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Opinião. Impressões

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Foto: Claude Monet
Editorial Cultura 4 min. 13.06.2019

Opinião. Impressões

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
As multidões que hoje ocupam cada recanto do jardim, bordejam todo o charco, preenchem a ponte japonesa e ocupam a sala de estar da casa não conseguem ainda assim destruir a experiência de visitar o museu Monet de Giverny, perto de Paris.

"Vanilla Sky" é um filme/projecto/veículo construído para a glorificação de um Tom Cruise que estava, naquele ano de 2001, no topo do estrelato, nada afectado pelo seu divórcio com Nicole Kidman ou pela sua propaganda incessante à seita da cientologia. O filme não passa de uma réplica menos interessante – e altamente egocêntrica – do excelente original em espanhol, "Abre los Ojos", dirigido por Alejandro Amenábar. Mas enquanto o título deste último se refere simplesmente ao despertador com a voz de Penélope Cruz, os "céus de baunilha" do título da fita norte-americana encerram desde logo uma referência aos quadros de Claude Monet, um dos quais ("O rio Sena em Argenteuil") aparece no próprio filme por conter um desses tais céus diáfanos, relaxantes, tão fantásticos que parecem irreais.

Reflectindo o seu prestígio entre o público norte-americano e apesar de ter morrido em 1926, quando o cinema ainda estava na sua infância e nem sequer incluía som ou cor, o pintor Monet é um favorito de Hollywood: os seus quadros aparecem em "O caso Thomas Crown", em "Titanic" (curiosamente, um filme que estreou no mesmo dia de "Abre los Ojos"), em "House of Cards", e ainda obviamente nos inúmeros documentários sobre a sua vida e obra.

Se fosse vivo, Monet sem dúvida estaria interessado por estas imagens coloridas em movimento. Já septuagenário, ele posou de bom grado para a câmara de filmar em dois minutos mágicos que mostram o mestre com a sua longa barba, todo vestido de branco e de chapéu no seu jardim de Giverny, ao lado do famoso charco, terminando uma das suas célebres pinturas de nenúfares. As imagens foram captadas em dia solarengo do verão de 1915, uma altura difícil da vida do artista: as trincheiras da Grande Guerra soterravam corpos a meros 300 km dali, a sua segunda mulher e o seu filho mais velho tinham ambos morrido há pouco tempo, e a sua visão estava cada vez mais afectada por cataratas. Mas apesar desses desastres, Monet acabaria por recuperar para uma última década de vida extremamente produtiva. É desse período que datam grande parte das suas obras mais conceituadas, sempre com o seu jardim como "modelo".

O artista, ainda longe de ser endinheirado mas já com oito filhos a cargo (dois biológicos e seis da segunda mulher), mudou-se para uma casa alugada em Giverny depois de ter reparado na aldeia desde a janela do comboio onde viajava. Monet acabaria por comprar a casa onde viveria por mais de quatro décadas, mas os inícios foram duros, até porque os camponeses locais, astutos, rapidamente se aperceberam que se podiam aproveitar deste personagem. Pediam ao mestre o pagamento de um imposto por atravessar as suas terras, ou por manter a meda de feno no mesmo local para ser pintada, por exemplo. Mas a persistência da família em integrar-se, além de melhorar e ampliar a casa e os jardins, acabaria por vingar. Mais tarde, já um pintor bem-sucedido, Monet teria nada menos que sete jardineiros profissionais a trabalhar na propriedade, mas era sempre o mestre a tomar as decisões que transformaram uns antigos terrenos descuidados num pequeno recanto de paraíso.

Esta casa-museu é hoje uma enorme atracção na pequena Giverny, levando milhares a invadir, dia após dia, a pequena comunidade nas margens do Sena à procura do que quer que seja que permitiu a este ancião com cataratas revolucionar a arte – e pela segunda vez. Primeiro tinha sido ao pintar as primeiras telas baseadas em "impressões", longe do formalismo (e por isso imediatamente rejeitadas) da Academia das Belas-Artes. De forma pejorativa, um crítico diminuiu esse tal de "impressionismo", mas Monet, Renoir e Pissarro acharam que o termo descrevia bem o seu tratamento obsessivo da cor. Mais tarde, no jardim, o traço do pintor torna-se seguro e fluido, o alto e o baixo no espaço deixam de existir para serem substituídos por um turbilhão de cores vivas, azuis misteriosos e verdes vibrantes. Quase arte abstracta, três décadas antes da mesma.

As multidões que hoje ocupam cada recanto do jardim, bordejam todo o charco, preenchem a ponte japonesa e ocupam a sala de estar da casa não conseguem ainda assim destruir a experiência de visitar o museu Monet de Giverny, perto de Paris. Para os visitantes lusófonos, há ainda um bónus escondido entre as gravuras japonesas que o artista colecionava e tanto o influenciaram: o retrato de duas senhoras com traços familiares, saias de folhos, cabelos negros. Sadahide, pintor nipónico, via assim as portuguesas que comerciavam em Nagasáqui no século XIX. É tudo imperdível, a apenas algumas horas do Luxemburgo.

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