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Pode a literatura esconder a pedofilia?
Opinião Cultura 9 min. 05.08.2022
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Pode a literatura esconder a pedofilia?

Foto: AFP
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Pode a literatura esconder a pedofilia?

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Opinião Cultura 9 min. 05.08.2022
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Pode a literatura esconder a pedofilia?

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Na literatura portuguesa, há pelo menos quatro autores que se referem a situações que indiciam o que os psiquiatras denominam como sendo da ordem do transtorno pedófilo.

Algumas situações de pedofilia que existem na literatura portuguesa pouca ou nenhuma atenção têm merecido da parte da crítica. Porquê? As respostas a esta pergunta não são explícitas e a própria questão nem chegou a ser formulada. Talvez porque a sociedade portuguesa, sabe-se lá durante quanto tempo, foi conivente, pelo silêncio, com a pedofilia. Sabia-se quem andava com rapazinhos e raparigas, mas quase toda a gente assobiava para o lado. Pode, por isso, dizer-se que, antes de mais, não existem respostas para uma questão que de tão incómoda nunca foi posta. 

Claro que existem algumas razões sugeridas por críticos e leitores, que se aproximam de uma tentativa, mesmo que mitigada, para responder à referida questão. Por um lado, o discurso sobre a pedofilia, sobretudo a sua criminalização, é de tal maneira recente e próprio da nossa cultura, europeia ou ocidental, que não pode servir para avaliar práticas e representações com mais de cem anos. Tão-pouco se constitui em critério para avaliar o que se passou noutras civilizações. Por outro lado, em lugar de se falar de pedofilia, para a procurar julgar, transformando escritores em réus, melhor será respeitar a poética do desejo e das pulsões, à mistura com um eventual voyeurismo, bem longe de todos os mecanismos da censura e da regulação dos comportamentos. A bem da liberdade sentimental e de expressão! 

Na literatura portuguesa, há pelo menos quatro autores que se referem a situações que indiciam o que os psiquiatras denominam como sendo da ordem do transtorno pedófilo: Wenceslau de Moraes, Manuel Teixeira Gomes, Luiz Pacheco e Herberto Helder. Vale a pena analisar a representação literária de tais situações, procurando identificar o seu significado à luz de outras situações de transgressão. O caso do incesto, em Os Maias de Eça de Queirós, deveria servir de ponto de partida para uma abordagem comparativa acerca dos diferentes modos da literatura tratar questões de transgressão sexual ou, de forma geral, dos tabus sociais. 

O primeiro caso a merecer atenção é o de Wenceslau de Moraes (Lisboa, 1854 - Tokushima, 1929). Oficial de marinha e cônsul no Japão, com uma larga experiência pelo Oriente, no seu primeiro livro de 1895, onde reuniu crónicas de jornal, contou a história de Atchan. Nascida em Cantão ou nalguma aldeia próxima, foi vendida em pequena no mercado a outra chinesa que a comprou, a troco de meia dúzia de patacas mexicanas. Tratava-se de uma prática comum, uma vez que abundavam as crianças que, para fugir à fome, eram vendidas pelo preço das galinhas... 

Em Macau, Atchan juntou-se a outras três ou quatro pequerruchas, dormindo abraçadas na mesma esteira, numa casa confortável, onde o arroz era servido em abundância e havia agasalhos para o Inverno. A dona, na expressão de Wenceslau, tinha com elas uma relação de quem empatava capital. E a regra era que, enquanto a puberdade não chegava, se pensava que os juros a retirar do investimento aumentariam consoante os cuidados dispensados às pobrezinhas. Estes eram concebidos não só em termos da sua saúde, mas também do seu aspecto. Enfim, o principal objectivo era que fossem “gentis, que o sol não as creste, que os rudes misteres não lhes roubem a frescura das formas, o mimo das mãos franzinas” (Traços do Extremo Oriente – Siam – China – Japão, Livraria de António Maria Pereira, 1895, p. 24). 

Wenceslau de Moraes misturou o seu relato autobiográfico, projectado na figura de um amigo, com a descrição de um sistema de tráfico de crianças que parecia estar generalizado na China. Neste, a dona ou “maman”, escravizando a sorte das raparigas, ficava com o maior quinhão do contrato. Enquanto, o beneficiário ou comprador, isto é, o próprio autor foi quem montou casa a Atchan, quando esta tinha quinze anos. Um modesto primeiro andar, onde a mesma era servida por uma criada velha. Ali, brincou com uma catatua das Molucas e, desprezando os trabalhos domésticos, entregou-se à leitura de novelas, que comentava na sua “linguagem mestiça, meia portuguesa, meia chinesa”. 

A avaliação da rapariga baseava-se, sobretudo, nos seus dotes corporais. Longe se estava de reconhecer que era bonita. Podia mesmo ser tida como vulgar, “débil, enfezada, acusando não só um sangue pobre, que é a herança fatal de toda aquela raça, mas também uma juventude ávida de sol e de ar, medrada entre paredes bolorentas, na penumbra das vielas húmidas e infectas” (p. 24). Tanto assim era que não possuía curvas, exibindo um peito de rapazinho e umas faces pálidas, sem vislumbres de cor-de- rosa. Os elementos da sua beleza estavam, apenas, nas mãos pequeninas, que só as chinesas possuíam, e nos olhos oblíquos, pequeninos e negros, “de boa rapariga, com quem não era custoso simpatizar” (p. 25). 

