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Políticos e artistas homenageiam Carlos do Carmo
Cultura 12 min. 01.01.2021

Políticos e artistas homenageiam Carlos do Carmo

Políticos e artistas homenageiam Carlos do Carmo

Foto: LUSA
Cultura 12 min. 01.01.2021

Políticos e artistas homenageiam Carlos do Carmo

Redação
Redação
Começando por Marcelo Rebelo de Sousa, passando por António Costa, e acabando em nomes como Herman José, Sérgio Godinho e Fernando Tordo, todos lhe elogiam a pessoa e o seu papel na música portuguesa. A sua editora revela que há um último disco para sair que deixou Carlos do Carmo.

O Presidente da República reagiu hoje com um sentimento “de perda” à notícia da morte do fadista Carlos do Carmo, que recordou como “uma grande figura da cultura” e também como “um grande homem”.

Em declarações à RTP, Marcelo Rebelo de Sousa disse ter recebido esta notícia com uma reação idêntica “à de todos os portugueses”, “uma reação de perda”.

“Perda por aquilo que Carlos do Carmo fez pela consagração do fado como património imaterial da Humanidade, mas também pelo que deu como voz de Portugal cá dentro e lá fora junto das comunidades portuguesas, prestigiando não apenas o fado, mas a nossa cultura”, destacou.

O chefe de Estado realçou ainda que Carlos do Carmo foi “uma voz” na luta pela liberdade nos tempos da ditadura e na transição para a democracia.

“Por detrás de uma grande figura da cultura estava um grande homem, com uma grande riqueza pessoal, uma sensibilidade e uma intuição e identificação com o povo português que o povo português não esquece”, acrescentou.

O Presidente da República considerou que a morte de Carlos do Carmo, no primeiro dia de 2021, “um dia que devia ser de esperança”, não pode ser encarada “com desesperança”, mas como uma homenagem a alguém que “nunca perdia a esperança”.

O fadista Carlos do Carmo morreu hoje de manhã aos 81 anos no hospital de Santa Maria, em Lisboa, disse o filho Alfredo do Carmo à Lusa.

À RTP, Marcelo Rebelo de Sousa recordou uma “aproximação familiar muito grande” entre a sua mãe e a de Carlos do Carmo, antes do 25 de Abril.

“Os grandes momentos familiares eram passados normalmente perto para ouvirmos a sua mãe e a ele muito novo a cantar e ficou aí uma ligação que se renovava periodicamente”, contou.

O chefe de Estado destacou que, sendo “obviamente um homem de esquerda” e “sempre mais identificado com o povo do que com os poderosos”, o fadista relacionava-se de uma forma “muito próxima com as pessoas, de todos os quadrantes”.

“Era uma pessoa que, na intimidade, nunca perdia o otimismo nem a esperança de viver, mesmo quando muito doente. (…) Essa capacidade de enriquecer a vida dos outros com o seu otimismo, esperança, amizade, lealdade, traduzia-se quando cantava”, disse, evocando o seu último espetáculo em 2019 como “uma prova de resistência física”.

“Gostava de ser amado, amar as pessoas e de se dar às pessoas. Gostava de perceber que os portugueses o amavam”, resumiu o Presidente da República, apontando que Carlos do Carmo “gostava de promover os mais novos e chegava ao ponto de se apagar para fazer crescer os outros”.

Numa nota publicada no portal da Presidência da República na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa evoca Carlos do Carmo como “uma das grandes figuras do fado e da dignidade do fado”.

“Dignidade do texto, da qualidade do texto, da dicção, do dizer. Dignidade de uma vocação exigente, sem cedências e vedetismos. Dignidade de uma atenção humana, de uma compaixão, uma empatia de ‘homem na cidade’ ao lado dos outros homens e mulheres”, aponta.

O Presidente recorda o percurso biográfico do fadista e o “reconhecimento público e crítico logo no primeiro disco que gravou, nas décadas de 1960 e 1970”.

