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O travo Doce do preconceito

O travo Doce do preconceito
Música

O travo Doce do preconceito


por Luís Pedro Cabral/ 20.11.2021

Foto: AFP

Ainda hoje as Doce não sabem se era elas que não estavam preparadas para este país ou se era este país que não estava preparado para elas. Desde os anos 80 que não se falava tanto delas como agora. Foi noutro tempo, noutra vida. Uma vida que regressou para lhes fazer alguma justiça. E também para as atormentar. O tempo não foi doce para elas.

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Como tudo começou
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Dizem que o Outono de 1979 em nada ficou a dever ao mais rigoroso dos invernos. Num restaurante de Lisboa, não se sabe exactamente qual, também não interessa, Tozé Brito, músico, compositor, letrista já afamado, era o mais recente director artístico da magnânime Polygram. Na altura, era Deus no céu e a Polygram no vinil. Noutro dia, noutra circunstância qualquer, era uma daquelas oportunidades que só acontecem uma vez na vida. Quatro jovens artistas em início de carreira a almoçar demoradamente com o homem-forte de uma grande editora, que em breve se tornaria um dos mais poderosos no meio, que as podia catapultar para o estrelato

Tozé Brito já não era aquele jovem músico que no final da década de 60 se instalara em Lisboa vindo do Porto, onde deixou os Pop Five Music Incorporated, banda da qual não reza a história, embora já então demonstrasse inequivocamente a tendência pop da sua música. Veio para a capital, onde tudo acontecia, para integrar o famoso Quarteto 1111, que era o número de telefone do estúdio onde ensaiavam. O Quarteto 1111 era uma fotocópia lusitana dos Shadows, composta originalmente por José Cid, Miguel Artur da Silveira, António e Jorge Moniz Pereira. O tema que os retirou do anonimato foi o “El Rei D. Sebastião” que, à bolina da sua mística ancestral, se tornou igualmente lendária na música ligeira portuguesa. A par da participação no Quarteto 1111, Tozé Brito tinha uma importante carreira a solo, que em 1972 culminara com a sua participação no Festival RTP da Canção, então chamado Grande Prémio TV da Canção, no seu nono certame, com letra e música da sua autoria e os incontornáveis arranjos do Estado Novo. Em 1979, parecia que tinham passado séculos. Ele próprio já não sabia bem o que era, pois ainda há meia-dúzia de semanas se encontrava do outro lado da barricada.

Quando o êxito dos Gemini se tornou meteórico, à escala portuguesa, Tozé Brito foi convidado para a Polygram e a banda, um sucedâneo nacional dos Abba, desfez-se no exacto momento em que ele ficou investido das suas novas funções. Mike Sergeant, o escocês mais português que havia no panorama musical da nação, foi à sua vida, juntando-se a José Cid. Sentindo-se abandonada à sua sorte, a parte feminina do quarteto não tinha ficado satisfeita com Tozé Brito, que inexplicavelmente tinha saltado do elevador a caminho das estrelas. Por amor de Deus, Tozé, se houvesse disco de platina, os Gemini já o teriam conquistado. Àquela mesa, só faltava mesmo Mike Sergeant para completar os defuntos Gemini. Teresa Miguel e Fátima Padinha, que já vinha dos tempos dos saudosos Green Windows, génese dos Gemini, estavam com cara de poucos amigos, ainda sem entender as razões do desmantelamento da banda, logo quando a esta, à semelhança dos originais, já tinha sonhos legítimos de internacionalização.

Tozé Brito era na mesma pessoa o passado e o futuro, sendo que ambos podiam ser a fórmula do sucesso, garantia-lhes. Na prática, ele estava a falar de uma “girls band”, que não seria a primeira, mas a primeira a brilhar no cinzentismo vigente. Helena Coelho era a mais nova de todas, mas a que tinha alguma experiência nessas andanças de girls band. Lena, filha de fadista, tinha nascido praticamente no meio artístico. Vinha das Cocktail, na realidade, a primeira girls band portuguesa, que tinha começado em 1970, com Rita Ribeiro (22 anos), Paula Delgado (20 anos) e Maria Viana (19 anos), por onde desfilariam uma série de artistas emergentes, incluindo uma tal de Fernanda de Sousa, na sua fase pré-Ágata, e a própria Lena Coelho, na fase pós-acne. À data deste almoço histórico, Lena Coelho tinha 16 anos. Ela e Laura Diogo, recém-coroada miss Fotogenia no Concurso Miss Portugal 1979, o mais parecido que havia com uma top-model, eram os elementos restantes da banda.