Atchan passou a receber, todas as tardes, a visita de um europeu. Sem nunca chegar a assumir que esse europeu era ele próprio, Wenceslau limita-se a referir, como sucede noutras passagens da sua obra, que ela teria passado a ser “companheira e distracção dos rudes labores coloniais” desse personagem que era um “marítimo” (p. 25). 

Para que servia a representação literária de uma relação marcada por uma extrema desigualdade? No entender do autor, não se tratava tanto de assumir, na forma possível, uma experiência pessoal. O que estava em causa, na insignificância da “pobre Atchan”, “na triste nudez da sua vida obscura”, era contrariar a narrativa distorcida de muitos visitantes europeus, com os seus respectivos relatos de viagem, acerca das filhas do império celeste. Sobretudo, quando as acusavam de serem tão brutais, quanto incapazes de exprimir quaisquer sentimentos. Conhecedor do Oriente, Wenceslau não se revia nesses relatos superficiais, onde os estereótipos abundavam. 

A prova de que Atchan não correspondia ao estereótipo da mulher ou rapariga chinesa estava no pranto em que caíra, um dia, depois de lhe falarem da sua verdadeira mãe. Vivia em Cantão, com o filho mais velho, mas a dona proibira-a de falar nela. Nada sabia deles, nem era certo se conheciam o seu destino. A tristeza e o choro em que passou a viver, desde que lhe tinham lembrado a sua verdadeira família, demonstravam que – apesar do destino cruel que tivera, por ter sido votada “desde o berço à miséria moral” – tinha sentimentos (p. 26).

 “Aquele cerebrozinho”, que vivia na modéstia de uma casita que chamava sua, podia não ter sonhos ambiciosos, nem sentia o tédio da sua existência, tão-pouco aspirava a ter mais dinheiro do que a dona retinha pelo contracto com o europeu. A única coisa que sentia era uma profunda tristeza, que a fazia chorar, por não saber da sua verdadeira mãe e irmão. Era esta dimensão sentimental que fazia dela uma “pálida flor de lótus”. 

Como interpretar a narrativa acabada de resumir? Corresponderá ela à mera naturalização de uma relação de exploração sexual de uma rapariguinha chinesa, por um oficial da marinha colonial? Lá longe, no Oriente ou na China, com os seus costumes tão diferentes, o tráfico de crianças – para satisfação de europeus e de todos aqueles que pudessem pagar os contractos, a pretexto de salvarem as crianças da miséria e da fome – não teria a sua compensação em cavalheiros que punham casa às suas jovens concubinas e eram com elas simpáticos? Que significa o facto de, no meio de tanta degradação moral – tratada com a devida distância e que não exclui uma dimensão racista acerca do sangue pobre – , existir uma frágil flor de lótus que chorava de tristeza e tinha sentimentos? 

Não é fácil responder a todas as questões acabadas de enunciar. Aliás, uma resposta conclusiva tem de tomar em linha de conta algumas interpretações sugeridas pela crítica. Por exemplo, em 1948, o escritor Castro Soromenho reconheceu que a vida de Wenceslau de Moraes podia ser considerada um drama de amor e que a sua obra estava pejada de referências à sua vida amorosa. Contudo, não deixou de sublinhar que o mesmo fora sempre um déspota em relação às mulheres, as quais foram “quase todas de humilde condição”. Assim aconteceu, na China, com Atchan, e depois no Japão com Ko-Haru e Ó-Yoné. O ponto de vista da desigualdade sublinhado por Castro Soromenho – um escritor que tão importante veio a ser na formação da literatura angolana – necessita de ser retomado. 

Alguns anos depois, Leopoldo Danilo Barreiros publicou A paixão chinesa de Wenceslau de Morais, na Agência Geral do Ultramar (1955). Em causa estava o modo como Wenceslau de Moraes tratou Atchan, mãe dos seus dois filhos, e sempre se interessou pelos seus descendentes. Através dessa investigação e das provas dadas – sobretudo, no cuidado posto na educação dos jovens por parte de um pai ausente no Japão e com a publicação das memórias de um dos filhos de Wenceslau – , encontrou-se uma justificação positiva para a miscigenação. 

Mais recentemente, em 2006, a investigadora Tereza Sena referiu que não existia qualquer “estudo criterioso” sobre as relações amorosas de Wenceslau de Morais. E acrescentou que deveriam ser retomadas as pistas fornecidas por Danilo Barreiros. Pistas essas, acrescente-se, que – se apontam para o facto de o pai ter manifestado interesse pela educação dos seus filhos, exemplificando como é que a miscigenação se podia constituir no modo português de estar nos trópicos – nunca tocaram nas condições de extrema desigualdade, evidente violência e transtorno pedófilo em que se baseou o início da relação de Wenceslau com Atchan.

 *O autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.


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