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Portugal reage à morte de José Mário Branco
Cultura 5 min. 19.11.2019

Portugal reage à morte de José Mário Branco

Portugal reage à morte de José Mário Branco

Cultura 5 min. 19.11.2019

Portugal reage à morte de José Mário Branco

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O cantor morreu esta terça-feira e várias figuras públicas, de diferentes quadrantes, lembram o seu legado para a cultura do país.

José Mário Branco morreu esta terça-feira, aos 77 anos. Nome maior da canção portuguesa, de intervenção e não só, o músico, cantautor, compositor e produtor marcou várias gerações, mas, sobretudo, a que viveu a revolução do 25 de Abril e a transição da ditadura para a democracia.

Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

Isso mesmo foi referido pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações à TSF.

"A minha geração recorda de forma muito viva José Mário Branco", começou por dizer, acrescentando que a sua música "era trauteada e cantada por pessoas de vários quadrantes [políticos]". "O meu quadrante, na altura, como hoje, não era exatamente o quadrante de José Mário Branco, mas aquilo que marcava a sua música era um desejo de mudança profundo, sincero", afirmou o Presidente da República, recordando o "concerto histórico" do músico, a que assistiu, "no Coliseu, já muito próximo do 25 de Abril".

Condecoração a título póstumo

À mesma estação de rádio, o chefe de Estado sublinhou que recebeu a notícia da morte do artista com "muita consternação" e que "o seu desaparecimento representa uma perda", admitindo condecorá-lo a título póstumo. "Ele manifestou sempre, de forma muito bem-educada e discreta, que o que lhe importava era deixar um testemunho e fazer passar a palavra. 

O reconhecimento formal era menos importante", mas "se aqueles que lhe são próximos entenderem que não traem a sua memória aceitando esse reconhecimento público, então, obviamente, o que não foi possível fazer em vida será feito postumamente", afirmou.

O primeiro-ministro, António Costa, usou a sua página do Twitter para manifestar "profunda tristeza" pela "perda de José Mário Branco, figura cimeira da música moderna e da cultura portuguesa". 

 "O primeiro álbum, 'Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades' (1971), foi um prenúncio da Revolução de Abril e de uma obra empenhada e combativa", sublinhou, acrescentando ainda que "a erudição musical de José Mário Branco acolheu vários géneros, sem hierarquias, e estendeu-se a outros artistas". "Não esqueceremos a sua música, a sua inquietação", concluiu António Costa.  

Ministra da Cultura, Graça Fonseca

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, também se pronunciou sobre a morte de José Mário Branco. Através de uma curta mensagem na sua conta oficial do Twitter, escreveu que "lamenta profundamente a morte de José Mário Branco, nome maior da #música portuguesa. Voz de luta e de intervenção, o seu legado é intemporal e é património coletivo. Resistir, em #Portugal, terá sempre um disco de José Mário Branco como banda sonora", acrescentou.

Da música à literatura

Figura incontornável da cultura e história recente portuguesas, José Mário Branco tem sido recordado, ao longo da manhã, por personalidades das mais diversas áreas. 

Na música, de onde têm surgido grande parte dos testemunhos mais emotivos, o músico tocou diferentes gerações, tanto como colaborador dos seus trabalhos como referência educativa.

Camané, fadista

Camané, que teve arranjos e produção de José Mário Branco em vários discos seus, reagiu emocionado, à RTP, quando recordou a importância que o compositor teve no seu percurso. 

“Foi a coisa mais importante que me aconteceu”, afirmou sobre a colaboração entre os dois. O fadista recordou o "artista fantástico de uma dimensão incrível muito para além de um artista de intervenção", que acabou por se apaixonar pelo fado. 

Adolfo Luxúria Canibal, músico

Adolfo Luxúria Canibal foi outro dos músicos também lamentou, em declarações à agência Lusa, a morte do “amigo” José Mário Branco, “alguém de quem gostava muito”.

O vocalista escreveu com José Mário Branco uma canção, intitulada 'Loucura', que foi recuperada para um disco de tributo a este, lançado em maio passado.“Estou em estado de choque. É um amigo que se perde”, disse, emocionado, Adolfo Luxúria Canibal, destacando o valor e a importância do compositor para a música e cultura portuguesas.

