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Pedro Amaral. “Gostava que a arte pertencesse às pessoas”

Pedro Amaral. “Gostava que a arte pertencesse às pessoas”

Pedro Amaral. “Gostava que a arte pertencesse às pessoas”

Pedro Amaral. “Gostava que a arte pertencesse às pessoas”


por Sibila LIND/ 16.07.2019

Foto: Sibila Lind

Não gostam de fronteiras. Procuram olhar para o lado positivo do mundo. Pintam a duas e a quatro mãos. Os Borderlovers, a dupla de artistas portugueses Pedro Amaral e Ivo Bassanti , regressaram este ano ao Luxemburgo para apresentar o projeto “Collage/Décollage”, no Centro Cultural Português – Camões. Uma exposição que retrata personalidades portuguesas e luxemburguesas, numa tentativa de enaltecer o lado "mais luminoso" da cultura e da História dos dois países. O Contacto esteve à conversa com Pedro Amaral, na véspera da inauguração da exposição.

Quando é que começou o gosto pelas artes?

Desde muito miúdo que pintava e tinha jeito. Mas apesar de os meus pais serem da classe média, havia sempre aquele preconceito de os filhos serem artistas. E não aconteceu. Acabei por tirar uma licenciatura em educação física e cheguei a ser campeão nacional de luta greco-romana de juniores. Em 2007 despedi-me para me dedicar a tempo inteiro às artes. Com 59 anos, foi a única atividade humana em que realmente me encaixei. E em que me realizei.

Como é que os Borderlovers se conheceram?

Nascemos os dois em Lisboa. O Ivo tem menos 19 anos do que eu. Conhecemo-nos no final dos anos 90, no contexto artístico de Lisboa desse período. Muito vivo, muito rico e muito independente.

Pedro Amaral (à esquerda) e Ivo Bassanti estiveram em 2018 no Luxemburgo a convite do Instituto Camões
Pedro Amaral (à esquerda) e Ivo Bassanti estiveram em 2018 no Luxemburgo a convite do Instituto Camões
Foto: Chris Karaba

Quando é que perceberam que queriam trabalhar juntos?

Desenvolveu-se logo uma empatia muito grande entre nós. Mas só em 2007 é que há uma conversa sobre a vontade de fazer um coletivo, um duo, e o nome Borderlovers surge logo aí.

Porquê Borderlovers?

Tem a ver com uma expressão psiquiátrica que é “borderline”. O Ivo tem muitos problemas psiquiátricos e eu próprio na altura também andava no psiquiatra há já algum tempo. Tínhamos um amigo em comum que era psicólogo, que só falava em “borderline”. Eu sou muito de brincar com as palavras. Surgiu Borderlovers e ficou.

Foto: Sibila Lind

Mas o coletivo só surgiu dez anos mais tarde, em março de 2017.

O Ivo foi para a Índia, depois voltou. Íamo-nos vendo, mas depois a mãe do Ivo morreu. Ele ficou muito em baixo e desapareceu. Durante algum tempo não nos falámos. Há cerca de três anos, o Ivo reapareceu em Lisboa. Contou-me que tinha um companheiro, estava a viver em França e iam abrir uma galeria em Lisboa. Combinámos que eu ia para França fazer uma residência artística com ele, em Lagery, onde ele vivia. E eu fui. Estivemos lá um mês a pintar, a quatro mãos, dia e noite. E os Borderlovers nasceram aí.

Com 59 anos, [a arte] foi a única atividade humana em que realmente me encaixei.  

De que forma é que a maneira de trabalhar de cada um influencia o outro?

Eu era um pintor mais lento, mais metódico, e o Ivo contaminou-me com o seu registo rápido. E quando fui para França foi numa altura em que a minha pintura estava doente. Eu estava inserido no mercado português de arte contemporânea e numa boa galeria, então só tentava satisfazer o mercado e imitava-me a mim próprio. Já tinha pouco prazer em pintar e a convivência com o Ivo devolveu-me isso: o prazer de pintar.

Retrato de Aristides de Sousa Mendes na exposição "Collage/Décollage"
Retrato de Aristides de Sousa Mendes na exposição "Collage/Décollage"
Foto: Sibila Lind

No vosso site dizem que a Trégua de Natal, que terá acontecido em 1914 durante a Primeira Guerra Mundial, é uma “espécie de avatar do trabalho dos Borderlovers e do seu pensamento”. Porquê?

