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Quando cantar o fado não deixa morrer o nosso bairro
Cultura 2 1 6 min. 23.09.2021
Documentário

Quando cantar o fado não deixa morrer o nosso bairro

 Judit Kalmár, e Céline Coste Carlisle, autoras do filme "Silêncio – Vozes de Lisboa" com a fadista de Alfama, Ivone Dias.
Documentário

Quando cantar o fado não deixa morrer o nosso bairro

Judit Kalmár, e Céline Coste Carlisle, autoras do filme "Silêncio – Vozes de Lisboa" com a fadista de Alfama, Ivone Dias.
Foto: Diana Tinoco
Cultura 2 1 6 min. 23.09.2021
Documentário

Quando cantar o fado não deixa morrer o nosso bairro

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Dirigido por duas mulheres, uma suíça, a viver em Portugal há 20 anos, e uma húngara, o documentário “Silêncio-Vozes de Lisboa” parte do fado para mostrar a gentrificação do bairro tradicional de Alfama. Estreia esta quinta-feira nos cinemas portugueses.

Ivone Dias, 87 anos acabados de fazer, regressa a Alfama como se nunca tivesse deixado o bairro. Nele, onde já não mora há cinco anos, estão ainda os amigos que conhece desde sempre e é ali que diz que quer morrer. Foi também nas suas ruas que nasceu o seu amor pelo fado, que canta desde adolescente e que a faz voltar para atuar numa casa de fados dessa zona típica de Lisboa, cada vez mais esvaziada de residentes e ocupada pelos turistas.

Este bairro tradicional da cidade é o cenário do documentário “Silêncio-Vozes de Lisboa”, idealizado e narrado por Céline Coste Carlisle, uma suíça a viver em Portugal há mais de 20 anos. Ivone Dias foi uma das primeiras pessoas que conheceu quando chegou ao país, há 22 anos. O encontro aconteceu no Esquina de Alfama, onde a anciã portuguesa atua. “A primeira vez que a ouvi cantar comecei a chorar”, diz-nos no mesmo português com sotaque, com que narra todo o filme. São os passos de Céline, uma estrangeira que já é uma “local” que, no documentário, acompanham os de Ivone, pelas ruas e escadarias de Alfama. À medida que a veterana fadista vai percorrendo e desfiando as memórias do seu bairro e de como começou a cantar, vai também cumprimentando os poucos vizinhos que ainda sobram.

As pessoas que cantavam nas casas de fado a que eu ia, de dia, eram eletricistas ou contabilistas. E foi essa paixão por uma arte, de pessoas que não viviam disso, mas que o faziam por amor, que quis mostrar mais", diz Céline Coste Carlisle.

Dentro e fora do ecrã, a relação de Céline e Ivone é familiar, como se fossem neta e avó. "Tinha muito afeto pelas minhas avós e com a Ivone houve logo esse tipo de afeto, não sei explicar. É uma pessoa muito querida, muito genuína", diz a artista visual suíça. Essa proximidade e o facto de, 20 anos depois, também ela poder considerar-se uma lisboeta levaram-na a ser simultaneamente narrador e personagem do filme, ao contrário do inicialmente planeado. "No início era para ter feito a narração em inglês, porque era mais para um público de fora de Portugal, depois percebi que não dava. Ou fazia em português ou em francês, que é a minha língua materna. Foi um trabalho orgânico", explica.

Olhar o fado como elo de ligação de comunidades que corre o risco de desaparecer no processo de gentrificação da cidade foi o objetivo desta produção independente luso-húngara, que espera ajudar a criar uma consciência global para a preservação dos patrimónios vivos, neste caso a partir da relação das pessoas comuns de Lisboa com o fado.

“O ponto de partida do filme é a Ivone. Uma senhora que sempre quis cantar fado, que nem sempre o conseguiu fazer”, diz Céline, que quis enaltecer esse lado amador do fado. “As pessoas que cantavam nas casas de fado a que eu ia, de dia, eram eletricistas ou contabilistas. E foi essa paixão por uma arte, de pessoas que não viviam disso, mas que o faziam por amor, que quis mostrar mais.”

Pelo menos duas vezes por semana, Ivone volta ao bairro para atuar no Esquina de Alfama. “Não estou farta, adoro cantar”, conta-nos. O fado que Ivone conhece é primeiro das ruas e da comunidade e só depois do público ocasional, estranho às casas de fado. A escadaria junto da Igreja de Santo Estevão, perto da sua casa, serviu-lhe de primeiro palco, para onde, acompanhada por amigos, que "tocavam profissionalmente", "dava uma fugidinha, para cantar um fadinho". 