Qual banda? Como é que elas se chamavam, Tozé? Depois de esclarecidas as dúvidas das ex-Gemini, tinha-se instalado esse vazio. Sem um nome, era como se formalmente não existissem. Entre as entradas e o prato principal se tinha percorrido o caminho da hesitação para aquele pulsar de entusiasmo de um projecto que acabava de nascer, embora ainda sem nome de baptismo, que teimava em não fechar o assunto com chave de ouro, para que pudessem passar para tudo o resto que faltava. Teria de ser algo atrevido, mais ou menos apicantado, simples e ao mesmo tempo ambíguo, com aquela pitada de malandrice gastronómica, que tão bem caracteriza o humor português. Nomes sairam à desgarrada, mas ninguém se lembrava de nada que fosse comparável à excitação daquele momento.

Por entre um silêncio de brain-storming, só interrompido ocasionalmente por nomes que morriam à nascença e tilintares de brinde para manter quebrado o gelo, surgiu do nada o empregado de mesa, com a mais trivial das perguntas: Doce?

Eh, pá, era isso mesmo: seriam as Doce. Melhor que isto, só um contrato assinado com a Polygram. Essa era a parte mais fácil. O difícil era fazer das Doce a pedrada no charco que o seu mentor preconizava, não menos entusiasmado do que elas que, quando chegou a conta, já estavam completamente a bordo dessa doce ilusão.


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Bem bom!
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Lá fora, sob uma lápide de cravos descoloridos por sucessivas tempestades políticas e sociais, jazia a ditadura, já muito para lá do rigor mortis, embora com as suas feridas intactas, a vaguear um pouco por toda a parte, na retroatividade própria de uma democracia debutante, que conquistou a sua liberdade perdendo no mesmo ato um império e uma guerra. No seu imenso atraso civilizacional, Portugal era um país a preto e branco, marcadamente rural, com os bolsos rotos e uma dívida incalculável para com a liberdade. Nas cidades cresciam desordenadamente enormes asilos de desenraizados, o interior transformara-se em território desertificado, uma máquina de solidão e de velhice, com a descendência na diáspora.

Portugal estava sob o primeiro resgate do FMI da curta história da sua democracia. O admirável mundo novo ia chegando a conta-gotas, como se fosse administrado a soro, com todas as suas ambiguidades. Entre a velha psicose do tratado de Tordesilhas, a monarquia deposta à lei da bala, mais de quatro décadas de ditadura, 13 anos de uma sangrenta guerra ultramarina, gerindo com volfrâmio as neutralidades com que se atravessou de permeio a II Guerra Mundial, Portugal era um país ávido de tudo, tendo de herança um quadro triste, como o do menino da lágrima. Os pobres continuavam a ser muitos e muito pobres, os ricos continuavam a ser poucos e muito ricos, a miséria era tão funda que mais parecia uma característica genética. A velha história do mundo, que a ditadura tão bem conservara no seu formol de moralidade.

Eram infinitamente maravilhosas as premissas de progresso, quase tantas quanto as camadas de seculares preconceitos que os longos anos de repressão sedimentaram na sociedade portuguesa, patriarcal até à espinha. A revolução queimou os seus soutiens, mas a condição feminina permaneceu fechadinha no armário, como uma relíquia. Por entre os densos estratos de uma sociedade que permanecia estruturalmente desigual, haviam os privilegiados, os desgraçados, uma classe média que timidamente surgia à superfície e, lá no fundo mais fundo do alçapão social, se encontravam as mulheres, Deus as conservasse assim, bonitas, delicadas, parideiras flores de estufa, orgulhosas herdeiras da escola de lavores, donas-de-casa, mães de família, sossegadinhas no lar, como elemento decorativo, a exercer o seu papel secundário na história das coisas. Sem cometer o erro básico de generalizar o que não é generalizável, nem todas as mulheres eram essas mulheres, assim como nem todos os homens eram esses homens. Nem eles eram uma quadrilha de machistas, nem elas um paradigma de submissão. Era a consciência colectiva, na sua moralidade de seita, que se comportava como um macho-alfa, territorial, que em segredo cometia os seus pecados, exercendo em casa a posição de missionário. A igualdade de género estava para as mulheres como a Taprobana para os Lusíadas. Não deixava de ser apropriado, pois a sua geografia tem a forma de uma lágrima. A paridade não passava de um princípio romântico, que os homens que eram homens faziam por manter sem adesão à realidade. Faziam-se bonitos discursos sobre a igualdade de género, sobre o estado evolutivo da sociedade portuguesa, mas, lá no fundo, mais fundo ainda do que se encontravam os direitos das mulheres, que mais não eram do que a própria negação dos Direitos do Homem, lá nessas profundezas, o pensamento subliminar, bem alicerçado na religião, continha o poder de todas as hipocrisias. Numa sociedade de aparências e de progressismo retráctil, o discurso era uma coisa, o pensamento, outra. Lá, nesse território inóspito da unilateralidade masculina, comodamente instalado entre um passado que não passava e um imaginário futurista do mesmo género, escondia-se o mais íntimo refrão. Pensando bem, até daria um título catita para uma canção: Bem Bom!

