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Peça de Fábio Godinho: Teatro Nacional do Luxemburgo foi palco de pega de touros à ribatejana
Cultura 11 6 min. 01.10.2014

Peça de Fábio Godinho: Teatro Nacional do Luxemburgo foi palco de pega de touros à ribatejana

O Teatro Nacional do Luxemburgo assistiu pela primeira vez a uma pega de touros à moda do Ribatejo, um dos momentos altos da peça apresentada esta terça-feira pelo actor português Fábio Godinho, filho de emigrantes portugueses no Grão-Ducado.

"Que la terre m’étouffe si j’agis faussement" é o nome da peça assinada pelo actor português, que veio para o Luxemburgo com apenas dois anos, nesta que é a sua primeira incursão no teatro enquanto dramaturgo. Um texto falado em várias línguas, incluindo português, que aborda o desenraízamento e as dificuldades da emigração para as novas gerações, com muito humor à mistura.

“A peça aborda os problemas de uma geração mais jovem que vive num país que não é o seu, fala várias línguas, e mesmo assim não se sente inteiramente parte desse país, que é também aquilo que eu sinto”, contou ao CONTACTO Fábio Godinho, que também é encenador da peça, além de integrar o elenco e assinar a música, em colaboração com Jules Poucet.

O actor e dramaturgo, que estudou arte dramática em Paris, onde vive habitualmente, admite que se sente "dividido" entre os vários países a que está ligado. "As pessoas perguntam-me o que sou, aqui e em Paris, e eu às vezes não sei responder-lhes. Sou português, luxemburguês, sou francês? São questões de identidade que se vivem no dia-a-dia", diz.

Além de Fábio Godinho, o elenco integra outros actores que também são filhos de emigrantes, como o italiano Luca Besse, a espanhola Laure Rolden, e Delphine Sabat, judia-marroquina, além de Julien Rochette, "o único francês-francês". A chave das questões de identidade que atormentam as personagens pode aliás vir deste francês "de cepa": é que "a vida não é fácil, mesmo para quem não tem de se debater com questões sobre as suas origens", diz Fábio Godinho. 

A cenografia minimalista, composta por uma bandeira branca assente em terra e por árvores portáteis "cultivadas" em "jerrycans", é assinada pelo artista plástico Marco Godinho, irmão do actor.

Fábio Godinho, de 28 anos, é licenciado em arte dramática pela prestigiada escola de teatro francesa Cours Florent e pela Sorbonne, tendo estudado dança contemporânea também em Paris.

O actor, que vive entre o Luxemburgo e a capital francesa, apresentou em 2009 e 2010 uma encenação com textos de Fernando Pessoa no festival de Avignon e foi finalista em 2013 do prémio Théâtre 13, atribuído a jovens encenadores, com a peça "Hôtel Palestine", de Falk Richter.

"Que la terre m’étouffe si j’agis faussement", a peça com que se estreia enquanto autor, resultou de uma residência em Liège e no Luxemburgo patrocinada pelo Total Théâtre, uma estrutura europeia que apoia a criação teatral, reunindo seis instituições teatrais das regiões fronteiriças da Bélgica, Alemanha, Holanda e Grão-Ducado. Na terça-feira, a peça subiu ao palco pela primeira vez.

Duas peças em que se ouviu falar português

Os temas da identidade e do multilinguismo inspiraram outra peça que subiu ao palco do TNL esta terça-feira, assinada pela encenadora e dramaturga portuguesa Tatjana Pessoa, a viver na Bélgica.

Falada em dez línguas, incluindo português, "Whatsafterbabel" explora várias vertentes da "Babel europeia e do multilinguismo europeu", como a questão da identidade, da comunicação e da "exclusão que nasce da incompreensão", disse ao CONTACTO a autora e encenadora, que tem nacionalidade belga e portuguesa e é sobrinha-bisneta do poeta português Fernando Pessoa.

No texto de apresentação da peça, a autora e fundadora da companhia de teatro belga "Collectif Novae" recorda a frase "a minha pátria é a língua portuguesa", da autoria de Fernando Pessoa, seu tio-bisavô, considerando-a um "testemunho de lealdade ao idioma e não ao país", uma ideia com que se identifica e que desenvolve na peça.

Nascida em Bruxelas em 1981, filha de mãe portuguesa e pai suíço, Tatjana Pessoa, que fala cinco idiomas e já viveu em países como a Alemanha, Burkina Faso e Costa do Marfim, admite que "a noção de pátria não tem significado" para si, considerando "naturais" o multilinguismo e a pertença a vários países.

"Eu não me defino por um país ou por uma pátria, e as perguntas 'de onde vens' ou 'qual é a tua nacionalidade' são questões que para alguns de nós, na Europa, deixaram de ter significado", defende a dramaturga portuguesa.

A peça "é uma reflexão sobre como conseguimos compreender-nos na União Europeia falando várias línguas e sobre as dificuldades de comunicação", pondo em destaque "mais os pontos de convergência do que as divisões que as línguas naturalmente também trazem", adiantou Tatjana Pessoa.

"Temos hoje uma realidade de movimento e de emigração na Europa, mas leva tempo até apagar as fronteiras, porque é uma realidade relativamente recente", diz a encenadora, para quem a União Europeia "tem de escolher entre ir na direcção da uniformização e fechar-se, ou abrir-se à multiplicidade".

A bisavó materna da encenadora era prima de Fernando Pessoa, e a dramaturga diz que as afinidades com o poeta português vão para além do parentesco.

"Quando eu era pequena ficava muito orgulhosa quando via as notas de 100 escudos com o Fernando Pessoa e me diziam que éramos da mesma família”, recorda Tatjana Pessoa, que mais tarde viria a descobrir a obra do tio-bisavô e a ideia de "identidade múltipla", com a qual se identifica.

Licenciada pelo Conservatório de Liège, na Bélgica, Tatjana Pessoa é também autora de "Lucien", uma peça sobre a emigração portuguesa encenada em Bruxelas em 2013, tendo além disso traduzido várias peças de teatro e sido assistente de encenação do dramaturgo alemão Falk Richter e da coreógrafa holandesa Anouk van Dijk.


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