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Português participou na Primavera dos Poetas: António Carlos Cortez, um poeta insurrecto
Cultura 6 3 min. 28.04.2015

Português participou na Primavera dos Poetas: António Carlos Cortez, um poeta insurrecto

O poeta português António Carlos Cortez participou no sábado na 8ª edição da Primavera dos Poetas, na Abadia de Neimënster. O tema foi A Insurreição Poética, uma temática em que o escritor se revê.

O poeta português António Carlos Cortez participou no sábado na 8ª edição da Primavera dos Poetas, na Abadia de Neimënster. O tema foi A Insurreição Poética, uma temática em que o escritor se revê.

“Acho que a poesia é verdadeiramente um acto de insurreição e de liberdade criativa, num tempo tão profundamente esmagado pela técnica e por um novo tipo de fascismo dos mercados. Governos que são esmagados pelas empresas e pelos bancos. Eu sou muito crítico sobre o que se está a passar hoje. Acho que é um tempo perigoso, porque há uma formatação das pessoas”, disse ao CONTACTO o poeta, que ponta o dedo às televisões.

“A televisão tem feito um trabalho muito nefasto por toda a Europa, considerando que a única ideologia que há é a do consumismo, e as pessoas, regra geral, estão derrotadas pelo desemprego, pela falta de esperança. A minha visão do real reflecte-se na minha poesia, que é um pouco negra, às vezes um pouco melancólica e questionante”, disse o escritor, que colabora também com o Jornal de Letras.

O tema da insurreição marcou a organização do evento, que contou com quinze poetas de quinze países. “Através da voz dos poetas escreve-se a liberdade de expressão, a democracia e a revolta da palavra”, disse Bruno Théret, presidente e fundador da Primavera dos Poetas.

O responsável regozijou-se com a presença novamente de um poeta português. “Através das palavras podemos absorver a riqueza cultural de uma língua, e o português é importante, porque é o idioma falado pela maior comunidade no Luxemburgo”, afirmou.

O convite foi feito através do Instituto Camões. “A poesia do António enquadra-se perfeitamente no tema deste ano. E ele recebeu o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, o que também é uma marca de qualidade. Por outro lado, queremos fazer com que poetas pouco conhecidos no estrangeiro o sejam através desta organização”, vincou Joaquim Prazeres, do Instituto Camões.

A presença do escritor português no encontro coincidiu com o 41° aniversário do 25 de Abril, que o poeta classificou como uma “revopioneira” na Europa e América Latina.

“É a primeira a dizer ’não’ às diversas ditaduras que tinham sido instauradas nos anos 20, 30 ou mesmo 50 e 60. Portanto, poder ler poesia aqui, no dia 25 de Abril, no Luxemburgo, é uma maneira de avisar os mais novos sobre os novos tipos de ditaduras que estamos a viver hoje e que se estão a aproximar devagar para regimes militaristas perigosos. Lembrar o 25 de Abril é fundamental”, disse o poeta.

O escritor, de 39 anos, lamentou ainda a falta de promoção da leitura em Portugal.

“Portugal, assim como os países latinos, tem de perceber que as políticas de leitura são difíceis em países com praticamente 300 anos de inquisição e meio século de fascismo. O livro foi sempre, na história da nossa cultura, perseguido e censurado”, disse o consultor do Plano Nacional para a Leitura.

Uma realidade com resultados desastrosos, defende. “Não temos hoje estudantes com práticas de leitura. O que se fez foi imitar a Europa do Norte, que tem uma tradição cultural diferente, mais sólida, e que justamente caminhou para as novas tecnologias sem esquecer o livro, ao passo que nós não. As novas tecnologias vieram acentuar o divórcio entre o público e os livros e a boa literatura”.

O poeta português lamentou ainda que os poetas dos Países Africanos de Língua Portuguesa não sajem “mais falados”, um trabalho que “deveria ser feito nas escolas”.

A próxima publicação do poeta será um retrato da Europa deste tempo. “É um livro intitulado ’Oblivion’, que na verdade é um título irónico, porque é um livro de algumas perdas e ganhos, de algumas coisas que dizemos que esquecemos mas não esquecemos”, explicou António Carlos Cortez.

No sábado, a Primavera dos Poetas teve sala cheia, num encontro em que também esteve presente o embaixador de Portugal no Luxemburgo, Carlos Pereira Marques. Em paralelo, a Primavera Jovem, dedicada aos alunos, contou com 127 participantes de dez escolas que apresentaram 163 poemas.

Ruben Mendes


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