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Uma da manhã
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Se houvesse em Portugal qualquer coisa parecida com um Top +, ficaria no pedestal o fado, que andava de tasca em tasca e se mantinha tradicionalista, o folclore, entre a qualidade de parente pobre e influencer medieval, a música de intervenção, incontornável por uma questão de coerência antropológica, o chamado novo rock, à procura de saber o que isso era, e só depois aquela coisa indefinida, que estrangeiro batizaram de Pop, um descomplexo de entretenimento, que era tudo e mais alguma coisa que ficasse no ouvido. Tudo isto com um enorme atraso, durante tantos anos decantado pela censura. Quando nos países civilizados as coisas aconteciam, a Portugal só chegavam os seus ecos, devidamente diabolizados. Os Beatles tinham começado em 1960. A guerra colonial em 1961. Por estranho, a moda e a guerra tinham em comum a maldição de tornar velho o que era novo. De qualquer maneira, em 1979 não era possível falar de música Pop em Portugal sem falar, entre outras raridades, dos Gemini, uma espécie de modernidade transitória, entre a pós-revolucionária pedrinha no charco e uma certa formalidade clássica, um certo decoro artístico ainda sob o controlo remoto de velhos hábitos. O nome não tinha qualquer conteúdo astrológico, mas deu-se a coincidência cósmica de ser o que estava escrito no isqueiro do manager da banda, quando estavam à procura de nome para esta.

Compunham a formação original (1976), Tozé Brito, Mike Sergeant, Teresa Miguel e Isabel Ferrão. A banda tinha derivado dos Green Windows (1972), que fizera incólume a travessia de regimes e pelo caminho se tornara demodé. Os Gemini não tinham qualquer problema em assumir que no mercado nacional se moviam no chamado espaço Abba, os suecos que nasceram para o mundo vencendo o festival da Eurovisão, com o imortal “Waterloo”, no dia 6 de Abril de 1974, com Portugal, sem saber, em banho-maria revolucionário. Dois casais Pop, levemente românticos, moderadamente sofisticados, cantando temas para embalar a nação. Em 1976, quando os Gemini lançam o primeiro single – Pensando em Ti -, Tozé Brito, a estrófe ideológica da banda, foi considerado o compositor do ano. Em 1977, participam no inevitável Festival RTP da Canção com o tema Portugal no Coração. Nesse ano, Fátima Padinha, que integrava os Green Windows, substitui na banda Isabel Ferrão, que se tornaria mais tarde apresentadora da RTP. Os momentos de glória dos Gemini, que se tornaram na primeira banda portuguesa a receber oficialmente um disco de ouro, vendendo mais de 130 mil discos num ano(obra, para a época), estavam reservados para o Festival da Canção de 1978, com o inesquecível, místico e até esotérico Dai Li Do, que culminava com o imperativo de um papagaio a voar, que era em simultâneo uma metáfora da banda e do país. 

Os Gemini terminaram oficialmente em finais de Setembro, as Doce nasceram informalmente em finais de Outubro. Desde aquele momento, ficaram sob os auspícios da máquina da Polygram, que tratou de construir a sua imagem, desconstruindo estereótipos, peça por peça. O próprio Cláudio Condé, presidente da editora, se empenhou no projecto que elas eram. Jogariam forte, com todas as armas que a juventude lhes dera. Era possível que a sociedade, dentro do seu âmago híbrido de provincianismo cosmopolita, ainda não soubesse o quanto salivava por um doce como elas.


