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Obituário. O filósofo que assaltou bancos
Cultura 6 min. 08.08.2020

Obituário. O filósofo que assaltou bancos

Obituário. O filósofo que assaltou bancos

Foto: AFP
Cultura 6 min. 08.08.2020

Obituário. O filósofo que assaltou bancos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Bernard Stiegler morreu a 6 de agosto. É um nome indispensável para perceber como o nosso mundo mudou com a digitalização e a tecnologia. Uma filosofia incomum para uma vida única.

O poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht garantia que mais grave que assaltar um banco era ter fundado um. Seria uma ideia que Bernarde Stiegler que aprendeu filosofia na cadeia, depois de ter sido preso por uma série de assaltos a bancos, não desdenharia certamente.

"Eu percebi muito depressa que, para não sofrer do vazio absoluto da prisão, tinha que trabalhar intensamente", escreveu há pouco tempo, em abril de 2020, no diário francês Le Monde.

O filósofo Bernard Stiegler morreu aos 68 anos de idade, o Colégio Internacional de Filosofia anunciou com estas palavras a sua morte na passada quinta-feira, 6 de agosto: "Uma voz singular e forte, um excelente pensador da tecnologia e do contemporâneo, que procurou inventar uma nova linguagem e novas subversões".

Pensador empenhado e de esquerda que tomou várias vezes posição contra o caminho que leva o capitalismo neoliberal, Bernard Stiegler centrou o seu pensamento nos desafios das mudanças sociais, políticas, económicas e psicológicas provocadas pelo desenvolvimento tecnológico. Em particular, analisou os riscos que estas mudanças representam para o emprego tradicional, prevendo mesmo o seu desaparecimento.

Nasceu a 1 de Abril de 1952 em Villebon-sur-Yvette (Essonne), a mãe  trabalhava num banco e um pai era engenheiro da televisão francesa. Pode-se dizer que Bernard Stiegler viveu várias vidas. Em 1968, abandona o seu segundo ano do liceu para se juntar às barricadas da rua Gay-Lussac. Na voragem dos dias, adere ao Partido Comunista, que abandona em 1976, contestando a liderança de George Marchais e o seu alegado estalinismo. Torna-se pai, trabalhador agrícola, depois agricultor falido pela seca, finalmente acaba como dono de um bar de Jazz em Toulouse, com o nome de um livro do músico, cantor, trompetista e escritor Boris Vian,  "L'Ecume des jours" . 

O bar perde dinheiro e, em desespero, tenta recorrer ao crédito bancário para tapar os buracos financeiros, mas a austeridade do chamado "Plan Barre" vai-lhe fechar todas as portas.

O seu banco recusa emprestar-lhe dinheiro para pagar as dívidas e ele resolve pragmaticamente assaltar essa mesma agência bancária. "Roubei o banco para pagar as dívidas que tinha no banco ." A coisa funcionou. "Correu muito bem, tomei-lhe o gosto e roubei mais três dependências bancárias". Sempre sozinho, como sublinhou: "É mais eficiente e não temos de partilhar nada". 

O quarto assalto à mão armada é fatal para a nova e promissora carreira. Uma patrulha policias apanhou-o literalmente de mão na massa.

Vida nova na prisão

Mas Bernard Stiegler considera que foi um momento de sorte no meio da desgraça. Primeiro, por ter sido só condenado a cinco anos de cadeia: "podia ter apanhado 15 anos, mas tinha um excelente advogado". E depois porque isso mudou para sempre a sua vida: "eu estava intoxicado. Se não fosse a prisão, teria acabado muito mal".

A prisão preventiva, iniciada em 1978 e que durará três anos, começa bastante bem graças à intervenção do filósofo Gérard Granel que era frequentador do bar de jazz. Este obtém uma autorização excepcional do magistrado responsável pela execução de penas para poder enviar livros ao preso. Mas Bernard Stiegler quer estudar, como lhe recusam ficar numa cela sozinho, faz uma greve de fome dura três semanas. "Eu queria deixar-me morrer".  

