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Porto. Quando a reabilitação dos prédios destrói os azulejos centenários
Cultura 4 min. 08.08.2020

Porto. Quando a reabilitação dos prédios destrói os azulejos centenários

Porto. Quando a reabilitação dos prédios destrói os azulejos centenários

Azulejos do Porto
Cultura 4 min. 08.08.2020

Porto. Quando a reabilitação dos prédios destrói os azulejos centenários

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Conheça o projeto que denúncia a liquidação do património cultural que está a acontecer na cidade invicta.

"Nós estamos a tentar chamar a atenção para que as pessoas de Portugal saibam que o seu património está a ser destruído", diz ao Contacto Alba Plaza, designer gráfica e co-fundadora do projeto Azulejos do Porto, que existe sem fins lucrativos e pretende preservar os azulejos centenários da fachada dos edifícios do Porto. 

Fundado em 2016 por Alba Plaza e Marisa Ferreira, duas amigas que fazem do azulejo coração, esta é uma plataforma não só de recuperação cultural  mas também de denúncia quanto à destruição de património.

"Esta publicação é um aviso sobre os edifícios que estão a perder os seus azulejos centenários no Porto", escrevem numa das páginas do projeto, onde criaram para consciencializar quanto ao desparecimento desta arte centenária. 

"Embora os edifícios azulejados em Portugal sejam uma das heranças mais valiosas do mundo, só estão protegidos pela lei desde 2017 (n.º 79/2017). Muitos destes azulejos foram destruídos e continuam a sê-lo até aos nossos dias", escrevem. 

Edifício na Rua de Miguel Bombarda 10-20, Porto

O edifício foi construído antes de 1824 e inicialmente não tinha azulejos. Estes foram colocados no início do século XX, sendo produzidos na Fábrica Cerâmica do Carvalhinho.

Informações sobre o edifício na página web do Património Cultural Português, onde é indicado como um edifício "sem protecção legal".
Edifício na Rua de Miguel Bombarda 10-20, Porto O edifício foi construído antes de 1824 e inicialmente não tinha azulejos. Estes foram colocados no início do século XX, sendo produzidos na Fábrica Cerâmica do Carvalhinho. Informações sobre o edifício na página web do Património Cultural Português, onde é indicado como um edifício "sem protecção legal".
in azulejosporto.pt


Detalhes dos Azulejos removidos e dos Azulejos novos
Detalhes dos Azulejos removidos e dos Azulejos novos
Azulejos do Porto

Segundo a Câmara Municipal do Porto, existem três tipos de mecanismos de proteção deste património pelos quais o município orienta a sua ação, "num trabalho permanente e que envolve uma estreita colaboração entre a Direção Municipal de Urbanismo e a Divisão Municipal de Património Cultura". 

Neles  incluem-se a Lei n.º 107/2001 que estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural, a Lei 79/2017 de 18 de agosto que foi, segundo a CMP, "o primeiro grande reconhecimento do estatuto do azulejo como bem do património cultural português" e interdita a demolição de fachadas azulejadas e a remoção de azulejos das mesmas, em todo o território nacional e ainda  a Ordem de Serviço n.º I/194083/19/CMP de 22 de maio, uma medida interna determinada pelo serviço de urbanismo no sentido da aplicação da legislação nacional, que obriga à entrega de um relatório de caraterização do imóvel a demolir, "que será analisado pelos serviços, que determinará ou não a substituição e/ou reaproveitamento dos elementos construtivos". 

A Câmara do Porto garante que executa um trabalho detalhado na proteção do património, referindo ainda o trabalho do Banco de Materiais "uma mais valia na avaliação do valor patrimonial do revestimento cerâmico no edificado, bem como no levantamento feito dos elementos cerâmicos no edificado portuense, incluindo o registo do seu estado de conservação", escreve em resposta ao Contacto. Segundo o município este mesmo organismo "presta todo o apoio no local da obra, no sentido de se procurar encontrar soluções para a manutenção do revestimento cerâmico original, sempre tendo como prioridade zelar pela manutenção do azulejo original na fachada, colmatando as lacunas com peças disponibilizadas gratuitamente".

"Pode ver através desta compilação que apesar da lei de proteção dos Azulejos de fachada eles continuam a ser removidos mesmo sem terem licença para isso", explicam ao Contacto. Para Alba Plaza "esta lei não é suficiente, deveria ser mais restrita. Mas as Câmaras também deviam ser mais restritas, assim como o Governo", asserta. 

Segundo as fundadores do projeto, a maior parte dos azulejos que desaparecem dos edifícios é na sua grande maioria pela reabilitação. "A pessoa ou empresa que compra o edifício toma a decisão de retirar (destruíndo um património) só porque eles têm um aspeto de "velhos" desgastados, sujos etc. Em alguns casos voltam a colocar réplicas, noutros casos não. Mas aqui o grande problema é que todos estes azulejos foram fabricados pelas desaparecidas fábricas de azulejos que existiam no Porto. Estes azulejos centenários são únicos por isso. Pela sua riqueza histórica. Infelizmente Portugal não valoriza o seu património", lamentam.

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The historical center of Porto is classified by #UNESCO (under Law No. 107/2001 of 8 September). This building in Rua Saraiva de Carvalho 1 is part of it. All the 19th century tiles that were covering its facade have been totally destroyed and they are on the floor like garbage. We already reported the situation and we are waiting for a clarification. As they were in the upper floors, we didn't get the chance to photograph them for our catalogue @azulejosporto. You can see a compilation we are making of #tileslostforever in our blog (through the link in our bio). We will add this case soon. If you know any cases like this in Porto please contact us asap. . 3rd pic, some pieces we rescued. 4th pic, marks in the back of the tiles. Unknown factory, maybe Carvalhinho (?). 5th pic, detail of the building being renovated with no tiles. 6th pic, detail of the facade covered with the tiles a few months ago (credit Google). . . . . . . . . . #azulejos #azulejosportugueses #portuguesetiles #tiles #oporto #porto #tiledbuildings #ceramica #ceramics #azulejosporto #facadetiles #gazeteazulejos #azulejosdefachada #ihavethisthingwithtiles #azulejosporto #historicalcenter #unescoportugal #heritage #preservation

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O projeto foi criado em junho de 2016 pela Alba Plaza e Marisa Ferreira como uma forma de preservar este "importante património" e torná-lo conhecido em todo o mundo. Começaram por catalogar através de fotografias de alta qualidade, com edição que permita o registo mais fiel possível dos padrões dos azulejos e por isso consideram que este seja "um projeto em constante crescimento", graças ao vasto número de diferentes azulejos existentes. 

Sem apoios externos até à data, em 2018 criaram a Gazete Azulejos, onde pintam à mão azulejos com técnicas tradicionais, réplicas para o restauro de fachadas e fazem ateliers de pintura de azulejos para ensinar sobre esta arte antiquada. Assim tentam financiar o Azulejos do Porto e dar continuidade a todo o trabalho que já desenvolvem há quatro anos. 

Marisa Ferreira e Alba Plaza
Marisa Ferreira e Alba Plaza

As autoras incluem ainda um "um importante trabalho de investigação" sobre estas peças únicas, as fábricas que as produziram, as técnicas, influências, entre outras informações relevantes.

Segundo a Azulejos do Porto, desde meados do século XIX, os portugueses começaram a cobrir os seus edifícios com azulejos, tornando-se desde então o país do mundo que tem mais exemplos desta arte.


  

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