisela é super-completa, quer no plano artístico, quer em termos humanos", elogia sobre o seu par desde 2011. "Temos dinâmicas corporais semelhantes e tipos de respostas muito próximos, portanto, o equilíbrio é perfeito. E o tango, para ser entendido, deve sentir-se com o coração, criando-se uma comunicação constante em que cada corpo compreende e responde ao outro em harmonia. E homem e mulher têm a mesma importância, ninguém é discriminado".

Os latinos e o entusiasmo em Londres

Ao longo do tempo, também há imprevistos e percalços como reconhece o coreógrafo e bailarino com sorrisos. "Sim, já nos aconteceram muitas coisas inesperadas: perder um sapato, haver um vestido que se rasga ou que fica preso no par", exemplifica.

Por outro lado, passando tanto tempo distante da Argentina, multiplicam-se os momentos em que se sente saudades de alguém ou de alguma coisa. "Sim, sentimos falta da família, dos amigos, da nossa casa, das nossas coisas, da nossa cultura que se caracteriza por uma grande proximidade entre as pessoas", confessa. Aos 32 anos (Gisela tem 35), sorri à pergunta sobre quanto tempo espera continuar a dançar. Apetece-lhe responder para sempre e contorna a vontade com um sentido próximo: "No tango a vida útil pode ser prolongada, porque o estilo pode ser adaptado a cada um, é uma dança sem idades, não discrimina, altera-se é a complexidade".

Com Matias Feigin (o diretor musical que toca piano), Clemente Carrascal (concertina), Facundo Benavidez (contrabaixo) e Gemma Scalia (violino), o Tango Fuego Quartet é o fundo musical perfeito que oscila entre Gardel e Piazzolla, Mores/Troilo, Arolas ou Matos Rodríguez, entre muitos outros. "Tal como entre os bailarinos, houve mudanças ao longo dos anos porque alguns pares optam, por vezes, por passar mais tempo com as famílias, Nos primeiros anos, o quarteto era outro, mas, quando mudámos, também se conseguiu um nível de interpretação excecional, porque não se trata só de formação - é preciso dar este sabor a Buenos Aires que tem o show, no qual procuramos mostrar a evolução do género ao longo do tempo".

Quanto a públicos que tenham compreendido melhor o tango, Cornejo reconhece: "As pessoas gostam sempre muito de toda a nossa entrega. Os latinos, em Portugal, Espanha ou Itália, são muito mais expressivos a transmitir aquilo que sentem ao ver-nos, mas Londres, apesar de podermos pensar que as pessoas são mais distantes, será a sétima presença lá e já toda a gente está entusiasmada por saber que lá vamos. No fundo, é sempre como se fosse a primeira vez".

Sebastian Alvarez e Victoria Saudelli; Marcos Esteban Roberts e Louise Junqueira; Malucelli Ezequiel López e Camila Alegre; Julio José Seffino e Carla Dominguez; Esteban Simon e Marilu Leopardi - estes são os cinco pares que levitam ao lado de Cornejo e Galeassi, emocionando os espectadores num crescendo de maravilhas. E, quando o ambiente é já de ovação, uma das bailarinas ainda convida alguém da assistência para ensaiar uns passitos. A rendição é completa. Como deve ser no tango.

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