Embora tenha começado cedo a entoar os fados pelas ruas de Alfama, tal como a outras mulheres da sua geração, não lhe foi permitido perseguir o sonho e as suas apresentações nestes espaços só começaram aos 60 anos. Hoje já tem um disco editado e atua regularmente no Esquina da Alfama, agora, apenas duas vezes por semana, porque a saída do bairro e a distância para os subúrbios, onde mora com a filha, dificultam um regresso mais frequente.

A outra protagonista do documentário é Marta Miranda. Conhecida por projetos como os OqueStrada, a cantora criou com o seu companheiro, Jean-Marc, o espaço cultural TascaBeat do Rosário, também em Alfama, onde aos fadistas mais tradicionais se juntavam músicos de todas as idades, nacionalidades e estilos. A TascaBeat não conseguiu, contudo, sobreviver aos apetites do investimento imobiliário naquela zona e fechou, procurando agora um novo sítio para reabrir.

A cantora Marta Miranda, dos Oquestrada, e cofundadora da TascaBeat do Rosário, é outra das protagonistas do
A cantora Marta Miranda, dos Oquestrada, e cofundadora da TascaBeat do Rosário, é outra das protagonistas do
Foto promocional


“Tentámos focar-nos em duas mensagens. Uma é o fado como parte da cultura portuguesa, e estamos muito felizes por poder levá-lo a tantos sítios, e a outra é a questão da gentrificação, que é um problema global”, refere Judit Kalmár, co-autora de “Silêncio-Vozes de Lisboa”. 

Os fados escolhidos para o documentário foram selecionados pela sua componente lírica, que ajuda a construir a história do filme, funcionando como uma banda sonora da dupla mensagem que se quer transmitir, através “das artes, das comunidades e da importância de tentar não perder esses valores”, refere a jornalista e realizadora húngara. 

Os diferentes olhares, externos e locais, acabam por contribuir para lhe dar uma “perspetiva especial”, que procurou sublinhar o genuíno e evitar a visão caricaturada. "Era muito importante contar as histórias de algumas pessoas, no filme, mas contá-las com respeito", frisa Céline.  Até porque Lisboa tornou-se a sua casa. "É aqui que sinto que pertenço", diz sem hesitação. Por isso, defende que todos têm "a tarefa de amar a [sua] cidade, fazer qualquer coisa por ela, seja Lisboa ou outra", sem a tentar mudar à imagem que trazem de fora. "Temos de tentar perceber a cultura onde vivemos, o que está à nossa volta e não chegar lá com as nossas normas. Acolher a cultura com o que tem de bom e de mau."

O fado não foi propriamente uma surpresa quando chegou a Lisboa. Além do ouvido sensível para escutar todo o tipo de sonoridades, pela educação musical que teve, os ecos do fado recuam à própria infância na Suíça. "Na verdade, conheci o fado quando era pequena, porque vivia numa casa com várias pessoas e havia um senhor que ouvia muito fado, da Amália, e o meu avô também ouvia, soube mais tarde, embora não tenha memória. Mas quando cheguei a Lisboa foi como voltar a casa, mesmo que nunca tenha vivido aqui."

A musicalidade que existe na capital portuguesa, não apenas a do fado, é um fator distintivo face a outros lugares que conhece. Assim como o sentido de pertença, um bem raro que, como o filme mostra, pode estar em risco de se perder.

"Aqui o que acho que há, e penso que não há tanto noutros países, é o sentido de comunidade. As pessoas respeitam-se umas às outras e acolhem-se. Abraçam-se. Isso é uma coisa que existe muito em Portugal e que para mim é muito importante", diz Céline. 

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

"Silêncio-Vozes de Lisboa", cujas filmagens decorreram entre o final de 2017 e a primeira metade de 2018 e que demorou quatro anos a ser terminado, com a montagem a ser repartida entre Portugal e a Hungria, já foi exibido em cerca de 30 festivais, um pouco por todo mundo, em formato físico e online, devido à pandemia. A primeira estreia "física", em Lisboa, aconteceu no FESTIN, em dezembro de 2020.  

Esta quinta-feira, o filme estreia-se comercialmente, em Portugal, e esta estreia será assinalada com dois concertos de fado, em Lisboa, com os músicos e cantores do filme: no dia 25, no festival 'Felizmente Há Lugar', em Marvila, e no dia 29, no Museu do Fado.

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