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Paulo Costa. "O Museu nunca teve a ideia que havia povos inferiores"
Cultura 6 min. 11.08.2019

Paulo Costa. "O Museu nunca teve a ideia que havia povos inferiores"

Paulo Costa. "O Museu nunca teve a ideia que havia povos inferiores"

Foto: DR
Cultura 6 min. 11.08.2019

Paulo Costa. "O Museu nunca teve a ideia que havia povos inferiores"

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Museu Nacional de Etnologia: Em Lisboa, um museu de vanguarda, que nunca foi do ‘Ultramar’

Situado no Restelo, de onde se avistam séculos de história através do Mosteiro dos Jerónimos e do Padrão dos Descobrimentos, o Museu Nacional de Etnologia encontrou aqui casa definitiva em 1975. Um projeto ‘de vanguarda’, nascido dez anos antes, que, como diz o seu diretor, Paulo Costa, nunca teve um discurso colonialista. Atualmente, fora do eixo do turismo, o museu tem vindo a perder visitantes, embora albergue uma memória preciosa da cultura popular.

 Como é que este museu faz o discurso sobre o passado colonial português?

O Museu Nacional de Etnologia (MNE) nasceu muito mais tarde que o de Tervuren (em Bruxelas) e nunca teve um discurso no sentido de mostrar as peças de outros povos como sendo culturalmente inferiores ao de Portugal como país colonizador. Antes pelo contrário. O termo que era utilizado com grande regularidade era o do universalismo. O programa do museu era fazer representar todas as culturas, colocadas e mostradas com igual estatuto de dignidade, incluindo a cultura portuguesa. Nos vários museus de etnologia da Europa isto não acontecia. Eram dedicados aos outros povos e nunca representavam a cultura da própria metrópole. Este museu foi criado na sequência de um estudo que a equipa fundadora fez desde o final dos anos 40 e em que ao longo de mais de 20 anos fez um levantamento exaustivo e sistemático da cultura tradicional portuguesa, não havia ainda sequer a ideia de fazer um museu. Quando foi criado em 1965 era um museu de vanguarda em relação aos outros museus da Europa. Precisamente porque se demarcava deste espírito. O objetivo era projetar a dignidade de todas as culturas.

Portanto é difícil compará-lo..

Este museu não pode ser comparado com outros que datam do princípio do século XX que tinham muito esse discurso: ’Nós e os outros’. Isso não aconteceu aqui porque na origem do museu esteve um trabalho de pesquisa de uma equipa qualificadíssima que foi também a equipa que fundou a Antropologia em moldes modernos em Portugal e fez a Antropologia entrar na Universidade.

O tal trabalho de 20 anos

Que foi um projeto absolutamente notável, de uma enorme envergadura, dirigido pelo Jorge Dias. A equipa calcorreou todos os pontos deste país para perceberem a diversidade cultural de cada região, de cada concelho e isso foi tudo sistematizado e mapeado. Foi um trabalho desenvolvido durante os 40 anos de existência deste centro de estudos de Etnologia. E que é uma das linhas de pesquisa científica que vai ser a postura do museu para outras culturas. A base é sempre a da investigação científica, a produção de conhecimento.

Portanto em Portugal nunca houve esse discurso do colonizador que leva a civilização às colónias…

Neste museu não houve. Mas quando olhamos para a pouca literatura que existe em Portugal sobre a produção de outros países, sobretudo África, muitas vezes as peças eram olhadas de forma depreciativa. Não podemos ignorar que muitas coleções, muitas delas recolhidas por missões religiosas, essas sim íam no sentido de mostrar que os artefatos eram fetiches, eram manipanços, ou seja, era algo que estava no universo da magia, de cultos inferiores ao da religiosidade cristã.

Como é que a atitude do MNE funcionou com o regime de então?

Deve ter sido mesmo muito difícil e deve ter havido bastantes tensões com a tutela. Porque o museu foi criado como Museu de Etnologia do Ultramar, mas nunca a equipa que o criou fez o mais pequeno trabalho que se desviasse do seu programa científico. E as primeiras peças que aqui entraram foram portuguesas. Eles bateram o pé para fazer este museu representativo da maior diversidade do planeta possível. E isso sempre aconteceu.

