Escolha as suas informações

Quando a arte é uma terapia
Cultura 3 min. 17.09.2018 Do nosso arquivo online

Quando a arte é uma terapia

Quando a arte é uma terapia

Foto: Gilbert Linster
Cultura 3 min. 17.09.2018 Do nosso arquivo online

Quando a arte é uma terapia

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
“Clay meets Paint” é o nome da exposição que junta oito pintores, dois deles lusófonos, e uma ceramista no Rehazenter (Centro Nacional de Reeducação Funcional e de Readaptação), em Kirchberg, na capital.

Os pintores Nelson Neves (de origem cabo-verdiana) e Deolinda Mendes (de origem portuguesa) fazem parte da lista de nove artistas que expõem desde esta terça-feira, incluídos na mostra coletiva “Clay meets Paint”, no Rehazenter, em Kirchberg.

A exposição, organizada também em anos anteriores, tem como objetivo levar cor e vida àquele centro de reeducação funcional e de readaptação, mas também às pessoas que ali estão em reabilitação.

Deolinda Mendes trocou o Fundão pelo Luxemburgo em 1979 e expõe agora pela primeira vez, depois de ter começado a pintar “mais a sério” em 2008, quando lhe foi diagnosticada uma doença crónica. “Sempre gostei de pintar, mas foi só depois de ter sido diagnosticada com uma doença crónica que comecei a pintar mais a sério”, diz ao Contacto.

Deolinda Mendes fala pouco, mas o suficiente para explicar que foi a pintura que a ajudou a superar os obstáculos. “Tenho uma doença rara e foi a pintura que me permitiu sentir que posso realizar coisas. Quando estou a pintar não penso em mais nada e sinto-me bem. Houve uma altura em que nem tinha concentração para ler e agora estou a fazer uma coisa que gostaria de fazer desde muito nova. Espero que esta exposição sirva também como terapia às pessoas”.

Autodidata, a imigrante portuguesa pinta sobretudo retratos, paisagens e animais. Mas no futuro espera “dar o salto para o abstrato”.

Para Nelson Neves, embaixador do Instituto Europeu das Artes Contemporâneas no Luxemburgo, esta mostra é uma das muitas ações em que tem participado com o objetivo de “reabilitar” pessoas. À parte as exposições individuais e coletivas no Luxemburgo, Cabo Verde ou França, o artista plástico participou em várias oficinas de pintura para crianças, reclusos e pessoas com deficiência, onde confessa não haver barreiras de idade, físicas ou psicológicas.

“Nas horas que passam comigo acabam por esquecer as suas dificuldades, as suas doenças. A pintura ajuda as pessoas a viajar e, quando estamos a pintar, estamos noutro mundo”. Foi o que se passou há dois anos, numa oficina de pintura organizada pelo serviço de igualdade de oportunidades da comuna de Differdange para jovens com deficiência. “No final desse evento indiquei à organização que, se não me tivessem dito que esses jovens eram portadores de deficiência, que precisavam de um enquadramento especial, eu não teria notado isso. Vivi essa experiência e posso dizer que a pintura ajuda a acalmar crianças e adultos com deficiência. É como se fosse uma terapia para eles”.

Pintar com reclusos foi abrir uma janela da prisão

Em 2009, Nelson Neves participou numa outra oficina de pintura, desta vez com reclusos, na ilha onde nasceu, em Santo Antão, Cabo Verde.

“O efeito libertador foi o mesmo com as pessoas doentes. Houve alguém da população ali próxima que me disse: ’Nelson, estás a pintar com o preso que matou o meu avô’. Respondi que quem julga é o juiz e não eu. Aquele detido quis participar porque gostava de pintar, portanto, para mim, ele estava nessa oficina de pintura como um artista e não como um criminoso”, conta Nelson Neves.

“Aquilo foi para eles como uma janela que lhes permitia sair da rotina da prisão. Alguns deles manifestaram na altura querer ganhar a vida, depois de cumprir a pena, através do artesanato, da pintura e, assim, reabilitar as suas vidas através da arte”, acrescenta.

Além de Nelson Neves e Deolinda Mendes participam ainda, na exposição coletiva “Clay meets Paint”, Claudine Arendt, Yves Geraud, Sylvie Hilbert, Yannick Tossing, Giulia Valenzano, Snejana Granatkina e a ceramista Josiane Van de Sluis-Schumann.

A exposição, que foi inaugurada na terça-feira dia 11 de setembro, pode ser vista todos os dias até 31 de outubro, junto à receção do Rehazenter (rue André Vésale, n°1), em Kirchberg, na capital.


Notícias relacionadas

Nelson Neves expõe em Kehlen
O artista plástico de origem cabo-verdiana Nelson Neves integra uma exposição coletiva que vai estar espalhada por vários locais em Kehlen, no domingo, a 21 de maio.