Escolha as suas informações

"Peter von Kant". A guerra dos sexos
Opinião Cultura 1 2 min. 09.07.2022
Crítica de cinema

"Peter von Kant". A guerra dos sexos

Crítica de cinema

"Peter von Kant". A guerra dos sexos

Foto: DR
Opinião Cultura 1 2 min. 09.07.2022
Crítica de cinema

"Peter von Kant". A guerra dos sexos

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
No final da versão de François Ozon podem correr algumas lágrimas, mas não com a intensidade do original.

O título revela as duas maiores mudanças em "Peter von Kant" relativamente ao filme original, de Rainer Werner Fassbinder, que o inspira, intitulado na sua versão inglesa "The Bitter Tears of Petra von Kant".

O mais óbvio, poderíamos pensar, está no nome. A protagonista Petra, de Fassbinder, agora é Peter, interpretado pela figura corpulenta e a transpirar masculinidade que é o ator Denis Menochet. Essa inversão de género é o fio condutor deste curioso remake de François Ozon que se declara um fã incorrigível do mestre alemão.

Ao aproveitar o material original e deixar tanta coisa boa para trás, "Peter von Kant" talvez perca um elemento crucial.

A heroína trágica que Fassbinder inventou, como uma projeção distante dos seus problemas românticos, é agora reescrita à imagem do próprio cineasta falecido, transformando a ficção numa espécie de biografia distorcida e, sobretudo, especulativa.

Depois, há a redução do nome do filme: as lágrimas amargas de Petra foram retiradas do título, simplificando-o e despojando-o da grandeza melodramática. Curiosamente, isto descreve, em grande parte, o próprio filme "Peter von Kant".

No final da versão de François Ozon podem correr algumas lágrimas mas não com a intensidade do original. A comédia toma conta do ecrã, em grande parte à custa da diva brutal e taciturna que é Peter interpretado por Menochet.

Petra era estilista. Peter, como o seu criador original, é cineasta, embora seja difícil dizer quando é que consegue encaixar o cinema numa rotina extenuante de copos e de andar de um lado para o outro no seu apartamento grande e extravagantemente decorado, vestido com um roupão.

Como no filme de Fassbinder, a ação nunca sai dos limites das paredes vermelhas e pretas desse espaço, e quanto mais tempo lá passamos, cada vez se torna mais difícil imaginar que Peter tenha alguma vida fora dele.

Até a escrita, que poderia pelo menos transportá-lo mentalmente para outros lugares, é delegada ao seu assistente aparentemente mudo Karl, que oscila entre um comportamento servil e submisso.

Resta-nos adivinhar se cabe a Karl servir as necessidades mais sensuais do seu mestre nas pausas entre as sucessivas fixações de Peter em companheiros masculinos menos constantes e menos fiéis.

Quando a atriz, amiga de Peter, Sidonie apresenta o cineasta de meia-idade a Adonis de 23 anos e aspirante a ator é amor à primeira vista. Isto para o homem mais velho, que fica completamente embeiçado. Para o jovem é uma oportunidade única: meses depois, Amir é uma vedeta, mas já a relação com  Peter vai esfriando. Este reage à fuga iminente do seu protegido com um desespero cada vez maior.$

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

A completa ausência de homens no filme original foi, em última análise, o grande poder da obra. O huis clos de Fassbinder intensifica a realidade íntima e revela como as mulheres agem e interagem em espaços privados, longe daquilo que agora se popularizou como autoridade patriarcal.

Ao aproveitar o material original e deixar tanta coisa boa para trás, "Peter von Kant" talvez perca um elemento crucial. François Ozon assina uma adaptação interessante, mas que não tem a profundidade que poderia atingir se fosse mais refletida.


Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.