Quem teve a ideia de fazer o museu?

A equipa fundadora foi encarregue de constituir este museu na sequência de um projecto de investigação que o Jorge Dias e a Margot Dias desenvolveram no Norte de Moçambique entre os maconde, de 1957 a 1961, e que dá origem a uma das maiores monografias sobre um povo africano, publicado em quatro volumes ao longo da década de 60. Essa missão de investigação assinala o momento de viragem de Jorge Dias, que até então estava absolutamente consagrado aos estudos da cultura material portuguesa. Margot Dias fez uma série de filmes etnográficos de uma forma intensiva, sistemática, pela primeira vez. Esta pesquisa levaria a uma exposição no Palácio Foz, em 1959, que se chamou ‘Vida e Arte do Povo Maconde’. E de repente aquela exposição mostra pela primeira vez este trabalho qualificado, sustentado cientificamente sobre um povo africano. Daí a vontade do Governo de entregar a esta equipa do Jorge Dias a organização do museu. Essa missão é constituída em 1962. Todos os elementos da equipa que trabalhavam em Portugal, estavam a viver no Porto e vêem para Lisboa para começar a fazer o museu que seria fundado em 1965. Até 1975 estará em instalações provisórias. Em 1975 inaugura-se neste edifício no Restelo, que é o primeiro edifício público de um museu nacional construído de propósito para ser um museu. E resulta de um trabalho programático que a equipa desenvolve desde os anos 60. Eles visitaram museus em toda a Europa, incluindo de Leste. O Ernesto Veiga de Oliveira, o Fernando Galhano, o Benjamim Pereira e o Jorge Dias também. É um projecto modernista a muitos títulos. Eles criaram novas soluções adaptadas aos tempos modernos e perspectivando o museu para o futuro. E depois era uma equipa que vivia só para o trabalho. O Benjamim Pereira, que é o único elemento que está vivo, tem 90 anos, uma vez disse-me que não faziam mais nada. Viviam todos perto em duas ou três casas em Oeiras e trabalhavam o tempo todo, paravam para comer.

O ponto de vista colonialista que interessava se calhar ao regime ficou de fora.

A equipa fundadora tinha a vontade de fazer este museu representativo da maior diversidade cultural do planeta possível. E é nesse sentido que temos 380 culturas de 80 países representadas. Bem para lá daquilo que era o número das colónias portuguesas. Uns dias após o 25 de Abril, o museu abandona a designação de ‘Ultramar’. Que de fato nunca foi apenas um museu do Ultramar. Aliás, a primeira exposição que o museu fez, noutras instalações, em 1968, é uma exposição sobre a alfaia agrícola portuguesa. De objectos que tinham sido recolhidos no terreno ao longo dos tais 20 anos de investigação que faz hoje parte do espólio do museu. No tal programa de documentar aquela cultura material em vias de desaparecer. Os trabalhos da equipa deram origem a 50 grandes monografias e durante 40 anos eles publicaram um total de 500 títulos. Só sobre Portugal, um acervo que continua a ser importantíssimo.

É uma base de dados impressionante.

Estamos a digitalizar os arquivos que foram feitos e que resultaram na produção deste conhecimento. Ja temos as 14 mil fichas do terreno digitalizadas. O arquivo fotográfico que eles produziram nestes 40 anos tem 89 mil imagens. Precisaríamos de fundos um pouco expressivos para poder digitalizar, preservar e divulgar. Nos últimos quatro anos temos vindo a fazer este trabalho com os nossos próprios meios internos. Até ao momento, já digitalizámos o nosso arquivo de 2.700 desenhos etnográficos. Em breve irá ser disponibilizado online. Estivemos também a digitalizar um arquivo pessoal de um etnomusicólogo que foi legado ao Estado. Mas temos estado a fazer este trabalho apenas com os nossos recursos humanos, que são muito poucos. Precisaríamos de muitos mais meios. Os museus portugueses estão a passar por um longo período de dificuldades, com muitas carências.

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