“No Festival da Canção de 1976 foi o único intérprete de todas as canções concorrentes, e no ano seguinte editou aquele que é o mais conhecido dos seus discos com Ary dos Santos, ‘Um Homem na Cidade’. Com Ary, manteve colaboração fiel e produtiva, que deu origem a fados que nos parecem hoje imemoriais, como ‘Lisboa, Menina e Moça’”, acrescenta.

O chefe de Estado considera que Carlos do Carmo “contribuiu muito para a divulgação internacional do fado”, nomeadamente com a participação no filme “Fado” (pelo qual ganhou um prémio Goya), com a campanha pelo reconhecimento do fado como Património Imaterial da Humanidade, e com o Grammy Latino de Carreira que lhe foi concedido em 2014.

Sobre futuras homenagens, o Presidente da República realçou a ligação que Carlos do Carmo tinha a Lisboa.

Por sua vez, o presidente da autarquia lisboeta, Fernando Medina, garante que a cidade não esquecerá o artista. "2021 amanhece triste com a partida de Carlos do Carmo. Fez de Lisboa menina e moça para o mundo inteiro ouvir. Foi a voz da cidade e esta não o esquecerá. Desaparece o homem, mas a voz e as canções dele ficam porque Carlos do Carmo e Lisboa são indissociáveis. Carlos do Carmo permanecerá em todos nós sempre que alguém entoar as "Canoas do Tejo" ou em qualquer rua ou viela de Alfama alguém assobiar "Os Putos". Sim, Carlos do Carmo será sempre "O Homem (da) na Cidade", escreveu no Instagram.

António Costa evoca "notável fadista" e "grande amigo"

O primeiro-ministro, António Costa, evocou com saudade Carlos do Carmo, recordando-o como "notável fadista" e "um grande amigo".

"Fazendo eco das palavras que cantou no 'Fado da Saudade': 'Mas com um nó de saudade, na garganta/ Escuto um fado que se entoa, à despedida' de um grande amigo", escreveu o primeiro-ministro, numa publicação na rede social Twitter.

António Costa sublinhou que Carlos do Carmo "não era só um notável fadista, que o público, a crítica e um Grammy consagraram".

"Um dos seus maiores contributos para a cultura portuguesa foi a forma como militantemente renovou o fado e o preparou para o futuro", evocou.

Apesar de ter um percurso político ligado ao PCP, Carlos do Carmo foi mandatário de António Costa na campanha de 2009 para a Câmara Municipal de Lisboa e participou igualmente num almoço de campanha do PS nas legislativas de 2015, em que recusou definir-se como simpatizante socialista, dizendo antes ser um apoiante de Costa.

O PCP emitiu um comunicado em que expressa o seu pesar "e endereça à sua família as suas sentidas condolências."

"Carlos do Carmo, cidadão com um percurso cívico e democrático, com uma carreira artística de mais de 50 anos reconhecida no País e no mundo, intérprete de autores como Ary dos Santos, participante entre muitos outros na afirmação da dimensão cultural da Festa do "Avante!", cantor associado à sua cidade, deu uma contribuição particular à afirmação do fado como canção universal.", afirmam os comunistas. 

No mesmo sentido, se pronuncia o candidato apoiado pelo PCP, João Ferreira que posta um poema cantado por Carlos do Carmo nas redes sociais

Ferro lembra "nome ímpar" no fado e luta pela liberdade

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, manifestou o seu pesar pela morte do fadista Carlos do Carmo, que recordou como "um nome ímpar" do fado e como "figura relevante" na luta pela liberdade.

Numa mensagem de pesar, a segunda figura do Estado recordou também um "amigo de mais de 60 anos" e a personalidade marcante de Carlos do Carmo, "que não deixava indiferente quem com ele convivia".

"Carlos do Carmo é, inquestionavelmente, um nome ímpar do fado e figura incontornável do meio artístico e da canção portuguesa, numa carreira de décadas que perdurará na memória de todos nós", refere.