Em 1914, as duas frentes estão a combater na fronteira com a Bélgica. Na véspera de Natal, as duas partes agitam as bandeiras brancas, saem das trincheiras, e ficam dois dias a confraternizar, precisamente no espaço entre as duas fronteiras, que é chamada a Terra de Ninguém. E esta trégua de Natal é a base da prática artística dos Borderlovers, no sentido em que procuramos transmitir mensagens de paz, cura e esperança. Para nós, o nosso território, o território imaginário de onde nós contemplamos o mundo, é essa fronteira onde os soldados pousaram as armas e se encontraram. Os Borderlovers são isso, o abolir das fronteiras.

Foi por esse pensamento que decidiram dar destaque ao retrato de Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus?

Aristides concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a quem queria fugir da guerra, entre eles luxemburgueses e a família grã-ducal. Era o cônsul desobediente. Durante anos desobedeceu a Salazar e ao Estado Novo. Na altura, o [ditador espanhol] Francisco Franco avisou Salazar que havia pessoas a passarem a fronteira e começaram a impedi-las. Aristides foi até lá para deixá-las passar, dizendo que ele tinha dado autorização.

Foto: Sibila Lind

Desde há alguns anos que as fronteiras entre países estão cada vez mais fechadas. Vemos pessoas morrerem a tentar entrar nos EUA ou a serem presas por resgatarem migrantes de morrerem afogados no mar. Como diz Salgueiro Maia, uma das figuras também representada na vossa obra, às vezes é preciso desobedecer?

É preciso desobedecermos. Porque senão vamos ter o planeta a deteriorar-se cada vez mais, as pessoas cada vez mais segregadas, o fosso entre ricos e pobres cada vez mais profundo. Porque há aqui uma capa de democracia, mas a democracia é um bocado ilusória. Os Aristides de agora estão a ser presos.

E é essa mensagem que pretendem transmitir nas vossas obras?

A denúncia e a crítica são essenciais. Mas nós estamos lá mais como “peacemakers” e produzir peças que façam as pessoas felizes, nem que seja por uns momentos. Sempre com a tónica na preocupação com o outro.

Fazem falta mais mensagens positivas neste mundo?

É preciso mudar o registo. Há uma tendência para abordar tudo pelo lado negativo. A ideia desta exposição é através destas figuras representadas tentar mostrar o lado mais luminoso de cada país, no que diz respeito à inclusão e à sua História.

Foto: Sibila Lind

No ano passado, estiveram no Luxemburgo a realizar várias obras onde associavam intelectuais portugueses e luxemburgueses. No final, as pinturas foram expostas nas fachadas de edifícios nas ruas da capital. Nesta exposição, vemos marcas da anterior?

Esta exposição vai buscar o que foi feito no ano passado. Começa onde a outra acabou. Mesmo na prática, há uma série de peças que usaram coisas que foram descoladas daqui no ano passado. Porque nós não pintamos murais. É uma espécie de mistura entre streetart e arte de galeria, porque o que nós colamos na rua são mesmo pinturas feitas à mão, únicas. No ano passado, as ruas do Luxemburgo foram a nossa galeria. Este ano estamos cá dentro.

Foto: Sibila Lind

A arte pertence a um museu ou à rua?

Eu gostava que a arte pertencesse às pessoas. Todas. E por aí, se calhar ao estar na rua é mais fácil para as pessoas identificarem-se com ela.

Fui para França foi numa altura em que a minha pintura estava doente. Já tinha pouco prazer em pintar e a convivência com o Ivo devolveu-me isso: o prazer de pintar.  

Uma obra vossa que tem uma história curiosa é a figura da “Gëlle Fra”, representada numa imagem com o rosto de frente e na outra com o rosto virado para baixo, como a conhecemos agora. Porquê estas duas representações?

Durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazis entraram no Luxemburgo, a “Gëlle Fra” foi tirada do pedestal e escondida. Algum tempo depois foi descoberta e desenterrada. Antes da guerra, a escultura estava a olhar em frente, disse-me um historiador, e depois de ter sido desenterrada ela está a olhar para baixo. E é isso que está representado nestas duas telas, com base nas imagens que o historiador me enviou.

Quando João Penalva veio o ano passado expor no Luxemburgo, no Mudam, disse numa entrevista ao Contacto que “ser estrangeiro é quase fundamental para ser artista”. Estar num país que é estranho ajuda uma pessoa a olhá-lo de forma diferente?

É uma frase muito bonita. No ano passado disseram-me: “Sabes mais sobre o Luxemburgo do que os luxemburgueses”, o que não é verdade. Mas sim, uma pessoa chega sem preconceitos e investiga. E foi aquilo que fizemos.

A exposição “Collage/Décollage” vai estar patente de 13 de julho de 2019 até 9 de outubro de 2019, no Centro Cultural Português – Camões. Pode ser visitada de segunda a sexta-feira, entre as 9h e as 17h30. A entrada é gratuita.