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Only Lovers Left Alive: O meu filme de vampiros favorito
Quando os vampiros ouvem música preferem discos de vinil

Only Lovers Left Alive: O meu filme de vampiros favorito

Quando os vampiros ouvem música preferem discos de vinil
Cultura 4 min. 26.02.2014

Only Lovers Left Alive: O meu filme de vampiros favorito

Num mundo ideal os espectadores de "Only Lovers Left Alive" não deveriam saber que se trata de uma história de vampiros. Os primeiros momentos do novo filme de Jim Jarmusch seriam assim muito mais deliciosos. A descoberta da misteriosa personagem de Adam (Tom Hiddleston) seria, além de desconcertante, um verdadeiro exercício de dedução de que o público poderia desfrutar profundamente.

Infelizmente, existe gente como eu para vos contar um bocado da história e para estragar o prazer da descoberta.

Neste caso, são os próprios criadores do filme que "botam a boca no trombone" e revelam que "Only Lovers Left Alive" conta a "história de amor de dois marginais excepcionais (...) que por acaso são vampiros". Quem dá esta explicação é o realizador Jim Jarmusch que assina também o argumento, muito livremente adaptado do último livro escrito por Mark Twain, "The Diaries of Adam and Eve".

Estes vampiros vivem uma vida boémia entre Detroit e Tânger onde vive um certo Christopher Marlowe (John Hurt), sim, o mesmo cujas obras terão sido roubadas ou plagiadas por Shakespeare. Marlowe e Shakespeare não são os únicos nomes célebres citados pelos protagonistas vampiros: Wagner, Byron e outros músicos ou artistas passaram pela vida de Adam e da sua companheira Eve (Tilda Swinton) e surgem nas conversas durante o filme, criando momentos que levam a sorrisos na plateia. As referências culturais são muitas e fica-se com a impressão de que Adam e Eve estiveram na origem ou pelo menos envolvidos em metade dos eventos culturais dos últimos séculos.

Adam é músico, um dandy depressivo, cool e decadente que gosta de se passear num velho Jaguar nas ruas de Detroit. A sua preocupação principal é o rumo que a Terra está a levar por causa dos "zombies" que, cedo descobrimos, somos nós, os humanos.

Como todos os vampiros, Adam precisa de sangue humano para sobreviver, mas não espere perseguições nocturnas, emboscadas num vão de escada ou voos de morcego para entrar no quarto de uma donzela. Adam fornece-se de sangue num hospital onde suborna um médico para lhe fornecer asseptizados saquinhos vermelhos que seriam usados para transfusões. Adam não quer correr riscos pois o sangue dos "zombies" encontra-se cada vez mais contaminado, nomeadamente com sida e outras doenças que podem também ser fatais para os vampiros.

Apesar da depressão permanente de Adam, "Only Lovers Left Alive" fornece uma abordagem "cool" e chique do mundo burguês dos vampiros, enchendo o ecrã de música de Charlie Feathers, Black Rebel Motorcycle Club e momentos melancólicos que os adolescentes mais adultos deveriam apreciar com mais gosto do que qualquer "Twilight" ou um dos seus derivados.

A história até que não é complicada: infelizmente é ligeira e o riquíssimo tema pouco aproveitado por Jim Jarmusch.

Adam e Eve estão apaixonados mas passam imenso tempo separados, cada um no seu canto do mundo. A relação aparentemente platónica acaba por ser perturbada pela aparição de Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve. Os acontecimentos neste filme contam-se pelos dedos de uma mão mas os diálogos valem o seu peso em ouro.Tilda Swinton e Tom Hiddleston são o casal perfeito. Os dois juntos seduzem o espectador permanentemente.

A estranha história de amor está muito longe dos filmes de vampiros para "teenagers". A condição dos protagonistas é apenas uma metáfora e uma forma de os colocar acima (ou ao lado) do mundo dos comuns mortais. O casal Adam e Eve conheceram muitas épocas, muita gente que influenciou o mundo, e estão convencidos que a Humanidade não está no melhor caminho. Para os vampiros, há falta de valores. Eles próprios foram vítimas dos "zombies" sem princípios que se apropriaram de obras de brilhantes vampiros do passado e mesmo de hoje, já que Adam é vítima de pirataria informática.

Para terminar, deixemos a palavra ao realizador que disse, em Cannes, que "Only Lovers Left Alive" fala do "estado actual da vida humana". Jarmusch considera que tal como os humanos, "estes vampiros são frágeis, estão em perigo e dependem das forças da natureza, mas aqueles que detêm o poder continuam a comportar-se sem perspectivas de longo prazo". Com ou sem mensagem profunda, todo o filme é um prazer para todos os amantes de belas interpretações, de criatividade e de uma boa ideia.

"Only Lovers Left Alive", de Jim Jarmusch, com Tom Hiddleston, John Hurt, Tilda Swinton, Mia Wasikowska e Anton Yelchin.

Raúl Reis