O presidente da Assembleia da República destacou o seu papel relevante "na luta pela Liberdade e na construção do país de Abril, em que tanto se empenhou".

"Hoje é um dia de grande tristeza pessoal. À família, nomeadamente à mulher Judite e aos filhos e netos, e aos muitos amigos, quero transmitir, em meu nome e em nome da Assembleia da República, a expressão do mais sentido pesar pelo falecimento de Carlos do Carmo", refere a nota.

Já o líder do PSD, Rui Rio, recordou hoje Carlos do Carmo como "um grande vulto da música portuguesa", e considerou que "a sua obra não morreu, nem nunca morrerá".

"A minha justa homenagem a Carlos do Carmo, um grande vulto da música portuguesa. A sua obra não morreu, nem nunca morrerá", escreveu Rui Rio, numa publicação na rede social Twitter.

Camané diz que "foi um choque muito grande" e Herman lembra amigo "luminoso"

Em declarações à RTP, o músico Camané falou do amigo que perdeu. "Foi um choque muito grande. Conheço o Carlos do Carmo desde sempre, somos muito amigos. É difícil de lidar, é uma grande referência do fado e continua a ser. Vai ser sempre uma das pessoas mais importantes do fado. Foi uma pessoa que acreditou em mim", afirmou comovido.

Já Herman José utilizou o instagram para prestar uma homenagem ao fadista. "Recuso-me a evocar o Carlos com tristeza. O meu desgosto é largamente mitigado pela memória de um amigo luminoso, presente, o mesmo que sempre me abraçou, apoiou e defendeu. Grato, culto, lutador, inquieto, encantador e sobretudo maior do que a própria vida. O Rei morreu, viva o Rei", escreveu no Instagram.


Sérgio Godinho fala de um papel dentro e fora do fado

O cantor Carlos do Carmo, que morreu hoje, aos 81 anos, teve um papel "absolutamente fulcral" dentro e fora do fado, afirmou hoje à agência Lusa o músico e compositor Sérgio Godinho.

"Sempre achei que, ao mesmo tempo que é 'fadista de gema', ele é mais do que isso, é um cantor. Não é um fadista característico, como o [Alfredo] Marceneiro, é alguém com outro tipo de formação e que renovou dentro do fado e tem um papel absolutamente fulcral", disse.

Sérgio Godinho lamentou a morte de Carlos do Carmo - "alguém que eu sempre, sempre, sempre estimei muito" -, recordando algumas das ocasiões em que ambos se cruzaram profissionalmente.

Do percurso artístico de Carlos do Carmo, Sérgio Godinho sublinha a gravação de "Um homem na cidade", "um disco histórico", de 1977, que contou com os guitarristas António Chainho e Raul Nery, com letras de José Carlos Ary dos Santos e música de José Luís Tinoco, António Moniz Pereira, Vitorino de Almeida, Fernando Tordo, Frederico de Brito, Joaquim Luís Gomes, Martinho D'Assunção e Paulo de Carvalho.

Fernando Tordo recorda "o mais jovem de todos os fadistas"

O cantor e compositor Fernando Tordo lamentou hoje a morte de Carlos do Carmo, considerando que desapareceu "o mais jovem de todos os fadistas" com quem manteve 50 anos de amizade.

"Com este infeliz acontecimento desaparece o grande responsável pela transformação, pela modificação da autoria e da composição para fado", disse Fernando Tordo à agência Lusa.

Para Fernando Tordo, Carlos do Carmo - para quem compôs a primeiro tema em 1970 - desde o início "procurou, junto daqueles que na altura eram os mais jovens compositores portugueses, a transformação".

"Hoje desaparece essa pessoa, que terá sido o mais jovem de todos os fadistas. É uma perda muito grande", disse.

Tordo que, segundo disse, por "contingências da vida", não tinha contacto com Carlos do Carmo há alguns anos, endereçou condolências à família do fadista, adiantando que a sua morte lhe trouxe "imediatamente à memória 50 anos de amizade".