Durante estes anos de encarceramento, entre 1978 e 1983, faz a sua formação filosófica, consegue terminar os estudos que tinha interrompido e inscrever-se na universidade de Toulose, estudando à distância. O filósofo Gérard Granel está sempre a motivá-lo e a ajudá-lo. Funciona como uma espécie de Abade Faria do "O Conde de Monte Cristo", que lhe permite descobrir imensas riquezas do pensamento. Sendo que Granel ao contrário de Faria não está preso. Na cela, durante três anos, continua apenas Stiegler.

 "Puseram-me numa cela normal e deixaram-me completamente só". Assim, começa a "devorar livros". Enquanto estudava filosofia, ajudava outros presos a prepararem-se para o exame de bacharelato. 

A sua situação de preso torna-se uma espécie de experiência filosófica fundadora do seu pensamento. Forçado ao isolamento, chegou à conclusão de que o pensamento não paira angelicamente sobre o mundo e não é totalmente livre e autónomo, ele é formado  no ambiente em que nascemos e vivemos, feito de vestígios, sinais, escritos, textos, e livros que lhe são transmitidos. Forjou a convição de que existe um primado da técnica na constituição do indivíduo. Isso aconteceria desde sempre,  da invenção do fogo à tecnologia informática.

Libertado da prisão, foi para o aeroporto de Blagnac e aterra em Orly, mas quase se podia dizer que aterrou directamente na rue d'Ulm, local da prestigiada Ecole Normale Supérieure. 

Aí, por sugestão de Gérard Granel, conhece Jacques Derrida, que desconstruiu a ideia de "presença" imediata no mundo através da sua teoria da escrita. 

No mesmo ano, da sua libertação, em 1983, o Colégio Internacional de Filosofia criado por Jean-Pierre Chevènement é dirigido por Jacques Derrida. 

Bernard Stiegler realiza, já em 1984, um seminário bimestral sobre técnica. Graças a esta participação, foi contratado como investigador no Ministério da Investigação e depois trabalhou na exposição "Memória do Futuro", em 1988 no Centro Pompidou. Posteriormente a  Université technologique de Compiègne (UTC) ofereceu-lhe um lugar de professor. 

Foi sob a direcção de Derrida que Bernard Stiegler defendeu a sua tese de doutoramento em filosofia em 1993. Os três imponentes volumes de "A Técnica e o Tempo"(1994-2001) são o resultado desta investigação, que constitui a sua principal obra, e que fez dele um dos principais filósofos que se ocuparam sobre a questão da tecnologia e da técnica. 

Entre os seus muitos ensaios, em janeiro deste ano publicou "A lição de Greta Thunberg", no qual afirmava a incapacidade dos estados e empresas para responderem às exigências do desafio ecológico, acreditando que a ciência deveria ser autónoma em relação ao capitalismo. 

 Foi também o autor de "O emprego está morto. Longa vida ao trabalho!" "Estados de choque: estupidez e conhecimento no século XXI" e é co-autor, com Denis Kambouchner e Philippe Meirieu, da "Escola, tecnologia digital e a sociedade vindoura".

Usando a sua experiência prisional, que disse ser infelizmente rara, considerou que era importante usarmos a solidão a que o vírus no obriga para tomar um outro rumo nas nossas sociedades. "O actual confinamento deveria ser uma oportunidade para uma reflexão ampla sobre a possibilidade e a necessidade de mudarmos as nossas vidas. Deveria ser uma oportunidade para reavaliarmos o silêncio e os ritmos em que vivemos, em vez de nos curvarmos à velocidade com que essas coisas aparecem, termos uma prática parcimoniosa e racional dos meios de comunicação e percebermos que todas esses dispositivos, que vêm de fora, distraem o homem de ser um homem." 

 


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