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“Os oprimidos têm sempre razão e os opressores estão sempre errados”
Cultura 9 min. 18.11.2022
Colonização

“Os oprimidos têm sempre razão e os opressores estão sempre errados”

Mário Pinto de Andrade, por António Domingues, Cacilhas, 1952
Colonização

“Os oprimidos têm sempre razão e os opressores estão sempre errados”

Mário Pinto de Andrade, por António Domingues, Cacilhas, 1952
Foto: DR
Cultura 9 min. 18.11.2022
Colonização

“Os oprimidos têm sempre razão e os opressores estão sempre errados”

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Vale a pena procurar compreender melhor o exemplo de Orwell, em relação à sua própria experiência de agente do colonialismo britânico, rompendo com simples oposições entre oprimidos e opressores.

George Orwell é o autor da frase que dá título a esta crónica. Mas, atenção, ele próprio considerou-a não só redutora, por dar conta de uma “teoria simples”, mas também uma “teoria falsa”. Fê-lo numa das suas primeiras obras, O Caminho para Wigan Pier (1937), apresentando-a como conclusão do relato da sua experiência na Birmânia, onde serviu nos altos quadros da polícia durante cinco anos (trad. de José Lima, Livros do Brasil, 2021, pp. 176-180). Foi nesse quadro coercivo que fez parte da “engrenagem do despotismo” e assistiu “de perto ao trabalho sujo do Império”.

Nessa sequência, escreveu que a violência colonial na qual participou – sobretudo a que estava directamente relacionada com os cárceres, os castigos corporais e os enforcamentos – o levou a sair do lugar do opressor, abandonando uma carreira colonial e o lugar de um dos “indesejáveis invasores estrangeiros”. Tal foi a intensidade dessa experiência que, desde essa altura, aquilo que mais desejou foi pôr-se do lado dos oprimidos. De tal modo odiou qualquer tipo de opressão que passou a achar o fracasso na vida a única virtude que estava ao seu alcance praticar. Mais: qualquer tipo de progresso pessoal, mesmo que se traduzisse apenas em ganhar umas tantas libras por ano, afigurou-se-lhe uma coisa “espiritualmente vil, uma espécie de provocação”.

Com a distância ganha em relação a essa mesma experiência, Orwell deixou de ver o mundo como estando organizado em simples antinomias, como era aquela que opunha os opressores aos oprimidos. No seu entender, ao lado da sua experiência enquanto oficial da polícia colonial, ele próprio desenvolveu – em conjunto com muitos dos seus pares que integravam os quadros da administração do Império Britânico – um ódio em relação ao imperialismo. Foi aos poucos que tomou consciência do que era o seu trabalho, enquanto polícia e carrasco, a ponto de ter “começado a sentir um asco inexprimível pela totalidade da engrenagem da chamada justiça”. De uma das vezes, um missionário norte-americano, ao observar o tormento imposto a um suspeito, por um dos subinspectores nativos, fez questão em desprezar o seu trabalho, mais concretamente, envergonhou-o. “Mas eu teria sentido a mesma vergonha mesmo se não houvesse ninguém que mo fizesse ver”.   

Uma outra situação contribuiu também para devolver a Orwell a consciência da injustiça e da tirania insuportáveis que caracterizavam o sistema colonial de que fazia parte. Foi no decurso de uma viagem noturna de comboio que se cruzou com um outro funcionário ligado ao sistema educativo, cujo nome nunca soube. Sem conseguirem dormir, passaram a noite à conversa. Depois de se terem ambos assegurado de que o outro podia ser considerado uma pessoa de confiança, ou seja, que não iria servir de delator, e também com algumas garrafas de cerveja no bucho, estiveram várias horas a criticar o Império – “amaldiçoámo-lo do seu interior, conhecendo-o bem e conhecendo-o de perto”. A conversa fez bem aos dois, mas de manhã, quando chegaram ao ponto do seu destino, “separámo-nos envergonhados como um par adúltero”. Tinham falado de coisas proibidas, só lhes restava um pacto de silêncio.

