OPINIÃO: Mudar o Mudam

Foto: Guy Wolff

Por Hugo Guedes - Poucos o sabem, mas há um museu de arte contemporânea no Luxemburgo: situa-se no parque dito “das três bolotas”. As primeiras palavras deste parágrafo devem ser entendidas em jeito de provocação, pois claro que toda a gente conhece e visita o Mudam. Ou talvez não. O museu nunca entrou nos hábitos ou no imaginário dos residentes no Grão-Ducado; o impacto destes seus 11 anos de existência é ainda menor se restringirmos a avaliação apenas à comunidade lusófona (por exemplo, actualmente o sítio web do museu pode ser consultado em francês, alemão, inglês, japonês, mandarim… e coreano, mas nem sinal da língua portuguesa). E no mapa internacional dos museus, apesar do extravagante edifício assinado por um arquitecto de grande renome, o Mudam simplesmente não aparece.

O que nasce torto tarde se endireita, e o Mudam nasceu torto: passaram 17 anos desde que o projecto se iniciou até à inauguração, e o novo-riquismo de querer construir um edifício “de autor”, com orçamentos elevadíssimos de construção (mais de 110 milhões de euros a preços actuais) e manutenção (custos de electricidade muito superiores ao previsto…), apenas deixou de sobra verbas muito modestas para a aquisição de obras. Isto num país que não contava com nenhuma colecção de arte moderna e tinha de começar do zero. Acrescente-se a tudo isto que o modelo original de financiamento se baseou em mecenas e filantropos que nunca apareceram, ficando a factura anual de 6,9 milhões para ser paga pelos contribuintes. Como cereja no topo do bolo, a direcção sempre foi mais política que artística – impondo uma “preferência por artistas luxemburgueses” que, na prática, deixou o museu a funcionar em circuito fechado, pelos mesmos de sempre para os mesmos de sempre.

É com este cenário que se depara Suzanne Cotter, a australiana que acaba de ser anunciada como a próxima directora do Mudam e que aprendeu português ao gerir, nos últimos cinco anos, o Museu de Serralves no Porto. O seu trabalho ali tem sido notável, abrindo ainda mais à cidade uma instituição que é vivida e absorvida pelos portuenses e visitantes; Serralves é, em certo sentido, tudo que o Mudam gostaria de ser e não é. Além da recente colecção de Miró, o museu português ofereceu ultimamente exposições de nível mundial (Wolfgang Tillmans ou Helena Almeida, por exemplo) e recebe num só dia do Serralves em Festa tantos visitantes como o Mudam no ano inteiro… Mas Cotter falou numa “oferta irrecusável”, e isso não significa apenas o novo salário: há também o desafio de mudar o Mudam, um novo começo. Pode ser que o país mais rico da Europa consiga finalmente transformar algum desse dinheiro em cultura.

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