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Para estas adolescentes, Anne Frank não é um ícone mas uma pessoa
Cultura 1 5 min. 28.11.2018

Para estas adolescentes, Anne Frank não é um ícone mas uma pessoa

Sibila LIND
Sibila LIND
Duas estudantes dão a conhecer o diário de Anne Frank e, através dele, o mundo de uma adolescente. A exposição “Anne Frank – A History for Today” pode ser vista até dia 2 de dezembro na Escola Internacional do Luxemburgo.


Amy Zhuang dá uma última vista de olhos às imagens nos placares antes de começar a sua primeira visita guiada à exposição. Já tinha ouvido falar sobre Anne Frank, mas apenas quando recebeu o convite para ser guia da exposição é que entrou no mundo da menina judia e leu pela primeira vez alguns excertos do seu diário. “Sinto que é como perceber o Holocausto e a Segunda Guerra Mundial através do olhar de uma adolescente”, conta Amy, de 16 anos. “Não é tão factual, mas sim uma visão mais pessoal”.

Amy chegou a escrever num diário, mas deixou. “Tenho preguiça”, confessa. Quando lhe perguntamos se nasceu no Luxemburgo diz logo que não e ri. “Nasci em Xangai, na China”. Há três anos, veio para o Grão-Ducado e entrou para a Escola Internacional do Luxemburgo (ISL), a instituição que acolhe a exposição itinerante “Anne Frank – A History for Today” (Anne Frank – uma história para os dias de hoje), uma parceria com a Embaixada da Holanda no Luxemburgo e a Casa de Anne Frank, na Holanda.

DR

Ao acompanharmos a visita guiada de Amy, vamos percebendo de que forma a exposição foi construída. No andar de baixo, temos um painel com texto, citações e imagens mais centrados no Holocausto e na Segunda Guerra Mundial. Ao subirmos para o segundo andar, um outro painel revela-nos a planta da casa onde Anne Frank esteve escondida e alguns excertos do seu diário; por fim, entramos num espaço amplo escuro, com um vídeo a ser projetado que resume a história da menina e da sua família. Anne Frank tinha 13 anos quando foi obrigada a esconder-se com os pais e a irmã num anexo secreto de uma casa, na Holanda. Dividiu o espaço com ainda mais quatro pessoas, todas elas, assim como Anne, de origem judaica. Lá viveram durante dois anos, até serem descobertos pela polícia alemã, que os enviou para Auschwitz. Anne morreu em 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen. Apenas o pai, Otto Frank, sobreviveu. E, um diário, que ficou para trás no sótão. Dois anos depois, foi publicado “O diário de Anne Frank” que, desde então, já foi traduzido para mais de 70 línguas.

Amy Zhuang durante a visita guiada na ISL
Amy Zhuang durante a visita guiada na ISL
Sibila Lind

“O que acho que é realmente interessante nesta exposição é que ela não se foca apenas na história de Anne Frank mas também nas pessoas que a rodeavam. Naqueles que a ajudaram a esconder-se ou naqueles que se esconderam com ela. E, aprendemos também sobre a Segunda Guerra Mundial e os nazis”, diz Amy. “Apesar de se chamar a 'Casa de Anne Frank', não é apenas sobre ela, e eu acho que isso é bom”.

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Amy começa a segunda visita guiada com um grupo de cerca de 15 pessoas. Mas há mais curiosos a entrar. A seu lado, mas numa visita diferente, tem uma das suas colegas, Saskia Frank. “Não tenho qualquer parentesco com a família de Anne Frank”, brinca Saskia que, assim como Amy, é uma dos 15 estudantes que se voluntariaram para ser guias da exposição de Anne Frank. “Um dos seus maiores conflitos foi crescer. Saber ‘quem sou eu enquanto pessoa?’, ‘quem sou eu enquanto mulher?’, e isso é algo que eu quero sublinhar ao longo da exposição”, conta Saskia. “Porque todos conhecem a história de Anne Frank, mas quando descobrimos os detalhes, percebemos que ela é sobretudo uma pessoa, mais do que num ícone da História”. Saskia tem apenas mais três anos do que Anne Frank quando começou a escrever o diário, e, apesar dos 70 anos que as separam, a estudante admite que consegue rever-se na história de Anne Frank e nos seus desabafos. “Eu não tenho um diário, mas o que ela escreve é muito diferente do que eu escreveria. Mas, ao mesmo tempo, há semelhanças. Ela escreve sobre a anatomia feminina, sobre como é tornar-se uma mulher, ter o período e outras coisas. É algo com que todas as mulheres se conseguem relacionar. E há momentos em que se queixa da irmã e, apesar de eu não ter uma irmã mais velha, tenho um irmão mais velho e ele também consegue irritar-me bastante”, ri Saskia. “E isso é o que é tão incrível na história dela, o fato de algo que foi escrito há tanto tempo, durante um período tão horrível, ainda parecer muito presente, muito atual”.

Saskia Frank durante a visita guiada na ISL
Saskia Frank durante a visita guiada na ISL
Sibila Lind

Para ser guia da exposição, Saskia teve de passar por uma formação com dois representantes da Casa de Anne Frank. Durante três dias, aprendeu não só sobre a história por detrás do diário, mas também sobre questões ligadas a direitos humanos e diversidade cultural. “Anne Frank – A History for Today” já percorreu o mundo e pode agora ser vista na ISL, com ou sem visitas guiadas pelos alunos da ISL, da Escola Europeia e da Escola Internacional St. George’s. A entrada é gratuita, mas é preciso reservar, e, para os próximos dias – 1 e 2 de dezembro (13h30 às 15h30) – a diretora de desenvolvimento da ISL, Margot Parra, garante já ter 400 pessoas inscritas. Para quem não tem a hipótese de ir à Casa de Anne Frank, esta exposição acaba por transmitir uma parte desse universo e, até a vontade de ler o livro. “Quando lemos o diário, já sabemos o que é que vai acontecer, é uma história mundialmente conhecida”, conta Saskia. “Mas, mesmo assim, não conseguimos deixar de pensar que talvez as coisas mudem, o que é meio ingénuo, mas, no fundo, é o que a esperança faz às pessoas. E foi isso o melhor que Anne Frank nos deixou. Algumas pessoas sobreviveram, mesmo que não seja o caso deles, algumas conseguiram, conseguem e vão sobreviver”.

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