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Portugal. Quando a derrocada dos Jerónimos emocionou o país

Portugal. Quando a derrocada dos Jerónimos emocionou o país

Foto: DR
Cultura 3 min. 18.04.2019

Portugal. Quando a derrocada dos Jerónimos emocionou o país

Com nove séculos de história, o incêndio que destruiu parte da Catedral de Notre-Dame, em Paris, provocou reações de choque no mundo inteiro. Durante 15 horas, televisões, rádios e jornais relataram a tragédia que levou à perda de parte de um dos mais importantes monumentos de França e da Europa. Em Lisboa, há 140 anos, a revista ilustrada O Ocidente relatava também um evento trágico que abalou os portugueses.

“Um triste acontecimento commoveu ha poucos dias Lisboa e o resto do paiz. Abateu o corpo central da nova galeria em construcção junto ao magnifico templo dos JeronImos, e que constituindo a frente da Casa Pia, estava a ponto de concluir-se depois de longos annos de trabalhos”. Foi assim que a publicação noticiou o desabamento de parte do Mosteiro dos Jerónimos no dia 18 de dezembro de 1878.

O desmoronamento deu-se às nove da manhã e o torreão com cerca de trinta metros desabou com a estátua da Caridade, que havia sido colocada num nicho dias antes, acabando decepada. Ao contrário de Norte-Dame, infelizmente, houve várias mortes. A derrocada acabou por vitimar oito trabalhadores que não conseguiram fugir da obra a tempo ficando soterrados debaixo da areia e da cantaria. As fotografias e gravuras da época deixam ver as ruínas de um edifício que levava obras desde 1867 sob a condução dos cenógrafos italianos do teatro S. Carlos, Rambois e Cinatti. Numa sucessão de arquitectos dispensados, os dois italianos decidem demolir a galilé e a sala dos reis, construir a rosácea do coro-alto, substituir a cobertura piramidal da torre do sino por uma cobertura mitrada e construir os torreões numa intervenção que acaba por conduzir à derrocada.

As críticas de O Ocidente não se fazem esperar e responde que “não pode ser”, contestando que a vida de oito trabalhadores mostra que “era talvez melhor ter deixado de os empregar de semelhante fôrma” e acrescenta que “seria um absurdo maior reedificar o torreão derrocado pelo plano primitivo”. É preciso que “a opinião dos homens competentes intervenha”, reclamava a publicação da época.

Seis anos depois da tragédia, o engenheiro Raymundo Valladas inicia o restauro do Claustro e da Sala do Capítulo, com a construção da respetiva abóbada. Nessa sala é colocado, em 1888, o túmulo de Alexandre Herculano cuja autoria é de Eduardo Augusto da Silva.

Para celebrar o IV Centenário da chegada de Vasco da Gama à Índia, dez anos depois, concluem-se as obras de restauro e os túmulos de Vasco da Gama e Luís de Camões, da autoria do escultor Costa Mota, são colocados na capela lateral sul. No ano seguinte, o Mosteiro recebe os restos mortais do poeta João de Deus e instalam-se também os túmulos de algumas figuras da literatura e política: Almeida Garrett, Sidónio Pais, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga.

De acordo com a página do Mosteiro dos Jerónimos, o edifício foi fundado pelo rei D. Manuel I no início do século XVI. As obras iniciaram-se no virar do século, lançando-se a primeira pedra na data simbólica de 6 de janeiro de 1501 ou 1502. Doado aos monges Jerónimos, que aqui permaneceram até ao segundo quartel do século XIX, o conjunto monástico conserva, ainda hoje, além da igreja manuelina, grande parte das magníficas dependências conventuais que contribuíram para a sua fama internacional, incluindo o Claustro quinhentista.

Situado na zona de Belém, em Lisboa, junto ao Tejo, é descrito como obra-prima da arquitetura portuguesa do século XVI, tem a classificação de Monumento Nacional desde 1907 e está inscrito na lista de Património Mundial da UNESCO desde 1983. Recebeu em 2018 mais de um milhão de visitantes, o que o coloca como o monumento mais visitado em Portugal, de acordo com os dados da Direção-Geral do Património Cultural.

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