Irene Pimentel, escritora

A historiadora e escritora, Irene Pimentel reagiu com "enorme tristeza", através da sua página oficial do Facebook. "O Zé Mário, cuja canção 'Eu vim de longe' trauteei como um hino de toda uma geração (...) Uma vez, vinha eu de Jerusalém, encontrei o Zé Mário no aeroporto de Tel Aviv. Tomávamos aviões diferentes, mas fui a conversar com ele distraidamente e a segurança do aeroporto desconfiou, revolveu a minha mala de viagem e fez-me um longo interrogatório. Querido Zé Mário.

Jorge Silva Melo, dramaturgo

"Na mesma rede social, o encenador e dramaturgo, Jorge Silva Melo, recordou histórias do cantor, como forma de o homenagear. "Nunca mais voltei a passar pela Estação de São Bento, no Porto, sem me lembrar deles, do José Mário Branco cantando um romance de cego e do Paulo Rocha, amigos. Sim, um dos mais belos filmes portugueses e uma das mais belas sequências de sempre. Era Cesare Pavese (num texto muitas vezes citado pelo Paulo) que dizia que o dever do escritor era encontrar a personagem que cristalizasse o lugar. O Cego do Zé Mário e do Paulo era isso: aquele lugar para sempre(...)".

Outras personalidades usaram o Instagram para imortalizar, em palavras e imagens, aquilo que José Mário Branco significou e continua a significar para elas. 

Veja, em baixo, algumas das mensagens.

Valter Hugo Mãe, escritor

  Capicua, cantora e rapper

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"Eu cresci a ouvir Zé Mário, a TV era a rádio e a minha primeira rima foi à porta do infantário!" 🖤 😔 Que possa sempre honrar o seu exemplo. Não esquecendo nunca que a música não é só estética, e muito menos técnica, porque a ética é a sua dimensão mais importante. Que pena nunca o ter conhecido pessoalmente para lhe agradecer. Para lhe dizer que o primeiro CD que tive era dele (oferecido pelo meu pai). Para lhe dizer como cresci com a sua voz, acreditando que a "Ronda do Soldadinho" era música para crianças. E para lhe dizer que uma das coisas que mais me orgulha na minha cidade é ter feito nascer um tipo com a sua fibra! Já liguei ao meu Pai. Morreu um amigo. 🖤😔 Um abraço à sua família!

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  Linda Martini, banda  

  Joana Seixas, atriz 

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“A contas com o bem que tu me fazes A contas com o mal por que passei Com tantas guerras que travei Já não sei fazer as pazes São flores aos milhões entre ruínas Meu peito feito campo de batalha Cada alvorada que me ensinas Oiro em pó que o vento espalha Cá dentro inquietação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda Ensinas-me fazer tantas perguntas Na volta das respostas que eu trazia Quantas promessas eu faria Se as cumprisse todas juntas Não largues esta mão no torvelinho Pois falta sempre pouco para chegar Eu não meti o barco ao mar Pra ficar pelo caminho Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer Qualquer coisa que eu devia perceber Porquê, não sei Porquê, não sei Porquê, não sei ainda Cá dentro inqueitação, inquietação É só inquietação, inquietação Porquê, não sei Mas sei É que não sei ainda Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer Qualquer coisa que eu devia resolver Porquê, não sei Mas sei Que essa coisa é que é linda” #josemariobranco

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  Benjamim, músico 

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Até sempre, José Mário.

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 Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), músico 

  Carlão, cantor e rapper  

  Sandra Faleiro, atriz  

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Dia triste.... Muito triste.... 🖤

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  Moospell, banda  

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Vemo-nos na outra margem Mestre. As nossas condolências à família. 🖤

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  Albano Jerónimo, ator  

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José Mário Branco . “Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe, pois pá, sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. ” . Parte da letra do incontornável FMI . Porra Mário, que maravilha e que tremenda pena. Fica a inquietação, sempre! Obrigado. . Viva o Zé, viva!

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