Claro que essas vignettes do missionário e da viagem de comboio não foram, para Orwell, um dado isolado. Elas funcionaram como exemplos de uma descrença protagonizada pelos próprios responsáveis do sistema colonial. Uma descrença que ia ao ponto de criar um modo de disjunção entre aquilo que se fazia e as críticas suscitadas pelos mesmos. Um modo de duplicidade, que foi minando o próprio sistema em que já ninguém, “de dentro”, acreditava. Conforme pôde generalizar: “por toda a Índia há ingleses que em segredo detestam o sistema de que fazem parte; e só ocasionalmente, quando têm a certeza de estarem a falar com alguém de confiança, deixam que o seu oculto ressentimento venha ao de cima”.

A razão pela qual procurei reconstituir, aqui, a argumentação de Orwell – a respeito da sua experiência colonial e do modo como a sua narrativa sugere a existência de uma espécie de duplicidade – tem um propósito claro, a saber, o de ajudar a ultrapassar antinomias simplistas e falsas. À luz das mais diversas configurações coloniais, a simples oposição entre oprimidos e opressores não dá conta das situações que procuramos explicar, nem tão-pouco podemos pensar que a violência tenha sido exercida num único sentido.

O escritor Adam Hochschild – mais conhecido pelo seu livro O Fantasma do Rei Leopoldo: uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial, trad. Manuel Ruas (Caminho, 2002; 1.ª ed., 1998) – evocou, muito recentemente, a vignette de Orwell acerca do que se passou no comboio, na recensão a dois livros sobre as crueldades praticadas pelos impérios britânico e francês (“The Cruelties of Empire”, New York Review of Books, LXIX, 18, Novembro 24, 2022).

No entanto, Hochschild fê-lo num sentido com o qual dificilmente posso concordar, pois não tem em conta o sentido de conjunto da argumentação de Orwell. Mais precisamente, para este último, constatar a duplicidade vivida por polícias e administradores coloniais impede-nos de pensar o colonialismo com base em simples antinomias de opressores e oprimidos. Enquanto, para Hochschild, a historieta do comboio continua a partir da mesma oposição entre opressores e oprimidos, servindo apenas como introdução a uma série de revelações acerca da parte escondida do colonialismo: as crueldades de que poucos falam, muito especial os historiadores europeus e norte-americanos.

Numa apreciação cabal do grande livro de Caroline Elkins, Legacy of Violence: A History of The British Empire (Knopf, 2022), Hochschild não deixa de considerar que os níveis de violência praticados pelos britânicos nos seus diferentes territórios em África ou na Malásia, variaram consoante os seus diversos interesses económicos. Um caso extremo foi constituído pela repressão exercida sobre os Mau Mau, no Quénia, com recurso a campos de concentração e à exibição pública dos rebeldes. Todavia, insisto, o que continua a estar em causa – pelo menos para quem se inspira ou traz à colação a argumentação de Orwell – é a falsidade ou simplismo das perspectivas coloniais que se baseiam em antinomias.

Para quem estuda os impérios coloniais europeus, sobretudo em África, a questão da violência, física e simbólica, porque fundada em discriminações racistas, exercitada no sentido vertical, isto é, imposta pelos opressores sobre os oprimidos tem sido objecto de inúmeros tratamentos. A literatura e os seus críticos – de Joseph Conrad a Mark Twain, de Orwell a Hannah Arendt, ou, numa outra escala, das memórias de Ladislau Batalha a Alfredo Margarido, do Lugar de massacre de José Martins Garcia a Cus de Judas de Lobo Antunes – contêm em si muitos ensinamentos que não se esgotam em meras antinomias.   