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Uma da manhã
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LUSA

As Doce eram um produto mais sofisticado, mais elaborado do que à época se podia imaginar, nem havia barómetro para isso. Visto à distância de quatro décadas, as letras das suas canções, que hoje mais parecem próprias de meninas de coro, naquela altura eram quase como material subversivo, com um anzol no pop e um isco de disco-sound, com um pé na inocência e outro no pecado. Foram uma produção cuidada, uma erupção programada ao pormenor, embora nada pudesse prever as enormes ondas de choque que esta girls band provocaria na águas aparentemente estacionárias da sociedade portuguesa, que conquistara a sua liberdade mas não sabia bem o que fazer com ela, tendo a montante uma crise e a jusante os mecanismos indeléveis da moralidade e dos bons costumes cristãos, uma espécie de filtro puritano, sempre de olho nos comportamentos “desviantes”. Os preconceitos encontrariam nesta band de girls um repasto inesquecível.

Se elas cantassem as mesmas letras com mais roupa que uma nazarena, ainda vá que não vá. Era possível que fossem atiradas para o anonimato com a mesma rapidez com que foram catapultadas para o estrelato, logo após o estrondoso êxito de Amanhã de Manhã, o seu single de lançamento, em 1980. Mas o seu arrojo não era apenas semântico. Era, mais que tudo, de confronto visual, setas cirúrgicas, apontadas ao pudor, aos pontos mais sensíveis da consciência colectiva, desafiando, ao vivo e a cores, a sua tendência ancestral para se manter domesticada. A sua imagem é uma criação de José Carlos, estilista, costureiro, cabeleireiro, que nelas projectou a sua própria revolução. Às tantas, era isso que elas eram: uma revolução.

As Doce foram criadas para cartas fora do baralho. Os homens desejavam-nas, as mulheres desejavam ser como elas. Foram uma espécie de flautista de Hamelin, retirando do armário o corpo e a sensualidade, deixando meio mundo fascinado e outro meio a destilar veneno. A juventude dançava, os intelectuais arrepiavam-se, as feministas espumavam e as beatas benziam-se. Nunca houve meio-termo para elas. Só o amor e o ódio. De tudo podiam ser acusadas como, aliás, aconteceu. Mas a elas ninguém ficou indiferente. Se calhar, eram apenas quatro miúdas a fazer o que as outras não podiam, quatro mulheres a divertir-se, a transgredir de diversas maneiras o território masculino, usando para isso o universo feminino. O seu pecado foi só esse, mas pagariam por ele o resto das suas vidas.

Em Portugal, nenhuma banda era banda sem passar pelo Festival RTP da Canção, que ainda hoje consegue manter o seu esqueleto intacto, estando então para a música ligeira portuguesa como o Papa está para Roma. Com o tema Doce, as Doce se apresentaram a 7 de Março de 1980, tendo de almofada o enorme sucesso de Amanhã de Manhã. Apresentaram-se com um visual e sonoridade marcadamente “disco”, saltos altíssimos, fatos púrpura e azul com lantejoulas cintilantes. Dentro da estética taciturna do teatro de São Luiz, em Lisboa, eram como se tivessem chegado de outra galáxia, onde decididamente haviam políticas liberais em relação à cor. Ainda assim, as Doce tiveram uma passagem algo discreta, talvez por isso conquistando um honroso segundo lugar. Esse ano, no entanto, traria grandes conquistas. Logo depois do Festival da Canção, lançaram o mítico álbum Ok,Ko, que vendeu como pãezinhos quentes a um público esfaimado de novidade. A fama das Doce tornou impossível que qualquer uma delas, mesmo à paisana, passasse na rua sem ser reconhecida, tratando-as pelos “petite noms”, como se as conhecessem desde sempre. Fátima Padinha era a Fá. Helena Coelho, a Lena. Teresa Miguel era a “ruiva”, Laura Diogo era a “loura”. Só as quatro eram as Doce.

Quando chegou o momento do Festival RTP da Canção de 1981, já toda a gente sabia quem eram. Delas se esperava tudo e mais alguma coisa. Nesse aspecto, as Doce não desiludiram, apresentando-se em palco vestidas de odaliscas, as Mil e Uma Noites na televisão pública, patíbulo de todos os patíbulos, numa versão emancipada de escravas de harém. Senhoras e senhoras, com o tema Ali Bábá – O Homem das Arábias, as Doceeeee!!!

