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Philippe Machado. "Às vezes a melancolia pinta as coisas"
Cultura 4 min. 12.12.2019 Do nosso arquivo online

Philippe Machado. "Às vezes a melancolia pinta as coisas"

"Até para o ano" é o primeiro filme do realizador lusodescendente.

Philippe Machado. "Às vezes a melancolia pinta as coisas"

"Até para o ano" é o primeiro filme do realizador lusodescendente.
Foto: Ricardo Silva
Cultura 4 min. 12.12.2019 Do nosso arquivo online

Philippe Machado. "Às vezes a melancolia pinta as coisas"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O filme "Até para o ano", do lusodescendente Philippe Machado, teve, na semana passada, estreia mundial no Luxemburgo.

É a primeira obra deste jovem filho de imigrantes portugueses em França. É um filme intimista que narra uma morte, mas de uma forma doce. Todos os anos os imigrantes encontram-se nas suas terras de origem. É o querido mês de agosto. Esta família não é exceção. Para os mais jovens, a aldeia portuguesa confunde-se com as férias e com o tempo, com primos e amigos da mesma idade, passados no verão. O filme tem um assunto duro mas é dado com um imenso carinho. A estreia do filme na cidade do Luxemburgo é importante: dificilmente o realizador arranjaria um local em que as pessoas se identificassem tanto com os sentimentos que "Até para o ano" espelha.

Qual a importância que teve para si o seu tio Manuel?

Teve uma imensa importância. Quando estava em Paris, o meu tio era a única pessoa de família que estava connosco. Foi uma grande perda da minha infância. Quando ele decidiu vir para Portugal de vez, tornou-se outra vez ponto de encontro da família, sempre que íamos de férias. Esse espaço tornou-se a ideia que tenho da minha infância e adolescência. Quando partiu e morreu foi quase um fim de uma época. Algo que me apercebi melhor quando comecei a escrever este filme: a morte do meu tio foi uma espécie do assinalar do fim da minha adolescência.

E deixaram de ir de férias para essa casa de família com a morte do vosso tio?

Não. Todos os anos, no "Querido mês de agosto", como se chamava o filme de Miguel Gomes, nós voltávamos à terra da nossa família. E sempre que posso ir lá, vou. Esse território significa para nós muitas coisas: os nosso avós estão lá e as nossas raízes também.

Queria que a família do meu filme fosse a mais unida e fraterna possível porque não fazia falta carregar nas cores. O acontecimento sobre o qual o filme anda à volta já é suficientemente forte.                                           

Nasceu em Paris e as raízes da sua família estão no norte de Portugal. Como é esse equilíbrio?

Desde bebé que ia o mês de julho e agosto estar com os meus avós em Portugal, mesmo sem os meus pais. Fiquei com aquele hábito de ir para Portugal. Para mim significa tudo, não posso imaginar não ir lá um ano.

Não é como aquela personagem que diz no filme: "não sei se venho para o ano, se calhar vou fazer outra coisa, quero conhecer outros sítios"?

Não. Arranjar um tempo para ir a Portugal é muito importante para mim.

É o seu primeiro filme. Porquê a escolha deste tema?

Quando comecei a escrever, decidi que tinha que fazê-lo sobre uma coisa que conheço, para ser o mais realista e sentido possível. E tinha que escrever para uma coisa que me é próxima. Este tema veio de uma forma natural. Cresci muito a escrever isto. Apercebi-me da grande importância que tinha esta parte da minha vida.

Ao homenagear o seu tio, pode ser simultaneamente um exorcismo de uma dor, mas não deixa de significar reviver esse drama. Com é que a sua família reagiu?

Por acaso os meus pais e a minha família ainda não viram o meu filme. Penso que vai ser importante para eles, se calhar vai ser um trauma, mas um bom trauma, porque é uma homenagem que é bonita.

Filmaram na casa da família, a parte dos atores que não eram profissionais tinham alguma ligação à família?

Não. Só o velhote que aparece no filme, aquele que procura uma namorada imaginária, é que tem uma ligação: é padrinho do meu pai. É a única pessoa que vem da aldeia, os outros vêm de outras partes de Portugal.

O filme depois de ser estreado no Luxemburgo vai ser exibido onde?

No próximo ano estará em Paris e depois vou tentar que participe em vários festivais. Mas estou muito feliz pela reação nesta primeira exibição aqui no Luxemburgo.

Muitas vezes nos filmes sobre a emigração portuguesa há uma certa tendência para dourar a pílula, acha que conseguiu fugir a isso?

Às vezes a melancolia pinta as coisas, mas era muito importante para mim não trazer o trágico ao trágico. Queria que a família do meu filme fosse a mais unida e fraterna possível porque não fazia falta carregar nas cores, o acontecimento, sobre o qual o filme anda à volta, já é suficientemente forte. Eu queria que o filme fosse leve e doce, para dar essa morte de uma determinada forma, que não se esgotasse nela.

É português, mas nasceu e vive em Paris. Pensa algum dia vir viver em Portugal?

Não sei. Adoro ir lá. Não digo que não à possibilidade de viver no Porto. Gosto muito dessa cidade.

Sente-se mais francês ou português?

Um pouco mais português que francês. Embora viva em Françae tenha feito lá os meus estudos. Mas tendo grande parte da família em Portugal, sinto-me mais português.


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