Simone realça dimensão da carreira internacional

A cantora Simone de Oliveira realçou hoje a carreira internacional do fadista Carlos do Carmo, e a dimensão que atingiu, da qual "os portugueses não têm noção", como afirmou à agência Lusa.

Amiga do fadista, Simone recordou que foi Carlos do Carmo o responsável por ter voltado a cantar, depois de ter perdido a voz, em finais da década de 1960, após a sua vitória no Festival RTP da Canção, em 1969, com "Desfolhada Portuguesa".

"Eu era locutora de continuidade no Casino da Figueira [da Foz] e apresentava os meus colegas e amigos, e um dia apresentei o Carlos [do Carmo], e fui lá para trás sossegada, até que de repente ele chamou-me: 'Ó Simone, chega aqui'. Pensei que me tinha esquecido de algo, mas não. Ele deu-me o braço e pediu à orquestra para tocar dois tons abaixo a canção 'The Shadow of your Smile', que cantámos juntos e foi assim. Aprendi a cantar com outra voz", contou Simone de Oliveira à agência Lusa.

Simone disse que "Carlos do Carmo era absolutamente um homem do espetáculo, do 'showbiz'".

"Do Carlos fica a sua maneira de interpretar, a voz única, os poetas que trouxe, e era um homem um bocado libertário", afirmou Simone de Oliveira, que se referiu ainda ao fadista e amigo, como "um homem interessante e inteligente".

"A maior força renovadora do fado depois de Amália", segundo Vieira Nery

Carlos do Carmo "foi a maior força renovadora do fado, depois de Amália Rodrigues (1920-1999)", disse hoje o musicólogo Rui Vieira Nery.

Rui Vieira Nery, autor de "Para uma História do Fado", em declarações à agência Lusa, afirmou que "quase todos os momentos de renovação do fado, nos últimos 50 anos, tiveram alguma ligação com Carlos do Carmo".

Vieira Nery referiu "os grandes poetas e compositores de outras áreas que Carlos do Carmo trouxe para o fado" e "as pontes que estabeleceu entre o fado e outros géneros musicais".

Rui Vieira Nery, que era amigo do fadista, sublinhou "o apoio e encorajamento de Carlos do Carmo aos novos fadistas".

O historiador e musicólogo e o fadista colaboraram na série documental "Trovas Antigas, Saudade Louca", exibida em 2010, na RTP.

Vieira Nery realçou também o "apoio de Carlos do Carmo a iniciativas que promoveram o fado" e o seu contributo "para a reconciliação dos portugueses com o fado", e citou, entre outras, o Museu do Fado e a candidatura do fado a património imaterial da Humanidade, que se concretizou em 2011.

Universal Music recorda "enorme legado que marcou profundamente o Fado"

O fadista Carlos do Carmo "deixa um enorme legado que marcou profundamente o Fado", afirma em comunicado a discográfica Universal Music, na qual o fadista gravou durante grande parte da sua carreira.

"O fadista, Senhor de um dom inigualável, Carlos do Carmo deu vida às palavras como ninguém. Muitas vezes visionário, nunca abdicou de levar o Fado para outras dimensões, de lhe introduzir novos instrumentos, de evangelizar novos poetas, de manter o nível", lê-se no mesmo comunicado.

A discográfica refere que Carlos do Carmo se preparava "para editar o seu novo álbum de estúdio, mesmo depois de ter dito adeus aos palcos, há cerca de um ano, quando havia completado 80 anos".

Em finais de outubro passado, a Universal Music anunciou em comunicado que novo álbum de Carlos do Carmo, "E Ainda?", seria editado a 27 de novembro.

Fonte da discográfica disse à agência Lusa que "E Ainda?", o último CD de Carlos do Carmo, será editado este ano.

A Universal adianta que o fadista morreu "vítima de um pós-operatório a um aneurisma da aorta abdominal".

Para a Universal Music "Carlos do Carmo foi e sempre será: A Voz".


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