As palminhas foi o que mais genuíno elas conseguiram naquela noite. As Doce, que à partida reuniam todo o favoritismo, dançaram ali a dança do seu destino. Foi como se tivessem agitado a lamparina do conservadorismo, saindo de lá o génio invisível dos costumes para as atirar para as bocas do mundo e para um humilhante quarto lugar. No dia seguinte, estava o escândalo montado e as línguas viperinas em franca atividade. Que tinha sido uma pouca vergonha, que estavam mais despidas do que vestidas, que a loura nem tinha voz, que não passavam de umas provocadoras, mulheres-objecto a exibir o corpo, que a sua actuação devia ter tido bolinha vermelha, que a RTP podia ter avisado que o Festival da Canção, afinal, não era aconselhável a menores de 18 anos. As críticas chegavam um pouco de todos os quadrantes, até os mais improváveis. Maria Teresa Horta, insuspeita lutadora pela igualdade de género, foi a mais contundente: “Estou abismada com a pornografia das Doce, abaixo das mulheres do Cais do Sodré”. Maria Teresa Horta não sabia, mas feriu mais esta sua frase que todos os piropos de baixa categoria que elas tinham de ouvir na rua, já muito antes de ser Doce. Uma certa forma de elite tinha debitado à saciedade a sua sentença sobre o fenómeno em que elas se tornaram. Mas o verdadeiro feedback, elas tiveram do grande público, que fez dos seus temas disco de prata. A crítica feroz não acompanhava a sua popularidade, nessa altura nos píncaros.

As Doce eram o disco mais pedido, as mais requisitadas, as mais amadas, assim como as mais odiadas. Uns só queriam atirá-las para o esquecimento, outros só queriam tê-las como cabeça de cartaz. Corriam o país de norte a sul, com multidões a gritar por elas. Queriam vê-las, tocar-lhes, provar um pouco do seu doce irresistível. Em nome das Doce, elas perderam a vida como a conheciam. E, por essa estrada, a juventude também. Elas, que eram o símbolo da emancipação das mulheres, seriam escravizadas pelo seu próprio sucesso. Quando deram por elas, já representavam mais do que pensavam. Gostassem ou não, todos as queriam. E elas tinham que corresponder, abdicando de tudo o resto.

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É demais!
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O sucesso das Doce foi tão tão grande e tão intenso, que não se conteve em Portugal. De toda a parte do mundo choviam convites para as receber. E, em Novembro de 1981, partiram numa digressão pela América do Norte, um sonho que há tão pouco tempo parecia irreal. Lá longe, esse sonho transformou-se num pesadelo. Estavam no Canadá, quando receberam um telefonema de Lisboa, informando-as de uma notícia, que tinha começado a correr e que entretanto e tinha transformado num tema nacional, envolvendo Laura Diogo e o guineense Reinaldo Gomes, então jogador do SLB. Fátima Padinha, Lena Coelho e Teresa Miguel tiveram de contar a Laura Diogo quais os contornos desse rumor, que a deixariam devastada. Segundo o que constava em Portugal, Laura dera entrada no hospital depois de uma noite de sexo com Reinaldo, que a havia sodomizado. Por óbvio, todas sabiam que se tratava de uma mentira. Mas uma coisa era a verdade e outra uma mentira contada muitas vezes. Este rumor rapidamente se tornou numa espécie de verdade absoluta, que vigorou mesmo depois de ser negada pelos seus intervenientes. Laura e Reinaldo não se conheciam, assim como até hoje não se conhecem pessoalmente. Um e outro foram muito prejudicados por este rumor. Reinaldo, que era casado, viu a sua vida pessoal e profissional muito afectada, tendo sido obrigado a mudar-se para o Boavista. Laura nunca mais foi a pessoa que era. Esse trauma ficou para o resto da sua vida.

As Doce tentaram acabar com a mentira pela raiz, contratando um advogado para provar que o rumor não era mais do que isso. Agostinho Pereira de Miranda, era então um jovem advogado, mas o seu entendimento sobre este caso, na verdade, um não-caso, manteve-se inalterado nestas décadas que passaram, consolidando apenas a certeza que estas mulheres, sobretudo a visada, jamais viriam a ser ressarcidas do enorme prejuízo que este rumor lhes causou. Esse rumor quase destruiu as Doce, mas não sem antes a banda repor pelo menos a justiça que lhes havia sido subtraída pelo júri em 1981. Em 1982, as Doce vencem finalmente o Festival da Canção, com o tema que recentemente deu nome ao seu filme biográfico: Bem Bom, representando Portugal na Eurovisão, com um 13º lugar.

