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Fábio Godinho. Senhor do palco
Cultura 5 min. 02.07.2021
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Fábio Godinho. Senhor do palco

Fabio Godinho, à direita, ao lado do irmão, Marco Godinho, artista plástico.
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Fábio Godinho. Senhor do palco

Fabio Godinho, à direita, ao lado do irmão, Marco Godinho, artista plástico.
Foto: Paulo Lobo
Cultura 5 min. 02.07.2021
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Fábio Godinho. Senhor do palco

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Na semana passada apresentámos Vic, o rapaz que sonhou com café. Esta semana fala-se de Fábio Godinho, que sonhou com o palco e que tem recebido aplausos em vários palcos e países. Já se falou várias vezes dele e vai-se continuar a falar. Não será de estranhar que a história do teatro do Luxemburgo tenha o seu nome.

Fábio Godinho passou os últimas semanas no OFF, um dos festivais de teatro de maior referência no mundo e que é realizado em Avignon, França. Levou “Sales Gosses”, o espetáculo produzido pelo Teatro do Centauro e encenado pelo próprio

No dia 17 de Julho apresenta “Offrir quelques mots à la rive”, um projeto criado em cooperação com o irmão, o artista plástico Marco Godinho, no festival Water Walls, em Esch-sur-Sûre. Fábio Godinho é encenador e ator, mas nos últimos tempos tem abraçado novos projetos. O palco que é o teatro dá-lhe toda a liberdade para a versatilidade. Escreve, dança, canta e conta histórias, as suas e as dos outros. Com aproximadamente 15 anos de carreira, Fábio Godinho está a transformar-se num artista plural, sem fronteiras e sem se fechar numa bolha artística. Desdobra-se em ideias e em projetos. Há atualmente mediatismo e interesse sobre todos os projetos e cooperações do jovem. Ganhou espaço e reconhecimento.

Deve a sua abrangência e grandeza de estilos à própria natureza criativa e à formação académica que escolheu, o teatro. Foi em 2006 que partiu para Paris para frequentar o Cours Florent, um curso mais prático, que lhe permite hoje desempenhar várias funções e não ser apenas ator. Do Cours Florent passou para Sobourne, para um mestrado com a tese “Jeu et le non-jeu dans le théâtre flamand”, a investigação que lhe apresentou a particularidade da construção do personagem a partir do próprio ator do teatro flamengo e onde desenvolveu especial interesse pela encenação.

Ao longo do seu percurso académico, o lusodescendente mergulhou na vida parisiense. Viveu Paris e absorveu tudo o que a cidade tem para oferecer. É a cidade que fervilha em ideias e criações. É a cidade inspirada e inspiradora. E inspirou Fábio. Ainda durante os estudos, criou a própria companhia, a Théâtre de Personne. “Personne”, de Fernando Pessoa, o escritor português que sempre apaixonou Fábio Godinho. E é com a peça do autor português “Le previlège des Chemins” que o jovem se estreou em Avignon, em 2009 como artista. Voltou com a mesma peça em 2010 e regressou ao festival em 2016 com “Des voix sourdes”. Voltou nesta edição com “Sales Gosses” a produção luxemburguesa.

De Paris para o Luxemburgo

Nos últimos anos, Fábio Godinho tem trabalhado mais no Luxemburgo e na Grande Região. Acredita que o teatro luxemburguês começa a fazer-se ouvir e sentir. Há uma série de instituições e artistas a trabalhar de forma séria e a levar o teatro além-fronteiras. É como que se o teatro produzido no Luxemburgo tivesse atingido a maioridade, tendo agora um caminho para a liberdade, emancipação e reconhecimento. Fábio Godinho faz parte deste rol de profissionais que está na linha da frente a defender e a apresentar o teatro luxemburguês.

No entanto, não tem feito apenas teatro. Tem feito participações regulares em frente às câmaras. Do cinema, ao streaming ou a projetos artísticos pluridisciplinares. Acabou de fazer uma breve participação em Capitani, a primeira série luxemburguesa a ser exibida na plataforma de streaming Netflix e que está a ser um sucesso em dezenas de países. Na segunda temporada da série, Fábio encarna a personagem de um toxicodependente conhecedor de tudo o que acontece no bairro da Gare.

Também marcou presença nas telas de Cannes no filme “Les intranquiles”, do belga Joachim Lafosse, e coproduzido pela produtora luxemburguesa Samsa Film, uma longa-metragem que fez parte da seleção oficial do festival. Antes participou no projeto “Written by Water” de Marco Godinho filmado para a Bienal de Veneza de 2019. Trabalhos frente às câmaras e que são apenas uma parte de projetos díspares entre si e que respondem à sua natureza livre, à sua miscelânia, à sua criatividade e à sua polivalência.

Fábio, Marco e os pais

É impossível falar de Fábio sem falar de alguém que marcou e marca o seu percurso e a sua vida. Até o próprio ator tem dificuldades em falar de si sem falar do irmão, Marco Godinho. O caminho e os projetos cruzam-se variadas vezes, nunca em excesso. Em “Sales Gosses”, Marco foi o responsável cénico da cena. Em "Left to their own fate" ("Deixados à sua sorte", em português), um filme inserido no projeto “Written by Water”, da Bienal de Veneza de 2019, Fábio participa lendo em silêncio a "Odisseia", de Homero, num encontro entre a arte pela arte e a arte pela contestação e pelo não esquecimento dos que são hoje deixados ao abandono no Mediterrâneo, num projeto fiel a Marco Godinho e a sua relação com a água, tempo e espaço. Agora voltam a cruzar-se, como foi referido anteriormente, para o festival Water Walls com “Offrir quelques mots à la rive”, um projeto em que o artista plástico é responsável pelo espaço cénico e o ator pela performance com textos escritos por ambos. Acima de tudo, hoje interagem enquanto artistas e criadores. São irmãos, parceiros e cúmplices.

Fábio nunca escondeu que o irmão lhe abriu e facilitou o caminho. Filhos de uma costureira e de um operário, Fábio garante que os pais incentivaram sempre as suas escolhas. Um incentivo silencioso nada mais era que uma concordância com as opções, sonhos e anseios dos filhos. Primeiro de Marco, depois de Fábio.

Sonho de criança

O irmão era um criativo, Fábio não ficava atrás. Em criança sonhava com o palco. Sonhava em cantar, dançar e representar. Tinha uma necessidade de criar e interpretar. Não foi de estranhar que tenha entrado para a École arts et métiers, que embora não tivesse a valência de teatro, tinha uma forte componente em expressão e criação artística. E começou com as incertezas. Quis fazer muitas coisas sem ficar fechado e o teatro abriu-lhe as portas. No fundo, o teatro é a liberdade que Fábio Godinho sempre procurou. O palco é o seu espaço, onde pode ser quem quer, representar o que quer, fazer o que quer e que não impõe limites ou reservas às suas ideias.

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