No caso das lutas de libertação e dos movimentos anticoloniais que se constituíram contra o Império Português, sobretudo em África, a força das antinomias revestiu uma intensidade exemplar. A partir de meados da década de 1950, a oposição entre opressores e oprimidos, em manifestos e escritos de intervenção com ampla circulação internacional, fez uso abundante da referida oposição. A luta de emancipação em curso opôs, a uma famigerada ideologia luso-tropicalista alocada ao sistema colonial e aos seus representantes, a denúncia de inúmeras formas de discriminação, sofrimento, exploração e violência, de que padeciam as vítimas oprimidas. 

A revista francesa Présence Africaine, onde Mário Pinto de Andrade colaborou, o jornalista britânico Basil Davidson em inúmeras publicações, algumas delas editadas por Victor Gollancz (o mesmo que encomendara, antes da Segunda Guerra, o inquérito sobre Wigan Pier a Orwell), académicos norte-americanos como James Duffy e Marvin Harris ou, mais tardiamente, o historiador inglês Charles Boxer, alimentaram essa oposição. Em causa estava a oposição entre, por um lado, o lusotropicalismo da integração social e harmonia racial, de carácter oficial e, por outro, a denúncia das forças violentas ou racistas. Um dos melhores exemplos da mesma antinomia encontra-se no panfleto do antropólogo da Universidade de Columbia, Marvin Harris, Portugal’s African “Wards” – A First-Hand Report on Labor and Education in Mozambique (Nova Iorque: American Committee on Africa, 1958).

Mais de sessenta anos volvidos sobre essa simples antinomia, continuam a ser inúmeras as formas de a repetir. Nos discursos oficiais, as tretas lusotropicalistas surgem associadas à cultura das comemorações dos Descobrimentos e do Portugal pioneiro da Ciência. Por sua vez, a historiografia dita progressista de esquerda parece ter estacionado na rememoração do antirracismo e da denúncia da violência colonial, conjugado agora com uns pós do imperialismo de uma razão universal de inspiração norte-americana (mesmo quando travestidos das epistemologias do Sul).

A força da referida antinomia não está só presente nos discursos oficiais e na historiografia de bandeira progressista. Ela encontra-se, também, presente nas Memórias de um caçador de lixo: a Mafalala e os bairros suburbanos de Maputo sob domínio colonial português, eds. Nuno Domingos e Mário Cumbe (Outro Modo, 2022). O seu autor, Celso Mussane (1957-), é um pastor evangélico moçambicano, que aos sete anos recolhia lixo. O seu depoimento, como indica de forma explícita, procura manter viva a memória do Inferno que foi o colonialismo na Mafalala, contra os que continuam a considerar que a vida em Lourenço Marques, nas décadas de 1960-1970, foi um Paraíso de harmonia racial. Por outras palavras, a força da antinomia está por todo o lado e a leitura de memórias como a de Mussane exige interpretações a contra-corrente, ou seja, que não sejam literais ou se limitem a reproduzir os termos em que ele pensa o mundo em que viveu.

Por todas as razões apontadas, vale a pena procurar compreender melhor e adoptar o exemplo de George Orwell, de forma crítica e vigilante, em relação à sua própria experiência de agente do colonialismo britânico. Em lugar de aceitar simples antinomias, melhor será encontrar os instrumentos que permitam romper com tais oposições. A noção de duplicidade, incluindo nela a descrença dos próprios agentes no sistema colonial de que fizeram parte, é um desses instrumentos. Mas muitos outros instrumentos analíticos, que permitem ver mais longe, existem. E, claro, todos eles devem ser usados e afinados  para romper com as visões simplistas e falsas, que não permitem fazer compreender o que foi a história do colonialismo.

(Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

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Foi dos socialistas submetidos à disciplina partidária – mas mantendo os seus hábitos e os seus privilégios, bem como os seus complexos de atracção pelas classes altas, no fundo desprezando e pouco se ralando com os trabalhadores e miseráveis – que Orwell também se quis apartar.