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Quando morrer quero ir para a “cloud”
Cultura 3 min. 04.06.2020

Quando morrer quero ir para a “cloud”

Quando morrer quero ir para a “cloud”

Foto: Amazon Prime Video
Cultura 3 min. 04.06.2020

Quando morrer quero ir para a “cloud”

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Quer se acredite ou não na vida depois da morte, todos nós gostamos de imaginar que depois da morte há qualquer coisa e que morrer não significa o fim.

A série da Amazon, “Upload” é exatamente sobre isso: o que vamos poder fazer depois de morrer. A ação decorre num futuro próximo, no qual a crença religiosa da vida depois da morte foi substituída por uma solução técnica. A informática está tão avançada que qualquer ser humano – desde que tenha dinheiro para pagar a conta – pode decidir, ainda em vida, onde quer passar a eternidade, depois de morrer.

Uma série de empresas propõem esse serviço, mas a preços proibitivos para a maioria das pessoas. Em que consiste a vida depois da morte? Os clientes podem escolher o “sítio” para onde vão, de um luxuoso hotel com todo o conforto a palhotas numa espécie de Maldivas. Tudo é possível no além desde que o falecido tenha um contrato e transfira para os servidores da empresa a sua “alma” na altura da morte.

A vida depois da morte tem vários níveis: há quem possa pagar o “resort” de luxo, mas os menos abastados optam por um contrato de 2 gigas de dados que não permite nem sequer ter uma “vida” normal. Ou seja, as desigualdades da vida terrena continuam depois do óbito. E como a religião perde terreno no futuro que nos propõe a série “Upload”, a maioria das pessoas não acreditam numa vida depois da morte, nem no Paraíso nem no Inferno, e por isso investem em serem “salvaguardadas” para que a sua alma continue viva, algures num servidor informático.

A vida mesmo nos melhores “resorts” não deixa de ter as suas dificuldades. Lakeview, onde se encontra o protagonista, tem imensas opções pagas que funcionam como as compras que hoje fazemos nos nossos telemóveis ao utilizar uma app.

As contrariedades são, por exemplo, que o pequeno-almoço no “resort” é até às 10 da manhã e nem mais um segundo. A comida desaparece às 10:01 e a única maneira de comer qualquer coisa é procurando os “bugs” do sistema que, curiosamente, são muitos e permitam aos mais espertalhões obter condições e vantagens que não estão incluídas no pacote que pagaram.

A ideia é ótima e o criador Greg Daniels (“Simpsons”, “King of the Hill”, etc.) acrescenta-lhe bastante humor, mas para uma série é necessário sempre uma história e é aqui que “Upload” começa a coxear...

Robin Amell, o ator principal, constitui outro dos problemas porque lhe falta o carisma e a qualidade para interpretar Nathan, um jovem empresário sem cheta que consegue ir parar ao prestigiado Lakeview depois de morrer apenas por causa da fortuna da família da sua namorada Ingrid (Allegra Edwards).

Quando Nathan chega ao “além” está perdido, baralhado, e para orientação conta com a sua gestora de conta (Andy Allo), mas que no mundo depois da morte é, naturalmente, mencionada como “anjo”. Nora vai muito além das suas tarefas de apoio, apaixonando-se por Nathan.

Para enriquecer o argumento, os criadores de “Upload” acrescentam uma misteriosa trama de espionagem industrial e um crime. Será que Nathan morreu num acidente, como parece ter sido o caso, ou será que o seu carro foi sabotado? Este elemento vai ocupar uma boa parte da série, deixando para segundo plano todas as situações cómicas que poderiam ter sido criadas neste mundo estranho e surpreendente onde vive o protagonista.

Greg Daniels optou por uma fórmula mais completa, uma mistura de comédia romântica com thriller, polvilhada com ideias de (des)igualdade tecnológica. Os trinta minutos de cada um dos dez episódios passam dificilmente a partir do terceiro ou quarto. Mas a nossa vantagem relativamente ao protagonista de “Upload” é que podemos desligar-nos da “cloud” e voltar à terra sem dificuldades.

“Upload” de Greg Daniels, com Robbie Amell, Andy Allo, Zainab Johnson, Kevin Bigley e Allegra

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