O princípio do fim das Doce começou em Maio de 1985, com a gravidez de Lena Coelho. Conforme ela própria conta, “por causa da nossa dedicação à banda, já tinha feito três abortos, algo de muito doloroso na minha vida”. Lena Coelho foi substituída por Fernanda de Sousa, a caminho de ser Ágata. No entanto, o carisma das Doce nunca mais foi o mesmo, juntando-se a isto o imenso desgaste público e privado a que foram sujeitas as quatro mulheres. Por muito que tentem mudar a sua história, as Doce serão sempre aquelas quatro. Em 1986, as Doce acabam. E talvez a injustiça maior que lhes fizeram foi a de tê-las condenado a um amargo e incompreensível esquecimento. “Foi como se nos tivessem apagado da história da música portuguesa”, diz Lena Coelho.

Filme "Bem Bom", que retrata a história da girls band portuguesa, Doce.
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O filme da realidade
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Filme "Bem Bom", que retrata a história da girls band portuguesa, Doce.
Foto: Imagem Promocional

 O filme resgatou-as desse esquecimento quase constrangedor. As Doce reapareceram. Mas, entre o brilho do cinema e a sua realidade, o contraste é quase intolerável para elas. Lena Coelho manteve-se sempre no meio artístico, cumprindo um dia o sonho de se mudar para o campo, de viver calmamente, em paz consigo e com a sua família, que não precisa de ir ao cinema para saber a sua história. Ainda passou por outra banda, os Sucesso, da qual era manager a própria Laura Diogo, que concluiu a seu licenciatura em Psicologia, antes de se mudar em definitivo para os EUA. Vive actualmente em São Francisco, na Califórnia, onde tem uma clínica.

Fátima Padinha abandonou a vida artística para se tornar secretária. Foi nessa condição que conheceu Pedro Passos Coelho, quando este era líder da JSD. Casaram e tiveram uma filha. O casal havia de separar-se, pois Passos Coelho apaixonou-se por uma grande amiga sua, Laura Ferreira, com quem o seu ex-marido se casou. Um casamento que nunca afectou a relação de amizade entre os três. Quando Laura Ferreira adoeceu gravemente, o mesmo drama aconteceu com Fátima Padinha. Laura Ferreira faleceu a 25 de Fevereiro de 2020, deixando viúvo o ex-primeiro-ministro. Foi nessa altura, ainda muito debilitada, que Fátima Padinha se mudou para o norte. As Doce, apesar dos caminhos diferentes que seguiram pela ordem do tempo, encontraram sempre maneira de manter a sua ligação. Como diz Fátima Padinha, “foi mais forte o que nos uniu do que o que nos separou”.

Quanto a Teresa Miguel, soube-se dela quando há dias Lena Coelho lançou um desesperado apelo público sobre o seu caso. Teresa Miguel, que tal como Lena Coelho se manteve sempre ligada ao mundo artístico, tinha caído numa situação de extrema urgência, devido a uma doença degenerativa nas ancas, a necessitar de uma cirurgia igualmente urgente, sucessivamente adiada desde o início da pandemia. A sua amiga ex-Doce dizia mesmo que estava iminente uma tragédia. Teresa Miguel encontrava-se sozinha, a viver com imensas dificuldades, sem o mínimo de mobilidade e a precisar de ser entregue aos cuidados de uma unidade médica. O seu apelo foi prontamente atendido por José Raposo e Luís Aleluia, que encontraram lugar para ela onde ela já tem lugar mais do que merecido: entre os artistas. A Casa dos Artistas será de futuro a sua casa.

As Doce e o próprio Tozé Brito acham que é de inteira justiça, que só peca por tardia, o filme que fizeram sobre elas, embora nenhum deles encontre maneira de se rever totalmente no que viram. É essa a grande dificuldade de um filme biográfico com os biografados na assistência. Numa coisa parece toda a gente estar de acordo. Hoje, que o tempo acertou contas com elas, como faz com cada um de nós, elas sabem exactamente o que já sabiam. À sua maneira, foram demais. 

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